Dia 3 de fevereiro, no caderno ”Equilíbrio” da Folha, encontrei nove trechos de cartas enviadas à psicanalista Anna Veronica Mautner em resposta a seu artigo ”A feminilidade não é branca”. Os textos me causaram um certo impacto pelo seu teor autoritário e conservador. Busquei o artigo original de Anna Veronica e o li com cuidado.
Senti simpatia pela sinceridade com que Anna descreveu sua perplexidade e angústia diante das opções disponíveis a nós, mulheres da ”elite simbólica”, que se vêem quase que repentinamente na idade pós-reprodutiva.
Não senti nenhuma simpatia pelos e-mails de conteúdo autoritário que membros (quase que aposto: pelo menos uma das autoras é minha conhecida, doutora e autora de vários artigos como eu) igualmente confortáveis dessa mesma elite à qual pertencemos.
Infelizmente, ao contrário do que diz Anna, a atitude de defesa ideológica dos cabelos brancos – junto com as rugas, o aumento da taxa de gordura corporal (”temos direito de perder a forma e ficar redondas”, disse-me uma amiga), a perda da força e dos músculos, os peitos e a bunda caídos – é bastante comum no nosso meio.
Em geral, esse discurso é expresso de maneira agressiva e defensiva, numa espécie de cruzada contra o que seus adeptos chamam de ”ditadura da mídia”.
Contra a óbvia insistência da propaganda quanto à preferência por características físicas jovens, os adeptos desse discurso ideológico, os quais passo a chamar pelo termo bem conhecido de ”natureba”, defendem o ”curso natural das coisas”. Assim, não se deve reagir contra a tendência natural dos cabelos a se tornarem brancos; da pele perder a flexibilidade e se enrugar; dos músculos a perderem o tônus; da gordura se acumular no abdome e outras regiões; dos peitos a caírem; da perda da vitalidade com a menopausa; e assim por diante.
Não há nenhuma dúvida: sob o ponto de vista fisiológico, tudo isso é natural. Sob o ponto de vista evolutivo (mais natural, impossível), não há a menor necessidade que sequer vivamos depois do período reprodutivo.
O mais ridículo disso tudo, no entanto, é que a sociedade, em si, cuja retidão os naturebas pretendem defender, é um fenômeno estritamente anti-natural: a cultura, que caracteriza as sociedades humanas, é o reino do arbítrio, em oposição ao reino da necessidade que existe na natureza. A ciência e a tecnologia são as expressões supremas da ação de intervenção e modificação da natureza intríncecas ao trabalho humano. Resistir à natureza, transformá-la, criar organismos tecnologicamente planejados, na interface da natureza com a cultura (cyborgs, segundo Donna Haraway), é humano. Negar tudo isso é irracional.
Em geral, a atitude natureba vem junto com algum outro tipo de discurso em que se observa a oposição entre corpo e entes não corporais: a mente, o espírito, a alma ou seja lá o que for. Assim, os cabelos brancos não importam, o que importa é ”a essência” (diz uma das autoras dos e-mails: ”Não é a cor de seu cabelo que importa, mas sua atitude”).
A alternativa mais comum à opção ”natureba” é igualmente ”anti-corpo”: para as intelectuais mais ”mainstream” – a maioria das cientistas (naturais e sociais, não faz diferença) de prestígio, por exemplo – a afirmação de princípios através de marcas estéticas é desnecessária e um pouco patética. Esse grupo é constituído de mulheres que muitas vezes ”transgrediram” pela aparência na juventude, usando roupas e cabelos não-convencionais. Na condição de intelectuais de prestígio, no entanto, adotam um visual sóbrio e minimalista. O discurso delas sobre o mundo se concentra no verbal. Cabelos são tingidos, às vezes há alguma maquiagem discreta, roupas são pouco coloridas e simples. O visual é desnecessário para afirmar conceitos e valores e o corpo é desnecessário para a existência intelectual. É uma figura em segundo plano.
A reação que Anna descreve entre os amigos em relação à sua dúvida quanto a tingir ou não os cabelos me parece compreensível. Sem entender muito por que, nós todos nos sentimos ameaçados pelas manifestações violentas da ”natureza bruta”, contra a qual vimos impondo nosso arbítrio cultural há milênios. É natural que as pessoas se tornem menos ativas com o passar dos anos; é natural que, sem estímulo, os músculos das mulheres pós-reprodutivas se reduzam em massa e percam a força; é natural que a pele perca a elasticidade e não acompanhe a perda de volume subjacente, gerando pelancas; é natural que haja um maior acúmulo de tecido adiposo com a menor disponibilidade de hormônios anabolizantes; e é compreensível que ninguém queira olhar para a bunda vazia, caída e pelancuda de uma mulher de meia-idade sedentária, por mais culta e articulada que seja, porque, ainda que seja politicamente incorreto sequer ter tais pensamentos, é horrível. É horrível, lembra a morte, lembra a força de uma natureza nada romântica e que não negocia. Com o tempo e as variações hormonais da idade, é natural que a nossa capacidade de reagir imunologicamente às agressões externas e aos processos degenerativos internos diminua. Sem a vigorosa intervenção tecnológica, é natural padecer, sofrer e morrer de doenças degenerativas ou mesmo infecciosas. Mas ninguém gosta de ser confrontado com essa ”naturalidade”. Exceto pelos ”naturebas” ideológicos, ninguém gosta de ver cabelos brancos (a não ser, ironicamente, que sejam devidamente artificializados através da criação de contextos em que eles passem a ”significar” algo que não seja o sintoma do envelhecimento).
Quando mencionei que pertencemos – Anna, eu e provavelmente todos os que enviaram e-mails em resposta ao artigo dela – à elite simbólica, a expressão não tem nenhuma conotação pejorativa: pelo contrário. ”Elite simbólica” é um termo cunhado pelo sociólogo Pierre Bourdieu para designar o segmento da classe dominante cujo lugar social é condicionado não pelo capital financeiro, mas pelo capital cultural, ou simbólico. Somos nós: cientistas, jornalistas, artistas, todos aqueles que produzem os discursos dominantes (transformadores ou conservadores) de uma sociedade. Nessa condição, temos e sentimos uma responsabilidade. É para nós que a sociedade olha em busca de modelos de conduta para seguir ou rejeitar.
Tingir os cabelos ou deixá-los embranquecer ”naturalmente” não é uma opção estética semi-consciente. É praticamente uma declaração de princípios. É uma decisão que envolve investimento emocional e intelectual, além de um certo ”soul searching”.
Nessa linha, sinto que o meu papel é oferecer conforto intelectual às minhas contemporâneas que optem por resistir à pressão hipócrita e incoerente daqueles que glamourizam a capitulação à degeneração, à morte e à inação.
Minha tendência a ter esperança faz com que eu torça para que a ”rebeldia” dessas mulheres vá mais além: que continuem no caminho de se apropriar plenamente de seus corpos, fazendo-os instrumentos de prazer e poder, belos e fortes. Que ousem lançar mão de todos os recursos tecnológicos para isso: tintura, silicone, cirurgia plástica, tatuagem, piercing e, principalmente, exercício físico intenso (não de mentirinha, como recomendam paternalísticamente nossos médicos) e manipulação nutricional.
Sejamos cyborgs da liberdade, inteligentes, fortes e mais vivas que nunca. Não há nenhum mundo para o qual voltar – só um novo e tecnológico mundo a conquistar. É um mundo para mulheres corajosas e vigorosas, que digam não à opressão natureba do ”politicamente correto”.

Marilia