A Páscoa é a celebração do que talvez seja o mais importante mito da humanidade: a morte e renascimento do deus-homem. Nas religiões cristãs, é naturalmente a data principal, pois marca o início do cristianismo. Mas no imaginário de todos os homens, o ciclo, sempre coberto de mistério, da morte e renascimento do que há de divino (ou essencialmente humano) em cada um de nós é uma espécie de pedra fundamental simbólica. Penso que talvez precisemos ser alimentados com a perspectiva (que alguns vão chamar de fé, outros de esperança) de que algo dentro de nós seja tão especial que possa sobreviver aos piores ataques, às piores forças destrutivas e, quando tudo parece arrasado, essa “essência” ressurge – sabe-se lá de onde. Nossa força oculta. Nosso “verdadeiro eu”. Qualquer coisa nessa linha.

O ano passado, meu aniversário caiu pela primeira vez na Páscoa. Foi um aniversário estranho. Meu sobrinho Diogo tinha morrido um mês e vinte dias antes num acidente estúpido na Rio-Santos. Morte estava no ar. Mas outra morte ainda estava por vir. Viria e seria a minha, em julho, logo depois. Na mesma estrada. Sobrevivi e não sobrevivi: algo morreu e morreu para sempre ali, naquela estrada. A pessoa em que me transformei depois é diferente da anterior. Até fisicamente. Na minha opinião melhor – muito melhor. Ainda que pareça estranho, há algo de infinitamente belo nisso e é essa misteriosa capacidade regenerativa que nos faz um pouco deuses, a todos. Morre-se para nascer melhor e mais forte.

Acho que algumas dessas mortes nos aguardam pela vida. Cada uma, uma batalha numa grande guerra que no fim, ganha-se ou perde-se por pontos. Às vezes tenho a impressão de que algumas pessoas decidem não lutar e perdem por WO. Algumas não ressuscitam de suas mortes simbólicas e andam por aí, feito mortos-vivos. Mas se enfrentamos e renascemos mais fortes e mais deuses, podemos ter certeza: os desafios pela frente serão maiores. Talvez as grandes mortes sejam para os mais fortes.

Esse ano o aniversário do Stevie cai na Páscoa. Eu já sei que será um ano difícil. Talvez um dos mais difíceis que ele enfrentou. Tenho a sensação de que será um Ano-Páscoa para ele. Que algo nele terá que ser sacrificado para que poderes maiores sejam incorporados. Ele entrará na catedral e entregará parte de suas antigas armas no altar. Elas serão tomadas e derretidas. No lugar delas, ganhará armas novas, mais eficazes, mais letais.

Ele vai topar entregar as armas? Acho que vai. Essa é uma pessoa muito especial. Não parece ter medo de nada. Não por algum senso de heroísmo e bravura, daqueles muito chatos que algumas pessoas parecem exibir como medalhas. No Stevie isso faz parte daqueles mistérios. Como se ele soubesse seu destino. Meio como um monje-guerreiro, que senta em sua quietude esperando o confronto inevitável que ele sabe que vencerá decapitando o inimigo. Sem raiva. Sem medo. Apenas porque deve ser feito.

Eu observo Stevie. Ele constrói as coisas como alguém que coloca tijolos no chão, com a casa pronta na cabeça. Eu não sei que casa é essa. Deve ser grande. O ano passado ele criou uma comunidade dentro da rede virtual Orkut. Chama-se bodybuilding-brasil. É sobre tudo que diz respeito a puxar ferro – treino, nutrição, suplementação, etc. Existem 338 comunidades sobre musculação, 561 sobre treino, 1000 sobre nutrição, 20 sobre nutrição esportiva, 17 sobre fisiculturismo. São 16.175.691 pessoas e não há como saber quantas comunidades. Milhares. A maior parte das pessoas pertence a mais de uma comunidade sobre o mesmo tema. Assim é na maromba. Todos são unânimes em afirmar que a comunidade que o Stevie criou é a de mais alto nível no tema. Completou um ano agora.

Ele não é educador físico. Não é nutricionista. Não é arrogante. Não é uma fraude. Mas é procurado por centenas de pessoas que buscam orientação nesses temas. Por que? De uma forma muito direta ele conquista autoridade e credibilidade.

Não parece ter pressa mas não recua.

Eu sinto que esse será um Ano-Páscoa na vida do Stevie. Eu observo, ofereço meu apoio, que não sei no que ou se importa, já que não sei o que serão esses desafios. Por algum motivo, acho que ele sabe melhor que eu – ele sente as coisas. De onde, não sei.

Mortes simbólicas não precisam ser violentas. São apenas transições. Para alguém preparado para elas, acho que devem ser bastante libertadoras. São até esperadas. Expectativa sobre as novas armas, novos poderes…

Enfim, esse é o ano dele.

Marilia


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