Voltei ontem do Uruguay, onde eu competi no Campeonato Sul-americano de Supino. Por uma combinação surpreendente de desapontos, frustrações e pequenas e grandes violências, fui num estado psicológico lamentável. Cheguei a ligar para o Gilson, meu técnico, questionando se deveria ou não comparecer, já que competir mal seria um desrespeito com a equipe.

Graças a uma greve nos aeroportos e outros fatores, não dormimos na noite da viagem, dormimos o dia inteiro seguinte e na noite anterior à minha competição propriamente dita, tive que induzir o sono.

Não foi nenhuma surpresa para mim que eu tenha competido mal – muito mal. Errei minha primeira pedida e me descontrolei. Acertei a segunda e aí aconteceu o inesperado: tive um movimento perfeito invalidado. Minha terceira pedida, de 75kg, subiu fácil e ninguém entendeu a anulação.

Perdi completamente o controle. Xinguei, joguei o cinto no chão, fiz uma cena que me envergonha até agora. A equipe toda ali, me apoiando, e eu me comportando como uma criança mimada sem resistência à frustração.

Foi então que o Marcelão me levou para comer. Fomos andando, bem devagar, por uma linda rua arborizada perto do Club Naval de Montevidéu até um botequinho bem pequeno e com poucas opções. Do jeitão dele, com calma e carinho, ele foi me acalmando e me dando o sentido das coisas. Com todo o saco do mundo, ajudou a mim, uma mulherona vivida de 43 anos, a superar a síndrome de garotinha pentelha e assumir meu papel de membro da seleção brasileira de supino num campeonato internacional. Competi mal, não por querer, mas por falta de controle emocional e experiência. É a vida. Agora é tocar para frente.

Graças ao Marcelão, voltei e fui para junto dos meninos que precisavam de nós para enfiar camisas, apertar cintos e buscar malto. Edilânio e Leandro iam competir – meu lugar era junto deles.

O grande campeão, recordista brasileiro Marcelo Soares é mais que um grande atleta: é um técnico competente, um líder esportivo maduro, que sabe usar de sua autoridade e prestígio com carinho e generosidade.

No segundo round do domingo, quando chegou a vez dele, a barra com 245 não subiu. Não tenho voz até agora de tanto gritar, como se meus berros pudessem erguer um pouco mais o peso.

Terceira pedida invalidada, fiquei olhando para ele com cara de bunda. Não sabia o que dizer. Como retribuir pelo menos uma fração do apoio que horas antes ele havia me dado.

Marcelo Soares é um de nossos maiores atletas de supino. Dono do Record brasileiro da categoria e muito mais. Eu vi o último Record sendo quebrado por ele com 252,5kg em Mongaguá.

Por falta de um mínimo de apoio ao esporte amador, especialmente aquele praticado por atletas de baixo poder aquisitivo, Marcelão nunca tinha saído do país. Dessa vez, recebeu apoio suficiente para alugar um carro e vir, junto com a atleta Dora Costa, sua esposa também campeã, e Clovis Correa, outro grande atleta, dirigindo por três dias de Praia Grande até Montevidéu. Desgastado, não fez o que sabe que pode fazer.

E eu ali, olhando… Impotente…

Continuo sem saber muito o que dizer, além de repetir as sábias palavras de Dora: “é do esporte”. Mas um sentimento de injustiça profunda não me deixa em paz: não foi certo. Marcelo Soares merecia ter sido apoiado decentemente há mais tempo e, desta vez, mais eficazmente.

Hoje minha filha me disse: “é isso mãe? É tudo que você sonhou se realizando?” Se referindo à possibilidade de um patrocínio ao Programa de Powerlifting de Paraisópolis. Não: sonho mais longe. Sonho com o dia em que essas pessoas que representam o esporte no seu mais nobre espírito e mérito para mim, grandes campeões como Marcelão e Dora, sejam transportados de avião para o campeonato internacional para o qual forem convocados, durmam em camas confortáveis, tenham uma alimentação nutritiva e de qualidade e tenham o direito de apresentar seu potencial pleno.

Marcelão continua sendo, para mim, esse mestre que respeito e admiro.

O grande campeão.

 

Marilia

 

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