Um dia, lá em Brasília, Caramello me contava sobre a “barreira dos 200” dele. A história é longa, envolve um monte de campeonatos cujos relatos agora estão se misturando na minha cabeça, mas o que ficou para mim foi o seguinte: existiam esses míticos 200kg de supino num horizonte igualmente mítico. A cada campeonato, ele se aproximava dos 200, mas não “atravessava a barreira”. Até que um dia saiu. Corrija-me se estive errada, Caramello, mas foi no Campeonato Gaúcho de Supino (WNPF), em Caxias do Sul /RS, no ano 2000. Daí por um tempo as marcas ficaram entre 185 e 200, mas nunca mais que 200. Aí um dia… saiu 205, num pequeno campeonato (Campeonato Aberto de Bagé – IPF), em 2001. E depois disso as marcas só subiram.

Eu vi o Caramello fazer “oficialmente” (em campeonato, porque em academia para mim não conta) 270kg no Campeonato Carioca de Levantamentos Básicos da CONBRAFA, agora em maio de 2007. Acho que as pedidas foram algo como 240… 250… e 270kg. Não lembro mais.

O peso dele aumentou? Aumentou, acho que uns 20 ou 30kg. O treino melhorou? Melhorou. Mas isso não muda o conteúdo da experiência dele com a “barreira” – os 200 eram uma barreira que ele ultrapassou não com mais peso corporal ou mais isso ou mais aquilo, me parece. Mas algo dentro da cabeça dele foi mudando.

Bom, o Caramello tem só 10 anos mais de powerlifting do que eu só em competição. Eu não tenho nem um ano. Nesse “nem um” ano eu não mudei de categoria de peso. Todos sabem que adaptação neural evolui muito rápido no início e depois entra num plateau. Talvez porque eu não tenha entrado no powerlifting exatamente como uma “iniciante” na musculação e no treinamento de força (já tinha experiência), não foi isso que eu observei. O que eu observei foi uma evolução aos saltos.

Vou deixar de lado esse meu último gigantesco salto de agora, cuja expressão só vou confirmar nos próximos campeonatos, porque é realmente fisiológico: foram mais de 4 semanas de repouso, mudança na alimentação e mudança de ambiente. Aí sim, observei um aumento geral de força em tudo de uns 20-30%.

Os outros saltos não: foram quebras de barreiras mentais. No meu primeiro campeonato, levantei 60kg e a primeira colocada, 62,5kg. Era o brasileiro de supino da IPF de 2006. Eu achei muito bom – havia 6 competidoras na categoria de 56kg e eu fiquei em segundo lugar. Nesse dia, achava que 70kg eram um absurdo de peso. Completamente impossível. Menos de dois meses depois, 65kg eram muito pouco. E numa Copa São Paulo, validei uma segunda pedida com 72,5kg. A terceira pedida era de 82,5kg e dizem que subiu, mas não finalizou. Para mim não aconteceu nada. Só a barra já me apavorou. Eu jamais tinha segurado na mão uma barra com 80kg. Os 80kg não existiam dentro da minha cabeça.

Até que me dei conta de que 80kg faziam parte do meu corpo de força. Integrei os 80kg. Sabia que fazia PELO MENOS isso, se não muito mais. E então fiz 81kg válidos em um campeonato… depois 82,5kg válidos… mas não 90kg.

O que mudou? Meu peso apenas diminuiu entre o primeiro campeonato, dos 60kg, e o último, dos 82,5kg. Mudou meu treino. Mudou minha técnica, mas não muito: minha técnica ainda é podre. Mas o que mudou mesmo foi a BARREIRA MENTAL. Agora eu sei que 80kg é o mínimo. Calculei, ontem, pelo meu atual peso “raw” (sem equipamento), somando 32% de carry-over da camisa suporte, que meu supino é de 99kg, ou seja, 100kg. Assim, RACIONALMENTE, eu sei que, no estilo chapadão, IPF, sem grandes pontes, 100kg saem. O que eu não sei ainda é se esses 100kg estão integrados à minha representação de força.

Mas… e os 140kg no board 6? Ah, mas é outra técnica. Nessa técnica é “normal” fazer isso tudo. É normal? Não é. Que BOM que eu não sabia que não era. Se eu soubesse que 140kg eram um puta peso, não faria. Mas quando fui treinar em Brasília, fui preparada para achar 120, 140kg “normal”. Era “normal” porque eu não tinha idéia do que se passava com outras levantadoras leves e porque três praticantes haviam previsto algo nessa linha para mim. Quando o Caramello colocou a barra com 140kg na minha mão, eu achava que ele SABIA que ia sair. Então eu SABIA que ia sair. E saiu.

Como é que hoje eu sei que não é “normal”? Porque postei num fórum internacional onde um monte de gente conhece e pratica a técnica e houve um “ahhhh!!!” de espanto.

Isso me leva a pensar como são criadas essas barreiras mentais.

Anedoticamente (porque não existem estudos sérios publicados a respeito), todos sabemos que a força real que temos é infinitamente maior do que a que expressamos. É a tal “reserva autônoma protegida” sobre o que ninguém publica nada, como se fosse segredo militar (talvez seja). É a famosa situação em que a frágil mãe levanta um Chevette para salvar a vida do filho esmagado. Se essa mulher não é capaz de levantar nem 60kg do chão, como levantou 600kg? Porque naquele momento, a “vozinha do não” foi anulada. A INIBIÇÃO da força foi temporariamente suspensa sob o stress supremo.

Entre nossa força treinada com as melhores técnicas do mundo e a expressão da reserva autônoma protegida há um universo a percorrer. Digamos que atualmente eu supine, no tradicional, 100kg e em técnicas mais avançadas, 140kg. Mas que para salvar a vida da minha filha eu supine, pelo andar da construção, um bloco de concreto de 700kg. Ninguém quer liberar a inibição e fazer uso total da reserva protegida: morreríamos esmagados por nossa própria força. Mas o que existe entre nossa máxima expressada e essa força real? Minha resposta é: barreiras mentais.

E como tudo na vida desses animais complexos que somos, sua dissolução é uma combinação de processos individuais e coletivos (sociais). Eu já tenho, dentro de mim, 100kg chapados e 140kg arcados. Corroborando isso, tenho algumas vozes. Tenho os três do IronAsylum DF falando desde 140kg até delirantes 180kg. Tenho minha amiga Erica, a melhor supineira da IPF, me dizendo que meus 100 estão para sair. Tenho meus próprios cálculos totalmente objetivos. Hoje, 100kg é uma barreira semi-vencida, pois vencida dentro da minha cabeça. Falta “oficializar” num campeonato.

Mas o que pode impedir essa dissolução? Medo. Vozes de origem diversa dizendo que aquilo é inatingível, é demais, é impossível. Há dois meses, disse ao meu então técnico que meu sonho era quebrar o recorde absoluto da categoria na IPF-BR que era de 107kg. Maior que o recorde das categorias de peso maiores. Ele me olhou com um misto de incredulidade e desprezo e disse ironicamente “110kg?!! Boa sorte…”. Ou seja: “só com sorte mesmo, porque fisicamente isso é impossível para você”. Ora, não é! Não, ele não é um cara do mal. Apenas usou a lógica: na frente dele estava uma levantadora de 56kg, 44 anos e iniciante no esporte. O recorde era de uma veterana (aos 40 anos, Miriam Janete já era veterana), super talentosa e criticada por muitos, a boca pequena, por uso de recursos farmacológicos (eu a admiro infinitamente e é um orgulho ter quebrado o recorde master dela). Mas esqueceu que essa mesma levantadora (eu) evoluiu, na frente dele, de forma pouco usual. Esqueceu de desaprender o que aprendeu, de admitir o inesperado e o novo. E esqueceu que essa levantadora pequena é no mínimo diferente do ponto de vista neurológico e mental.

Anteontem, falando com Deni, ouvi que os objetivos máximos dele eram a realização no esporte. Pensei um pouco e perguntei: “você quer ser o melhor levantador? O super levantador?” Ele respondeu: “sim!”. E eu usei o kit completo do meu jargão new age, nesse caso com toda a consciência de sugestão do mundo: “seu desejo é uma ordem, Deni, está cumprido: a barra é apenas um monte de elétrons voando no nada – o que a empurra é a sua cabeça”.

Acredito nisso? Sim e não. Nem ele, nem eu, vamos levantar 550kg num supino nessa vida. Nessa geração. Nesse mundo atual. A barra continua sendo um monte de elétrons, mas não é possível TUDO – não nesse estágio. Quem sabe em alguns anos coisas mais incríveis ainda o sejam, vai saber? O que realmente acredito é que nosso poder de fazer e re-fazer nossos mundos internos e externos é infinitamente maior do que sabemos. E não se trata de auto-sugestão nem de auto-hipnose. Trata-se de desaprender as ilusões do óbvio. O óbvio não existe…

Somos todos X-Men.


Eu, re-fazendo meus ossos de adamantium (minha fíbula, nesse momento)

Eu, Dr. (Coutinho) Gray, mas também Phonix, capaz de levantar qualquer coisa e também de destruir…. tudo.

E você?… 

Marilia

BodyStuff

  • Somos todos X-Men

    Eu, sedentária durante 41 anos, decidi que começaria a correr. Com apenas 3 minutos de tentativa, meu corpo formigava, pegava fogo, sentia uma coceira irritante nas pernas que fazia com que eu desejasse matar as pessoas que estavam ao meu redor. Sentia vergonha e vontade de chorra. A irritação só aumentava de mãos dadas à frustração.
    Mas, como sou teimosa insisiti. Durante esse processo, adotei um exercício mental à noite. Antes de dormir, imaginava-me correndo 30 minutos. Via meu corpo pelo parque do Ibirapuera. Imaginava o vento, os cheiros, o som dos meus pés batendo no chão. Via, mentalmente, as árvores, as pessoas e sabia que estava correndo. Durante esse processo sonhei várias vezes que conseguia correr 30 minutos… sem formigamentos, coceiras, sem vontade de morrer antes mesmo de 1 km.
    Hoje, faço fácil uma hora… não é convencimento, não. É fato. 10 km já não me assustam e desejo correr uma São Silvestre: 15 km. Talvez a próxima…
    Antes de quebrar as barreiras do meu sedentarismo crônico, sei que quebrei as barreiras mentais dos meus “nãos”. E tem mais: depois que fiz 10 km, coloquei na cabeça que posso fazer muito mais…não só correndo, mas incorporei essa atitude mental para outros aspectos da minha vida e tem dado bons frutos. Deliciosos frutos, devo dizer. Se posso correr 10 km, posso voar! E tenho treinado minhas asas… por enquanto, mentalmente…
    anacardilho

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    Желаю вам ни когда не останавливаться и быть творческой личностью – вечно!