Ontem, às 19:05h, terminou o inferno hormonal em que entrei no dia anterior, às 18:40h. Lágrimas deram lugar a sangue e o desespero à paz. Eu sou um bicho. Um animal, uma fêmea da espécie em sua função reprodutiva.

Contei com o apoio permanente das duas grandes mulheres da minha vida – minha filha e minha mãe – e de dois dos grandes homens da minha vida: meus dois melhores amigos. Os mesmos que já reclamaram de outras TPMs, já fizeram piadinhas, mas acho que dessa vez foram expostos a uma dissecção cruel das entranhas mais escuras e assustadoras desse pedaço do universo feminino. E seguraram a onda. Não tenho dúvidas de que tiveram medo – por mim e pelo mundo que eu ameaçava – mas provavelmente apenas pelo afeto que nos une, me deram o que eu precisava: segurança e carinho.

Esse não é o comportamento “default” do homem. Ao longo da história da humanidade, em sociedades distintas e não-relacionadas, os homens sempre reagiram às erupções de animalidade feminina. Em algumas sociedades, mulheres menstruadas são ritualmente isoladas e devem passar por uma purificação para retornar ao mundo social. O mesmo se dá com as paridas, que são mantidas afastadas por períodos variáveis e, nesse período, encontram-se numa condição espiritualmente vulnerável e perigosa. Mulheres são os veículos da maldição, para muitas sociedades, inclusive em nossa raiz judaico-cristã. O sangue que escorre a cada mês ameaça, a procriação é uma benção e um mistério e o tesão feminino obscuro. Clítoris são cortados, vaginas costuradas.

A cultura é um fenômeno construído CONTRA a natureza. A cultura é o reino do ARBÍTRIO, enquanto a Natureza é o reino da NECESSIDADE. As diversas sociedades, das mais simples e tradicionais até a nossa ultra-complexa e diversificada, se erguem sobre a resistência à desestruturação da Natureza. À desordem. Impõe sobre ela suas escolhas – isso se come, isso é nojento; trepa-se com esta, não com esta; isso se faz em público, isso é privado. A Natureza precisa ser contida, se é que se quer preservar a ordem e a estrutura social.

Mas aí surgem essas inconciliáveis erupções de Pura Natura, o CORPO FEMININO. A fêmea humana é o permanente desafio da Natureza incontida, invencível. Sangra, tem humores comandados por poderosas substâncias, reproduz. Ela é a lembrança de que um poder gigantesco se impõe sobre tudo, assim como um pequeno cisco cósmico sob a forma de asteróide pode tornar fúteis, em segundos, 10 mil anos de civilização numa colisão exterminadora. A Natureza ganha.
A mulher traz dentro de si a semente do Caos e será sempre temida por isso.

Sou um bicho, sou essa força obscura e irracional. Com minhas idéias, defendo a resistência, a oposição e a construção. Mas sei que dentro de mim trago o indomável e o terrível.

Marilia


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