[traduzida do artigo “Why do you lift?”, também meu, em http://blog.bodybuilding.com/marilia05/2007/08/25/why-do-you-lift/ ]

 

(para Fernando e Deni)

 

“There’s no sensation to compare with this, suspended animation, a state of bliss” (Não há sensação que se compare a isso, animação suspensa, um estado de glória – Pink Floyd, “Learning to Fly”).

 

Tudo que aconteceu desde que minha força me deixou ontem me levou a pensar seriamente nos motivos que levam atletas a levantar peso. Por que eu levanto peso? Por que me senti tão desesperada e perdida quando minha força pareceu me deixar?

 

Escrevi extensivamente sobre minha condição de saúde e sobre as razões que me trouxeram ao treinamento de força. O que ainda não escrevi ainda foi sobre o que o levantamento de peso significa para mim. Em uma palavra, significa TRANSCENDÊNCIA.

 

Vocês podem ficar chocados ou podem rir do que lerão a seguir, mas tenham em mente que é sério: num levantamento perfeito, à medida que a barra sobe, ela se dissolve como um objeto separado e eu e ela nos tornamos uma coisa só. Corpo e barra. Então, todas as fronteiras se dissolvem. Eu me fundo com a barra, a barra se funde com o entorno, o entorno com todo o resto e isso é transcendência. Suspensão de tempo, espaço e individualidade – apenas movimento e ser. Por uma fração de segundo que dura uma vida, eu sou a própria força, eu sou o peso, eu sou o Universo.

 

Assim, algumas pessoas rezam, outras cantam mantras, eu levanto pesos.

 

Eu não tenho formação spiritual. Meus pais são cientistas ateus. Eu sou uma cientista. Para mim, a razão é um auxilio precário para questões mais duras quanto ao significado da existência, ou quanto à significação em si. Como com tudo mais onde a razão e o conhecimento me deixaram na mão, tenho que confiar em uma sabedoria mais profunda. Tenho que confiar no meu corpo e na forma como ele alcança domínios mais internos da minha mente, ou mesmo da minha alma, se é que isso existe. Eu não sei o que é, eu não tenho rótulos e não tenho explicações. Tudo que sei é que levantar peso me coloca em contato com um “qualquer coisa maior”, uma dimensão mais ampla, uma forma alternativa de consciência. As pessoas têm nomes diferentes para essa experiência. Eu prefiro não dar nenhum nome – apenas vivê-la.

 

O terror que senti ontem foi como ter as portas de um templo fechadas na minha cara. Me senti separada de uma parte vital de mim mesma. Não dormi nada bem esta noite, a despeito de ter me sentido drenada e cansada ontem. Mas estou serena. Sei que tenho algo a aprender de tudo isso, como com qualquer adversidade.

 

Se o levantamento é, para mim, uma fonte importante de significado e meu caminho verdadeiro para a transcendência, não posso ignorar o fato de que o levantamento de peso é uma atividade que partilho com outras pessoas que têm abordagens bem diferentes. Para outras pessoas, levantar peso pode ser uma fonte de identidade social. “Quem é você?” Resposta: “Sou um levantador!” Ele ou ela pode passar o dia carimbando números e datas em formulários idiotas num ambiente impessoal, castrante e burocrático, mas às seis da tarde ele ou ela vai para a academia. Barras, anilhas, magnésio, gritos, heavy metal, risada e amigos – o levantador se torna novamente um ser humano. Eu tive o privilégio de observar a construção de identidades positivas numa favela de São Paulo através do levantamento de peso. Eu vi casais se formando, casando e tendo filhos através do levantamento de peso.

 

Outra razão importante para levantar peso é porque é DIVERTIDO. Como um amigo bem disse, a vida já é cheia de merda como ela está, para que torná-la ainda pior? Estes são levantadores que realmente fogem de ambientes esportivos estressantes e valorizam o elemento de prazer tanto no treino como nas competições. Esses caras são os melhores parceiros de treino e também grandes amigos. Eles estão na coisa para se divertir, estão determinados a serem felizes e tentarão fazer todo mundo em volta feliz também. Em competições, eles ajudam todo mundo, independente da equipe ou federação. Eles não mentem. Eles não roubam. Mas podem se tornar agressivos se pegarem alguém roubando, tirando vantagem de problemas circunstanciais ou fazendo picuinha sobre coisas como regras, equipamento, etc.

 

Tentei descrever as categorias de motivos para se levantar pesos, mas na verdade a maior parte de nós o faz por uma mistura de razões. Algumas pessoas enfatizam mais a diversão, mas também têm um importante componente de transcendência (mesmo que não muito reconhecido). Outras são socialmente motivadas, mas valorizam a diversão e a qualidade de vida também.

 

Há uma quarta categoria bem distinta de motivos para se levantar pesos (ou para se envolver com qualquer atividade competitiva), que é o indivíduo orientado pelo título. Esta é a única categoria que eu tendo a considerar negativa. Obviamente, nós todos valorizamos o reconhecimento. Reconhecimento é ou deveria ser uma medida das realizações da pessoa e permite ao levantador evoluir. No entanto, há uma diferença grande entre encarar o reconhecimento como um resultado de realização e o reconhecimento com um fim em si mesmo. Deixem-me tentar ilustrar este ponto. Alguns meses atrás, meu amigo Caramello participou de um campeonato estadual no Rio de Janeiro. Ele validou 270kg no supino. Caramello nunca se refere ao fato como “ter vencido o campeonato estadual”, mas sim “ter validado meus 270kg”. Será que ele se lembra que campeonato era aquele? Claro, ele é o legítimo campeão estadual, mas isso importa muito menos do que sua nova marca de 270kg. Aqui está um levantador que valoriza o reconhecimento como medida de sua realização. Deixem-me dar mais um exemplo: meu título de maior “valor externo” é o de campeã sul-americana de supino (IPF). Quase nunca menciono isso. A razão é que minha marca na ocasião foi pateticamente baixa, meros 67,5kg, feitos no segundo e único levantamento válido. Eu fui uma péssima levantadora nesse campeonato: sem controle emocional, perdi minha primeira pedida e tive minha terceira anulada por algum motivo que nunca entendi. Ganhei o título porque a outra levantadora era ainda pior que eu – e éramos apenas nós duas. O que significa esse título, além de seu nome pomposo? Agora, eu valorizo, sim, meus 97,5kg feitos num campeonato nacional de uma federação local, com uma bota de imobilização sobre minha perna quebrada. Eu estava focada, concentrada, serena e determinada. Eu fiz o que estava preparada para fazer. E tenho orgulho do resultado. Realmente não ligo que título esse levantamento me deu – tudo que sei é que validei 97,5kg.

 

Eu tendo a ver a atitude orientada pelo título como negativa por diversas razões, das individuais às coletivas. Individualmente, é precisamente o oposto do levantamento de transcendência. O levantamento em si é sem significado – o título é o que importa. Enquanto a transcendência integra, o foco no título aliena. É o lado negro do esporte e o lado não-saudável da competição. Pessoalmente, é um pé no saco, já que ninguém agüenta muito tempo de ego-trip e auto-promoção. Num plano coletivo, é a força motriz por trás de roubo, briga de federação e outras formas de comportamento não-ético no esporte. Numa perspectiva ainda mais ampla, é o pior exemplo possível para a juventude, que tanto necessita do esporte e atividades meritocráticas saudáveis para seu desenvolvimento intelectual, físico e moral.

 

Eu levanto peso por todos os bons motivos que listei acima, e porque não há nenhuma sensação que se compare com isso!

 

Marilia

BodyStuff