Há cerca de um mês, eu corria nas ruas do meu bairro, um condomínio de classe média entre São Paulo e Osasco, quando algo perturbador aconteceu. Ainda era dia, pois lembro que estava tudo claro. Meu percurso é bem padronizado – desenvolvi esse trajeto ao longo de anos em função da inclinação das calçadas e suavidade das subidas. Deve ter cerca de três quilômetros. Num certo ponto, havia uma aglomeração na frente de uma das casas, claramente uma festa. Vários jovens, cuja idade devia ir de uns 17 a uns 20 anos, bebiam ou apenas conversavam na rua. Quando eu passei pela primeira vez, alguns gritaram provocações que achei inocentes. Três ou quatro deles correram ao meu lado por uns 40 metros, pediram o fone do meu ipod para saber o que eu escutava. Achei inofensivo. Quando eu passei pela segunda vez, fizeram o mesmo e alguns perguntaram o que eu fazia, num tom jocoso, insinuaram que eu era bolada, algo a respeito de homens, e eu respondi no mesmo tom. Disse que era atleta, que tinha namorado e meu namorado era grande – que mulher gosta é de homem grande. Na terceira vez em que passei por ali, um deles, o menorzinho e mais magrinho, com uma expressão que indicava chapação total (se só de álcool, não sei), me interceptou, quebrou uma garrafa de cerveja no chão e me desafiou a pisar no vidro: “você não é bolada? Então pisa no vidro!”. Aquele sozinho, seria moleza para mim. Dois tapas e já era. Mas em segundos me vi cercada de uma dezena de meninos, sorrindo com ar excitado, esperando o desenrolar daquela provocação. Me dei conta imediatamente do perigo da situação: um ou dois eu pegava, mas em dez, fariam um belo estrago em mim. Como estavam todos drogados e portanto não teriam como me perseguir, desviei, continuei correndo e não passei mais por ali.

Teria sido a agressão uma resposta ao que eu disse sobre mulheres preferirem homens grandes? Porque claro que não é verdade, foi apenas uma resposta irônica tão agressiva quanto às brincadeiras que eles faziam comigo, que, apesar de aparentemente inofensivas, eram agressões. O que eu não esperava é que aquele confronto evoluísse para algo mais físico.

Uns quatro meses antes disso, no mesmo bairro, também passei pela frente de uma casa onde se iniciava uma festa. Todos da rua, em geral jovens, gritaram coisas agressivas para mim. Evitei a rua.

Mais para trás ainda, há cerca de um ano e meio, quando eu ainda era muito menos musculosa que hoje, um homem velho e bastante acabado atiçou o cachorrinho contra mim enquanto eu corria. Me assustei – a gente sempre se assusta quando está correndo com fone de ouvido, pois não se fica tão atenta para o ambiente. Era na avenida principal, o velho caminhava com seu cachorrinho, eram 5:30h ou 6h da manhã e o cachorrinho correu para morder minha canela. O velho estimulou: “pega, morde ela!”. Eu respondi que gostava muito de cães, mas mataria o cachorro dele se fosse mordida. O velho riu de mim, com uma expressão de ódio.

O que todas essas situações têm em comum é a agressão gratuita que sofri exatamente no mesmo contexto: correndo sozinha, escutando música, pelas ruas do bairro em que moro. Evito correr em lugares estranhos por medo de agressões semelhantes sem que eu tenha uma rota de fuga na cabeça. Disso se conclui que o ato de correr na rua com fone de ouvido, em si, deflagra tais comportamentos em certos tipos de pessoa. Que tipo? Não sei: entre as três situações, houve gente de todas as idades e gêneros. Homens parecem ser mais vocais nas agressões. Num dos casos, os xingamentos das mulheres foram na onda dos homens.

Seria isso uma reação a quem corre nas ruas? Como se estivéssemos cometendo algum tipo de ataque ao pudor, expondo uma relação transgressora com nossos próprios corpos?

Mas pensei em outras situações. Pensei na estranha história do homem fraco e franzino que ficou fascinado por mim numa tarde numa academia de classe média em que eu treinava e, depois, descobrindo meu site, teve um surto de ódio e me escreveu vários e-mails ofensivos.

Não quero nem incluir nessa reflexão as agressões que ocorrem no ambiente virtual, porque essas são estimuladas por fotografias, e não pela minha presença física. Fazem parte de um quadro ainda mais amplo de reação à imagem. Se feminina ou não, atlética ou não, musculosa ou não, eu me pergunto.

Penso que essas agressões são estimuladas por uma mistura de sentimentos ambivalentes, ambivalência que talvez seja o combustível para mais ódio: a rejeição a nossos hábitos e/ou estética e a inveja dos mesmos, a exposição – involuntária da nossa parte – da alienação corporal deles, agressores. Talvez um pouco a condição sádica de intimidar alguém que está só, quando os agressores estão em grupo (ou acompanhados por um cachorro). Talvez o machismo que se ofende diante de mulheres desacompanhadas.

Não acho que isso tudo seja tão diferente da agressão que minha filha e suas amigas sofreram anteontem na praia. Três adolescentes, mulheres, desacompanhadas de homens. Mulheres que jamais aceitariam a aproximação sexual dos agressores – a barreira cultural ali era imensa, elas agem sempre de forma não receptiva (eu as conheço), sempre defensiva (pois são muito jovens e têm medo). Mulheres que, ainda que em silêncio e passivamente, os rejeitam.

Então, na verdade, nenhuma agressão é realmente gratuita. Numa sociedade tão complexa e conflitiva como a nossa, nossa simples presença ou exercício de um hábito que nos parece não invasivo (afinal, não fede, não polui, não tem som, não destrói nada) é uma ofensa. O que existem é agressões injustas, covardes ou simplesmente incompreensíveis sem um esforço analítico. Uma agressão machista de forma alguma é gratuita, pelo contrário: ela é motivada por um desejo absolutamente bem articulado de dominação de um gênero pelo outro. Pode ser (e é) covarde. Injusta. Mas gratuita não é.

Assim, diante de uma agressão, acho uma boa idéia tentar entender sua estrutura. Deixar barato, só se for a saída mais lógica. A priori sou a favor de punição e retalição, sempre, contra atos covardes, opressivos e injustos. Mas que vale a pena ficar de olho porque perigo sempre existe, isso vale: agressões não são gratuitas e seus motivos podem ser poderosas alavancas simbólicas de dominação e confronto, e guerra não é brincadeira.

 

Marilia

 

BodyStuff

 

 

  • Belíssima,

    faz algum tempo, quando fazia rituais wiccanos na praia, sozinha ou acompanhada de uma amiga, já aconteceu de sermos assediadas na praia. Talvez de forma menos agressiva, o que penso que seja em razão de não sermos tão jovens quanto a sua filha e as amigas dela (na época já tínhamos uns 25 anos) e da minha amiga ter quase 1,90 m!

    Não deixo de ficar abestada com o fato de, ainda hoje em dia, a mulher não ser, socialmente, DONA do seu corpo e, portanto, de seu livre trânsito em hora e local que lhe apetecer.

    Por outro lado, você disse sobre a inveja que essas pessoas têm. De forma análoga, acho que isso já aconteceu/acontece comigo e guarda relação com preconceito de gênero e raça. Meu caso: sempre fui a melhor aluna, estudei em bons colégios/universidades e sempre tive um bom nível cultural diante desses parâmetros aí. Pois muito bem, e não é que nestes ambientes foi onde eu mais sofri racismo? E não dos melhores, tão bons quanto eu ou quase, mas dos mais medíocres, dos mais “burrinhos”, dos mais incultos. Estes faziam questão de querer me agredir, sempre com viés racista. Ao fim e ao cabo, era assim: como você, uma negra, ousa estar aqui (neste ambiente classe-média-alta) e ser melhor do que eu? Mutatis mutandis, com você deve funcionar assim: como você, uma mulher, ousa ser mais forte do que eu (porque força nessa sociedade não é pra mulher, né? assim como cultura não é pra negro! hahahahaha), com melhor condicionamento físico, etc?