Voltei hoje de uma estadia de 3 dias em Igarapava, com meus amigos Braulio e Julia, proprietários da academia Iron Muscles. Eles organizaram um evento teórico-prático sobre musculação, do qual eu tive o prazer de ser uma das palestrantes: o 1º Workshop Iron Muscles de Musculação.
No dia em que cheguei, treinei com meus amigos e combinamos a apresentação do dia seguinte, que focalizou o treinamento para mulheres. Durante o treino, tive oportunidade de discutir minhas dúvidas e especulações sobre essa nova estratégia de treino que resolvi experimentar, baseada numa versão modificada de um Westside Barbell hybrid template.
Braulio fez comentários muito importantes sobre o split que eu adotei, baseada nos quais farei modificações no treino.
No dia 24, quando fizemos a apresentação, pude interagir com a pequena comunidade de maromba de Igarapava e novamente treinar na Iron Muscles, junto com Braulio.
Além das esperadas e desejadas dores do treino, ficamos com dores no maxilar de tanto falar. Conversamos sobre tudo que diz respeito às Iron Arts – de protocolos de treinamento, dificuldades que o bodybuilding brasileiro sofre até projetos mais ambiciosos.
Dia 25, dia do meu aniversário, o Workshop foi voltado à discussão sobre suplementação, com a particação de Jeferson (BAD BOY), Campeão Brasileiro e Paulista Class4 e
Francisco Camargo, Top SIX Paulista em sua Categoria.
Do grêmio Igarapavense, onde teve lugar a discussão/mesa redonda, fomos almoçar. O almoço foi um prolongamento mais aprofundado das discussões do dia, onde também falamos sobre coisas mais complexas relativas ao desenvolvimento do esporte.
Tudo que se passou durante esses três dias em Igarapava é rigorosamente insubstituível – não se faz por msn ou outro ambiente digital. Não se faz por telefone. Não se promove em publicações. Requer MASSA CRÍTICA EM INTERAÇÃO PRESENCIAL.
Por que acho isso?
Para responder, vou contar duas histórias: uma internacional e outra brasileira.
Desde os primórdios da institucionalização da ciência na nossa sociedade, entre os séculos XVIII e XIX, os cientistas se deram conta de que sua organização em sociedades científica cuja vida se manifestava nas reuniões e publicações periódicas era a base da prática científica. Era preciso alimentar e reproduzir a COMUNIDADE através de interações de todas as naturezas, atividades sem as quais ela morre. No começo, isso ocorria a duras penas com edições precárias e esporádicas, que se tornaram cada vez mais profissionais e difudidas até chegar no extremo da difusão de informação com a Internet. No entanto, nenhuma forma de difusão de informação substituiu o contato presencial. O contato presencial cria elos e contextos para trocas que não podem se dar exceto por essa forma de interação.
Nos anos 50, durante um dos dois maiores saltos qualitativos no avanço da ciência do século XX, a biologia molecular, as lideranças se deram conta de que precisavam reunir seus expoentes e jovens promissores por poucos dias em algum lugar bastante sem-graça e agradável, que os forçasse a uma convivência quase que saturante por falta de mais nada que fazer. Esse stress interativo foi responsável por promover grandes inovações na produção científica, como produto do brainstorm prolongado e extenuante que essa situação provocava. Foi assim que surgiram as reuniões em Cold Spring Harbor – primeiro do Phage Group e em seguida de tantos outros.
No Brasil, em 1971, com o renascimento das organizações científicas e crescimento da produção, a Sociedade Brasileira de Bioquímica – organização da área de maior proeminência científica nacional – realizou sua primeira reunião. Em Salvador, Bahia. Foi um fracasso. Quase ninguém assistiu as atividades e apresentações, visto que Salvador é divertida demais para que alguém seja motivado a permanecer em salas fechadas, quentes e abafadas enquanto 365 igrejas coloniais, Pelourinho e uma arquitetutra colonial exuberante os esperava lá fora. Além de praia, acarajé e comida apimentada.
Assim, os bioquímicos se deram conta de que o modelo Cold Spring Harbor teria que ser seguido: um local sem-graça, calmo e acessível deveria ser escolhido. Escolheram a cidade de Caxambu, que fica a meio caminho entre Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, os centros da produção científica brasileira em Bioquímica. As demais sociedades científicas seguiram os bioquímicos e hoje Caxambu vive da ciência brasileira.
O que isso tem a ver com nossas Iron Arts? Simples: assim como os cientistas, somos seres que criam e criam coletivamente. Somos uma comunidade. Mais que isso: somos uma irmandade. Precisamos desse contato intenso e curto, pois vivemos espalhados por um país de dimensões continentais.
Esse contato é insubstituível. É delicioso. É estimulante. É anfetamínico.
Confesso que voltar de Igarapava para enfrentar uma sobrecarga de demandas de trabalho solitário e às vezes chato não foi das melhores coisas. Mas o tempo que passei por lá me deu combustível para continuar investindo em nossos projetos coletivos, por reforçar meu sentimento de comunidade e irmandade.
Conversando com Braulio e Julia, me dei conta de que isso precisa ser uma meta para todos nós. Independente de campeonatos, devemos nos organizar para garantir esses curtos períodos de intensa troca, se é que pretendemos evoluir e consolidar nossa comunidade.
Mil planos foram pensados e explorados, mil idéias, acho que todos deveme estar como eu – meio saturados de idéias, um pouco exaustos, um pouco eufóricos, um pouco confusos. Resultados de muito brainstorm.
Sentimos muita falta dos brothers mais próximos, seus nomes apareciam o tempo todo, era como se estivessem ali presentes entre nós.
Temos um caminho a percorrer juntos e sou otimista na minha fé de que o caminho da busca de espaços interativos está só começando. O IronPump é um deles, e bem-sucedido. Ele se imbrica com todos os outros projetos e iniciativas e sei que um alimentará o outro.
Queria partilhar essa percepção para mim tão forte e viva de que nossa irmandade é algo real, que merece investimento e alimento, sob a forma de busca de canais de interação e expressão – para dentro e para fora dela mesma.
Ela nos dá força, nos dá estímulo, nos dá a alegria de nos dedicar a algo com um sentido que vai além de nós mesmos.

Marilia


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