Segunda-feira entrei com a senha e user do Delboni para ver se já tinha saído o resultado das minhas ressonâncias do ombro e cotovelo. Vi que tinham e abri o arquivo. Achei que o relatório do cotovelo não era muito bom. Segunda é dia de supino pesado na Nautilus, minha bolsa estava arrumada com camisas e tudo mais e o plano era continuar o teste da Katana até 100kg ou mais. Me pareceu uma boa idéia falar antes com o Fabiano. Liguei e mandei por e-mail cópia do laudo. Ele me pediu para ir vê-lo com as chapas antes de fazer qualquer coisa.

Olhando as chapas, Fabiano achou que eu consegui fazer a mais bizarra lesão no cotovelo que ele já tinha visto. Riu e me mandou ficar quieta, treinando sem peso axial no braço até cicatrizar a lesão que teve comprometimento ósseo.

Foi então que ele olhou as chapas do ombro, cujo laudo nem tinha me chamado atenção. Ele olhou e não gostou. Me disse com sua calma habitual que não tinha certeza, mas era necessário verificar se aquela mancha escura não poderia ser uma necrose avascular. E que, se fosse, era preciso verificar se não haveria outros focos dela pelo corpo. Era meu primeiro contato com esse diagnóstico. Perguntei detalhes. Ele disse que havia uma relação com uso de corticóides, especialmente uso prolongado de cortisona.

Ficou aquela suspeita no ar quanto ao meu uso de esteróides e que conseqüências poderia ter. Me ocorreu imediatamente que as lesões mais sérias que tive foram justamente logo após meu uso das substâncias de tempo de detecção curto, quando houve a ameaça do anti-doping.

Mil pensamentos competiam pela minha atenção ao mesmo tempo. Ouvi tudo, mas registrei e fui embora com a frase final do Fabiano na cabeça: “eu estou do seu lado”.

Entrei em modo “resolução de problemas”. Um raio havia queimado os telefones de casa, de modo que fui até a casa dos meus pais fazer as dezenas de ligações necessárias para marcar a cintilografia óssea que esclareceria o diagnóstico, bem como obter a autorização do convênio. Tudo muito chato e complicado.

Ao lado, mãe e filha assustadas.

De noite fui ao Tai-chi. Sabia que precisava muito de alguma paz. Enquanto eu administrava muitos pequenos problemas, estava tudo certo, mas agora havia aparecido um grande.

Quando pisei no tatame, senti que não tinha força nem para levantar os braços. Fui levando os exercícios até o primeiro momento de “se recolher no umbigo”. Então tive uma pequena alucinação: senti minha barriga inchar e dela saírem larvas de uma enorme bicheira, pelo umbigo. Abri os olhos, alarmada. Tive enjôo e achei que iria vomitar bicheiras. Desisti e sentei no banco. Leo sentou do meu lado e ficou pensando no que fazer comigo. Me pediu para deitar no chão e fazer um exercício respiratório. Eu até tentei, mas dormi instantaneamente, com gente passando de um lado para outro, treinando kung fu e conversando.

Quando acordei me dei conta do que tinha pela frente. Um teste. Afinal, é fácil falar em foco, em controle mental e energia quando se está bem. Mas e agora? Lembrei de todos os meus princípios e resoluções. Algum deles mudaria caso se confirmasse o diagnóstico? Não, não mudaria. Eu decidi viver com qualidade e de uma determinada forma, e é assim que vai ser, aconteça o que acontecer. Ainda que isso encurte a vida, ainda que até mesmo impeça a vida. Minha vida é boa demais para que eu abra mão dela em nome de seu prolongamento. Aos pouquinhos, fui relaxando. O medo que provavelmente me impulsionou a agir com eficiência e emergiu na alucinação das bicheiras se dissipou. Com o fim do medo, sumiu o apego. Com o fim do apego, nem uma gota de raiva.

Só paz.

Ontem Gláucio perguntou se poderia orar por mim e se um outro amigo também poderia. Respondi que sim, claro, e eu agradecia. “O que você quer que eu peça?” Pensei, pensei… E decidi que não quero pedir nem cura, nem que não esteja doente – nada. Não tenho nenhum pedido, exceto que ocorra o melhor para todos.

Não saberia pedir algo que já tenho.

Agora estou na sala de espera da cintilografia. Não sei o resultado.

Apenas sei que deu tudo certo, o que quer que dê.