Sábado era o dia marcado para sair o resultado da cintilografia óssea que esclareceria definitivamente se a mancha na cabeça do meu úmero seria ou não uma necrose avascular (NA). Se fosse, haveria o que é chamado de “cold spot” na imagem cintilográfica. Se fosse aquela mancha, então teríamos um problema, pois ela tomava quase toda a área da cabeça do úmero. Se fosse, possivelmente haveria outros focos.

Foi baseado nestes “se fosse” que a cintilografia foi pedida – e foi baseada nas suspeitas que passei a pesquisar o problema a partir de quarta-feira. Fiz uma busca razoável, porém rápida, no Pubmed e não achei correlação entre uso de esteróides androgênicos e necrose avascular. Li alguns artigos e achei dificuldade em me enquadrar ali – seria uma necrose idiopática e assintomática, pois não tenho dor.

Pesquisei mais um pouco e conclui que realmente era improvável ser uma NA porque alguns dias antes eu havia colocado uma carga de 90kg no supino, sem nenhuma conseqüência. No caso de ser uma NA, haveria colapso do osso.

Pesquisei imagens com e sem contraste. Me pareceu que a minha imagem tinha uma área mais concentrada escura e um córtex bem mais espesso. Tudo isso parecia esquisito, mas foi se formando na minha cabeça uma suposição de que boa parte fossem adaptações esportivas. Com certeza havia lesões – além das patológicas, as adaptativas.

Tive sérios problemas com a seguradora, Medial, que só foram resolvidos plenamente com o envolvimento da imprensa.

Isso tudo e um acúmulo de objetos danificados, carro no conserto, acidente com minha mãe e outras pequenas e grandes confusões formou um quadro que me levou ao exame, na sexta-feira, bastante desgastada. Talvez como resultado desse desgaste todo, saí do Delboni com uma fortíssima dor de ouvido. Tomei um analgésico forte, coloquei gotas anestésicas e antissépticas no ouvido e dormi o resto da tarde e noite. Entre uma dormida e outra, pesquisei o que pude sobre a técnica de cintilografia e a interpretação de suas imagens. Sabia exatamente o que olhar: “cold spots” – não queria cold spots. Essas são as áreas de menor absorção do radioindicador, características de necroses, cânceres, etc.

No sábado, fui ao Tai-chi, fiz uma excelente e bem focada aula, fui à Clínica Humana em Guarulhos, onde faço tratamento dermatológico, depois fui à Santa Ifigênia com o Edison trocar o fio do meu ipod e almocei. Até esse momento, pensei pouco na cintilografia. Achava mesmo que pegaria o laudo pela Internet e só na segunda buscaria a imagem.

Quando cheguei em casa, o laudo estava indisponível. Não pensei duas vezes: saí e fui buscar o exame. Deixei a Mel no metrô e fui ao Delboni sozinha. Desliguei o celular, para desespero dela, que me ligava toda hora.

Sim, eu confiava nas minhas conclusões. Eu confio na minha capacidade técnica para recuperar e processar informação médica. É minha profissão e faço isso bem. Mas a realidade é probabilística e ainda que o mais provável fosse que o laudo desconfirmasse a hipótese diagnóstica, havia a chance de que ocorresse o contrário. Eu não podia estimar o tamanho dessa chance.

Entre o Metrô da Vila Madalena e o Delboni do Sumaré a distância é pequena, mas é um dos bairros mais irritantes de São Paulo. Bairros com curvas são irritantes para mim. Demorei bem mais que os dez minutos que eu previa entre um ponto e outro. Cheguei lá umas quatro da tarde. O laboratório vazio – faltavam duas horas para encerrar o expediente. Funcionários de saco cheio. E eu com uma leve dor no peito e com muito calor.

Mostrei meu protocolo e recebi um pequeno envelope.

“Sem chapa?…”

“Sem – cintilografia é sem.”

“Sem CD?…”

“Sem – não tem, não”.

Não sei por que perguntei. Era irrelevante.

Sentei numa mesinha ao lado da máquina de café e abri rápido o envelope. Fui lendo o laudo. A “fase 1” já me tranqüilizou. Quando terminei a última fase, minha cabeça latejava de dor. Não: sem cold spots. Muitos hot spots. Não faço a mais remota idéia do que eles possam indicar além da minha vaga suposição de adaptações morfológicas e funcionais do meu esporte. Lesões… Cicatrizações… Um ponto bem no calo da fratura da fíbula… Pontos espalhados por todas as áreas de sobrecarga dos levantamentos. Observei longamente a imagem.

Peguei um capuccino e liguei o celular. Ligações da Mel. Retornei, expliquei por cima o que havia lido no laudo.

Dois dias antes minha irmã havia perguntado quem iria comigo ao exame. Ninguém. Também ninguém foi comigo às ressonâncias. Nem a nenhum outro exame. No dia em que derrubei a barra na cara, a Mel foi comigo ao hospital, e se eu tivesse que ir novamente, iria sozinha.

São todos momentos meus. A abertura do envelope foi um intenso momento de incerteza. Lá dentro tinha um pedaço de informação com potencial de mil bombas atômicas, capaz de transformar minha vida instantaneamente. Eu tinha que lidar com aquilo sozinha.

Talvez, em outro momento da vida, eu preferisse enfrentar momentos críticos acompanhada. Eu acho, no entanto, que perdi o bonde desse tipo de parceria existencial. Não tem mais espaço na minha vida para medo, mãos dadas no último minuto do segundo tempo, abraço diante de envelopes lacrados, ombro da camiseta molhado de choro, choro, beijo de despedida, beijo de vitória.

A solidão é pacífica, mas é solitária e definitiva.

 

Marília

 

 

CINTOLOGRAFIA ÓSSEA COM METILENO DIFOFONATO MARCADO COM 99M Tc – 3 FASES

 

Data: 15/02/2008

 

Cintilografia óssea em 3 fases evidenciou:

 

Fase 1 =  Fluxo: Estudo dinâmico obtido imediatamente após injeção do radioindicador nos seus primeiros 60 segundos, mostrou distribuição normal da perfusão em ombros.

 

Fase 2 = Pool: Cintilografia óssea estática de ombros obtida 5 minutos após injeção do radioindicador evidencia distribuição normal da concentração do radioindicador.

 

Fase 3 = Imagens tardias: Cintilografia óssea de corpo total, realizada nas posições anterior e posterior e imagens complementares, evidencia aumento da concentração do radioindicador em articulações acrômio-claviculares, diáfises umeral à direita e esquerda (aumento difuso e homogêneo), cotovelos, coluna cervical, coluna torácica (T9), coluna lombar (L4), 10º e 11º arcos costais posteriores à esquerda (aumento discreto e focal), fêmur esquerdo (focal, distal), fíbula à direita (2 áreas), e tornozelo à direita.

 

Conclusão: Reações osteogênicas a esclarecer nos arcos costais, fêmur à esquerda, fíbula e tornozelo (pós-trauma?); nas demais áreas considerar a possibilidade de sobrecarga mecânica.

 

Imagem:


 

Fontes legais:

 

http://en.wikipedia.org/wiki/Scintigraphy

 

http://www.springerlink.com/content/h146l14h170w6771/

 

http://en.wikipedia.org/wiki/Medical_imaging

 

http://en.wikipedia.org/wiki/MRI