Todo mundo tem uma agenda. Mesmo os estudos aparentemente mais esotéricos se relacionam a agendas pessoais. Neste sentido – e só neste – não existe neutralidade propriamente dita: toda tomada de posição intelectual está informada por uma agenda pessoal, ou “interesses”, segundo o modelo de análise.
Eu acho que esse posting aqui seria na verdade o primeiro do blog: por que criei esse blog e por que ele tem o conteúdo que tem. Existe algo na minha história pessoal que motivou não apenas esta iniciativa, como tudo que se relaciona a ela (minha própria relação com atividade física e nutrição).
Isso condicionou, e muito, minhas crenças que aparecem por aqui:
1) eu acredito, sim, que existe uma marginalização generalizada e difusa da força como estética, capacidade funcional, entre outras, em nossa sociedade;
2) eu defendo que essa marginalização é altamente prejudicial à saúde coletiva (argumento utilitário)
3) eu defendo que essa marginalização reflete preconceitos associados a formas de violência para mim inaceitáveis (de gênero e de classe) (argumento político);
4) eu decidi denunciar – de todas as formas – e combater essa marginalização e estimular práticas, indivíduos e iniciativas que eu entenda serem contrários a ela;
5) eu tenho uma adesão explícita e prática à estética musculosa e não escondo minha rejeição a outras estéticas que expressem elementos que eu julgue ideologicamente inaceitáveis para mim (muito honestamente: não só acho bonito músculo, como quero para mim, quero nos outros, acho feio a falta dele, seja em magros ou gordos);
Nem sempre fui assim. Também nem sempre vivi com saúde e um estado de bem-estar generalizado como desde meados de 2004. Tenho total convicção de que devo minha saúde, sobrevivência e, mais que isso, felicidade, à adesão ao treinamento de força intenso. Eu tenho, sim, uma dose inegável de ressentimento por isso me ter sido negado durante 41 anos, pelos preconceitos mencionados. Não reajo com muita paciência com quem expressa esses preconceitos, de maneira consciente ou inconsciente. Não tenho saco para quem me diz, por exemplo, que sabe que precisa fazer, mas “odeio musculação”.
Essa história é mais ou menos assim: sou portadora de algumas desordens graves de difícil tratamento e tenho o azar de ser refretária aos medicamentos existentes. Minha formação me permite examinar a literatura médica e farmacológica com bastante senso crítico e discutir de igual para igual com meus médicos. Foram décadas de muito sofrimento, dezenas ou até da ordem de uma centena de estratégias medicamentosas, drogas velhas e novas e, até, em momentos de irracional desespero, tratamentos “alternativos”. Até que, em 2003, desenvolvi uma hepatite medicamentosa que quase me matou. A situação estava crítica: algumas das minhas alternativas medicamentosas ainda sendo testadas se perderam e meus sintomas só pioravam. Minha vida não valia nada.
Até que, no clímax da perda de qualidade de vida, no início de 2004, resolvi obedecer meu bom-senso e recuperar a única coisa que, ao longo da minha história, deu algum resultado: atividade física intensa. Sempre pratiquei esportes e, recentemente, corria e nadava. Nos períodos de maior intensidade dessas práticas, eu melhorava. Mas nunca – em momento algum – tive uma melhora tão dramática que me permitisse dizer: “sem isso, não posso viver”.
Entrei numa academia perto da minha casa e me engajei em várias atividades. Sempre soube da necessidade de praticar treinamento de força e, inclusive, durante o meu pós-doc na Virginia, comprei livros sobre “strength training for women” e tentei montar rotinas de treino para mim. Treinei em academias nos Estados Unidos e no Brasil, sem nenhum resultado aparente. Então, em 2004, não esperava muito da musculação. Mas, como tudo em atividade física, levava a sério.
Até que um professor, educador físico especializado em treinamento de força, me sugeriu que, talvez, os efeitos terapêuticos que eu esperava obter correndo por uma hora e nadando por mais 90 minutos, eu obtivesse mais eficientemente com a musculação. Na hora questionei, pois não há dados na literatura científica que sustentem essa hipótese (acho que comecei a explorar os motivos disso num post anterior). Mas ele foi convincente e eu resolvi fazer essa última aposta.
Esse profissional elaborou meu primeiro treino de maior intensidade e sugeriu que eu adequasse minha dieta para a maior demanda energética que esta prática iria impor. Isso foi em Agosto de 2004. De agosto a dezembro, ganhei 7 quilos sem passar de 14% de gordura corporal. Aprendi a fazer força. Mas isso não significa nada perto dos efeitos metabólicos gerais que o treinamento causou. Meu sono mudou, nunca mais tive nenhuma fadiga, minha concentração e produtividade aumentaram, minhas variações de humor desapareceram, minha digestão se estabilizou, e minha vida sexual… bem, sem comentários.
Nunca mais usei medicamentos.
Agora, sim, posso dizer: “sem isso, não posso viver”.
Como isso foi possível? Acho que várias transformações tiveram que ocorrer. Existe um momento no treinamento em que a gente “aprende” a fazer força e esse é o momento em que a gente se apropria do próprio corpo. Até então, acho que não temos muita consciência dele.
Acredito que minha trajetória foi tão bem sucedida por causa das estratégias utilizadas pelo profissional que me orientou.
Talvez por isso, também, eu sinta esse compromisso em relação à area de Educação Física e mais ou menos “milite” pela sua valorização na sociedade. Eu sei, por experiência própria, que um profissional dela pode fazer toda a diferença na vida de um portador de desordens graves.
Essa é a história, mais ou menos.
Essas são as causas, precisamente.
E isso aqui é um caminho.

Marilia


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