Quando eu voltei do Rio Grande do Sul, cerca de um mês atrás, completamente traumatizada e confusa com o que se passou, um amigo advogado disse: “Ma, é quase caso de livro-texto. Parece episódio do Law & Order SVU onde a versão da vítima é desconstruída pelos perpetradores e ela é transformada em réu, acusada de paranóica e louca”.

Sabe que funciona essa estratégia, certo? Quando essa gente acusa uma vítima de “estar se vitimizando” por “enxergar fantasmas de opressão machista” em toda parte, de fato conseguem alinhar evidências: no passado dessa mulher, é bem provável que isso tenha acontecido mais vezes.

Ora, prezado leitor, não é necessário complementar sua formação com disciplinas em estatística no IME para entender que isso é relativamente óbvio: a probabilidade de uma mulher mais consciente (feminista), mais assertiva e portanto mais difícil de ser intimidada “se meter em encrenca” é muitas vezes maior do que das outras mulheres.

O coro conservador vai engrossando. Nosso passado é escavado até os ossos, nossa intimidade exposta e a versão fictícia de que “nada aconteceu” é repetida ad náusea. Até que uma parte dos observadores (diretos ou leitores) de fato questiona a veracidade de qualquer das versões. Esse é o primeiro objetivo do criminoso.

O segundo objetivo é levar a vítima a se auto-questionar.

Quando eu dei a entrevista para a Trip relatando o estupro e violência sexual que ocorria nos partidos de esquerda da minha adolescência, recebi uma chuva de acusações das mais absurdas. Mas algo me chamou atenção: o e-mail de um militante do meu tempo questionando minha versão. Obviamente minha versão é verdadeira: afinal, eu estava embaixo dos sujeitos que cometeram as violências comigo. Qual o motivo deste e-mail? Hoje eu sei que é provocar dúvida, solapar minha segurança em sustentar minha versão da experiência.

De certa forma, estas duas reações paralelas ilustram o argumento da minha apresentação no simpósio sobre Gênero e as Esquerdas esta quinta-feira. A última reação (esta do RS), liderada por indivíduos conservadores e sem nenhum compromisso com transformação social, dentro dos esportes de força, obviamente é mais tosca, mais óbvia, mais fácil de desconstruir. Afinal, nós ainda somos a elite simbólica e detentores da proficiência argumentativa. Isso não torna a reação machista dos ex-companheiros menos reprovável.

Ambas têm em comum um elemento manipulativo perverso: erodir a auto-confiança da vítima. Fazê-la questionar-se e questionar seu próprio valor até o limite de não ser capaz de resistir mais na denúncia da violência ocorrida.

Contra isso, a primeira ferramenta é a calma e a lógica para todos, a começar pelos observadores: a probabilidade da vítima estar falando a verdade e os que a acusam de “feminista paranóica” serem culpados é muito alta. Vejam que conveniente: o ocorrido no RS tinha dois participantes (o agressor e eu) e dois observadores, ambos com interesses ligados à versão mentirosa. Não é curioso que não tenha havido nenhum outro observador no raio de dez metros e o som estivesse extremamente alto? E que em seguida eu fosse levada para um banheiro e lá deixada para “esfriar a cabeça” por cerca de uma hora? E que ninguém tenha visto nada? Conveniente, não?

Mais bonito, para a elegância do modelo interpretativo, é que uma semana depois do ocorrido foi anunciado um lindo acordo institucional envolvendo um dos participantes (“observador”) do caso do RS e elementos estrangeiros, um dos quais o primeiro a proibir por escrito os brasileiros (ligados a mim) de divulgar o caso internacionalmente. Não foi armado, né? Nada…

Também não é preciso nenhum curso especial em sociologia para apreciar os interesses envolvidos. Questionar a versão de Desiree Washington ao acusar Mike Tyson pode até ter um embasamento num possível golpe da moça para obter a indenização milionária que resultaria de um processo indenizatório contra o lutador. Mas qual o interesse que eu teria em acusar falsamente um indivíduo provinciano, sem posses, que eu mal conheço, de baixo nível educacional e profissionalmente a milhas de distância de mim (para baixo)? Não é intuitivo perguntar “o que ganha a vítima ao acusar falsamente o agressor?”

Então entra o último e inevitável argumento: “ela é louca”. Acho que toda feminista já foi acusada de louca. No meu caso é sopa no mel, já que eu tenho um diagnóstico de desordem bipolar.

Puxa que chato para os amigos do agressor: essa acusação não cola… Desordem bipolar não produz alucinações e nem distorções relevantes da experiência real. Nenhum psiquiatra levaria isso em sério.

A moral da história é que feministas se metem sim em mais “encrenca”. É uma questão probabilística, pois a encrenca independe delas: está aí, na estrutura opressiva da sociedade. Nós só enxergamos e gritamos quando vemos. Obviamente somos devidamente hostilizadas por isso. Também ousamos agir como iguais (ou superiores, quando é nosso papel institucional) em contextos onde isso não é emocionalmente suportável pelos conservadores.

O resultado é o conflito e, em seguida, a famosa acusação de “paranóia feminista”.

Acho que não, hein…

 

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  • CARMEM ALVES BUSKO

    Paranóia feminista só existe na cabeça de machista. Quem é mulher sabe, já passou por isso. Beijos. Continuas minha heroína!

  • Mirian Magia

    Sim, também sobrevivi à coisificação nos partidos, talvez por isto nunca tenha participado de partidos. É muita manipulação e os lugares são pré-determinados, porque partidos se organizam como o exército, todos soldados treinados para obedecer ordens. Eu tenho que sair da minha dor, pois vou ficar sofrendo. Não se pode esperar afeto pois eles não podem dar. O Estado deve agir sem afeto e sem remorso, e assim também agem os exércitos e os grupos. A crueldade humana é sem limites e a sociedade goza! Urgh!
    Estupro também faz parte da Cultura Masculina de Guerra implantada no Estado! Porque eles aprenderam que com violência eles nos dominam, então dá-lhe aguentar os maus-tratos eternamente? É o máximo do cúmulo do inaceitável! E eles se fazem de surdos, fora da linguagem, sem palavras, não nomeiam, não nos dão as Leis, os Direitos, nada, coisa alguma, nem subsistência, só tiram, só morte!
    10 idéias recebidas sobre estupro, em francês, mas muito bom os parâmetros:
    http://www.contreleviol.fr/viol-en-france/10-idees-recues-sur-le-viol

    • Mirian, tem uns trabalhos interessantes sobre INVALIDAÇÃO. É uma forma mais “light” do que a DESQUALIFICAÇÃO. Quando os agressores dizem “é mentira, ela é uma louca, não ocorreu a agressão, o estupro, a opressão”, isso é uma desqualificação da mulher como interlocutor. A INVALIDAÇÃO é mais light e mais difícil de identificar. Rola desde a nossa infância, quando nos dizem que estamos “exagerando” ou que “não é tão grave assim”. A INVALIDAÇÃO é essa surdez que você apontou. “Eu não escuto, porque na verdade não considero seriamente sua dor”. Somente quando a gente apontar o dedo acusador contra eles e disser: “eu sei que você está me invalidando e não vou aceitar isso” é que o jogo perverso vai parar. Faz sentido?

  • Mirian Magia

    Interessantes sutilezas dos discursos que banalizam o mal e acobertam os crimes, quero saber mais, sim. Onde estão os textos? Aqui no blog? Se puder me indicar, agradeço. Referente ao que chamo de desmoralização constante e a gente só fica caindo no vazio, batendo a cabeça, dando de cara num muro!

  • Eu não lembro se eu escrevi sobre isso, mas eu gosto desse link aqui, veja: http://eqi.org/invalid.htm