Até 2004 eu tinha horror que me fotografassem. Mas me fotografaram – tenho várias fotos que sobraram dos meus impulsos de rasgá-las. Eu as rasgava ou simplesmente arquivava porque não me reconhecia nelas. Aquela mulher ali retratada não era eu.

Quando comecei minha jornada de integração, uma das primeiras coisas que fiz foi, sem muita noção do que fazia, me fotografar. Eu havia sido bem sucedida em reconstruir um corpo desintegrado – agora precisava reconhecê-lo. Isso passou pelo auto-retrato.

Um dos primeiros auto-retratos foi inspirado pelo trabalho de Ellen Fisher Turk com mulheres com sofrimentos corporais importantes, chamado também de “phototherapy”. Troquei alguns e-mails com essa fotógrafa a respeito de minhas cicatrizes. De uma vez por todas, eu precisava fazer as pazes com as marcas da guerra que eu travava contra a desordem bipolar. Cansei de responder “ah, foi um acidente com vidro…” às constantes perguntas sobre as cicatrizes do meu corpo. Fotografei então a pior delas:

 

 

Estas fotos são de agosto de 2005, logo após a tentativa de suicídio.

Depois disso, criei meu site e minha irmã fez uma montagem com o mais célebre dos meus auto-retratos, o das costas. Isso foi ainda em 2005. Na mesma época, fiz outros auto-retratos relacionados ao meu “novo” corpo.


 

 

A fase mais recente, de 2007, é cheia de auto-retratos mais realistas, onde acho que quis captar o que sei ser minha característica mais marcante: o olhar duro. Vi esse olhar em câmeras alheias, mas não na minha.

 

 

Consegui. Me vejo em todas essas imagens. A mulher das fotos é a Marilia. No entanto, essa não é uma jornada com ponto de conclusão: nosso reconhecimento provavelmente muda tanto quanto mudam os parâmetros que construímos para nosso crescimento. Talvez mudem menos, já que a base da identidade visual já foi alcançada. Mas sei que existem outros reconhecimentos pela frente – muitos outros.

Preciso comprar uma câmera nova – a velha quebrou.