Esses pensamentos eu dedico aos meus dois gurus nutrológicos, Jakaré e Luis, que pensam que eu sou quase racional, talvez como desculpa preventiva, talvez como imunização contra falsos julgamentos superestimados.

Alimentos funcionais são aqueles “sobre os quais se alega serem benéficos à saúde com base em evidência científica”. Essa é uma das definições mais recentes [H Verhagen et. al, Assessment of the efficacy of functional food ingredients – introducing the concept “kinetics of biomarkers” Mutation Research 551(1-2): 65- 78, July 13, 2004]. O Institute of Medicine in Washington define os alimentos funcionais como aqueles que compreendem produtos potencialmente saudáveis, incluindo qualquer ingrediente ou alimento modificado, que possa proporcionar benefícios à saúde que vão além dos nutrientes tradicionais que ele contém. Para esse instituto, alimentos funcionais incluem cereais, pães e bebidas fortificadas com vitaminas, plantas ou nutricêuticos [www.glyconutrientsreference.com/definitions.html].
Alimentos funcionais são alimentos, componentes de uma dieta, que “demonstradamente” proporcionam benefícios à saúde, em geral na linha da prevenção de doenças crônicas e degenerativas. O termo “alimentos funcionais” foi introduzido no Japão, em meados da década de 80. Os alimentos funcionais compreendem alimentos convencionais contendo substâncias bio-ativas que ocorram naturalmente (por exemplo, fibras), alimentos enriquecidos com substâncias bio-ativas (como probióticos e anti-oxidantes) e ingredientes sintetizados introduzidos em alimentos tradicionais (por exemplo, prebióticos). Alimentos funcionais não são pilulas ou cápsulas, e sim comida, alimentos, coisas que se colocam no prato ou no copo.
No momento, os alimentos funcionais mais importantes utilizados são probióticos, prebióticos, anti-oxidantes vegetais, vitaminas e calcio. Probióticos são microorganismos vivos os quais, quando administrados numa dose adequada, conferem benefícios a quem consome. Exemplos do emprego de probióticos são os iogurtes.
Prebióticos são ingredientes não-digeríveis ou pouco digeríveis que, administrados a um indivíduo, estimulam seletivamente o crescimento ou atividade de um certo número de bactérias da flora intestinal. Essa é a função de vários carboidratos fermentávies, por exemplo. Lactulose, galactooligosacarídeos, frustoligossacarídeos e inulina são alguns exemplos.
Anti-oxidantes são mais conhecidos: quem já não recebeu a recomendação de consumir mais brócoli, alho, couve e outras fontes de anti-oxidantes?
Uma boa referência sobre alimentos funcionais é W³odzimierz Grajek., Anna Olejnik and Anna Sip, Probiotics, prebiotics and antioxidants as functional foods. Acta Biologica Polonica, Vol. 52 No. 3/2005, 665–671.

Dois grandes mercados do mundo industrial contemporâneo florescem sobre o avanço dos conhecimentos quanto aos alimentos funcionais: a indústria biotecnológica, que pesquisa os componentes bioativos dos alimentos funcionais em busca de descoberta de novos fármacos (screenining, isolamento, síntese química), e a indústria nutricêutica, que comercializa partes desses alimentos funcionais, compostos ou substâncias que não são legalmente considerados fármacos, mas não são mais os alimentos in natura.

Todos nós consumimos muitos alimentos funcionais. Minha dieta contém todos os tipos deles: muitos vegetais verdes, tomate, soja, chá verde, etc.

Mas existe uma outra categoria de alimentos, a qual eu chamo de “Wonderfoods”. “Wonderfood” não é um conceito, nem um termo de uso constante. No Google, a palavra-chave “wonderfoods” recupera, hoje, 1220 documentos. A maior parte deles se refere a coisas que poderiam ser classificadas como alimentos funcionais.
No entanto, eu quero re-qualificar o termo: WONDERFOOD, no contexto do meu texto, se refere a uma categoria de alimentos com os quais o consumidor tem uma relação não-racional, de fé no poder de proporcionar benefícios à saúde. Ao contrário dos alimentos funcionais, eles não são aqueles para os quais há evidência científica comprovada quanto aos benefícios e mecanismos fisiológicos dessa ação biológica. Deve haver uma aura de mistério em torno deles.

Não existe uma linha clara que separe alimentos funcionais de wonderfoods. Um alimento funcional pode ser uma wonderfood para mim, desde que eu atribua a ele poderes que não estão descritos por nenhuma pesquisa ou nenhuma observação sistemática. Desde que eu tenha uma relação com ele que só pode, ao meu ver, ser classificada como MÁGICA.

E o que é mágica? Mágica é um conjunto de procedimentos simbólicos, ou um sistema de símbolos que se articula além do discurso racional ou da observação empírica. Está sempre associado ao “sobre-natural”, ao que vai “além” da natureza. Os procedimentos mágicos são tentativas de obter controle sobre a natureza, justamente através do “sobre-natural”. Os antropólogos separam a magia da religião por definir a magia como o conjunto desses procedimentos quando são individuais, enquanto a religião se refere a esses procedimentos quando são executados de forma coletiva, num contexto institucional.

Eu acho que boa parte de nós tem uma relação mágica com comida. Acho mais: acho que essa relação mágica é até saudável. Por exemplo: eu consumo diariamente um líquido obtido pela fermentação de água com açucar mascavo por uma bolinhas que parecem sagu e que atendem pelo nome de kefyr. Foi isso que a pessoa que me deu o inóculo disse que era. Procurei na internet, e os únicos microorganismos com nome ligado a kefyr são candidas que fermentam leite e são a base de um produto tradicional da Europa oriental. Mas o que eu tenho aqui é diferente! Parece sagu! Por que eu não tentei descobrir o que é? Pedir a algum amigo meu (afinal, sou bióloga!) verificar? Porque não quero saber!
A pessoa que me deu o inóculo é uma médica que frequentava a mesma academia que eu (uma médica espírita…). Ela me garantiu que aquilo controla glicemia de diabético, hipertensão, problemas intestinais e outros males. Uma espécie de panacéia universal. Ela dava palestras sobre os saguzinhos e distribuia inóculos aos conhecidos. Eu levei o meu para casa, cultivei e administrei o líquido para minha filha, para um colega e para mim mesma. Os dois tinham problemas com constipação, que foi imediatamente controlado. Eu não tinha, e por alguns dias fiquei um pouco diarréica. Os dois pararam de consumir em algumas semanas. Dei inóculos para alguns amigos e parentes (porque os saguzinhos se reproduzem muito rápido), mas ninguém levou a cultura a frente – só eu. Sou diabética? Não. Sofro de hipertensão? Não. Tenho constipação? Pelo contrário. Então, por que consumo? Porque acredito nos poderes mágicos daquela coisa! Só pode ser! Que outra explicação? Encanei que foi muito bom para minha pele e que me sinto melhor tomando a coisa. Nenhum controle de registro – achismo puro. Relação mágica.
Ok, esse é o pior dos meus wonderfoods. Existem outros. Tomo levedura de cerveja, o pó, mesmo, aquela coisa com gosto horrível. Tomo bastante, todo dia, duas vezes por dia, ritualmente.
Isso é importante! Wonderfoods, como toda coisa mágica, tem que ser consumida de forma ritual. Não é assim, toma uma bolinha e pronto. Tem o momento certo, a hora certa, a combinação certa.
Todo mundo sabe que levedura de cerveja é uma coisa muito boa. Contém uma alta concentração de vitaminas do complexo B e vários minerais importantes. Mas tenho certeza de que não tomo levedura pelo que eu sei que está lá, e sim pelo que eu NÃO sei que está mas quero muito acreditar que esteja!
Soja: como fiquei feliz quando li os resumos dos trabalhos em que ginestein isolada (uma das isoflavonas, a que mais parecia ter atividade biológica anti-cancerígena in-vitro) tinha efeitos paradoxais! Devolveram minha wonderfood! A soja voltou a ser aquela coisa mágica, que não pode ser decomposta em elementos conhecidos e testados! Então eu também como soja, em grão, e extrato de soja, misturado às coisas.
Água: sim, água é o maior dos meus wonderfoods! A maior prova disso é que, uma vez, numa situação complicada, que eu não sabia resolver, para qual eu não queria utilizar nenhuma droga, decidi que resolveria a coisa com água. A situação era um ataque de ansiedade causado por dias de insônia por jet-lag, na Alemanha, quando eu morava nos Estados Unidos. Água não tem nada a ver com sono, mas eu tomei litros de água, até dormir. Uma relação totalmente mágica.
Hoje, eu acredito que meu maior consumo de água é responsável por algumas coisas importantes de controle da minha saúde. Não desgrudo das minhas garrafinhas de água. Tomo muitos litros por dia. Sim, existem estudos sobre a importância da hidratação, mas não é por isso que eu tomo tanta água. É porque acredito que ela me protege de coisas muito ruins, equivalentes, para os crentes, dos demônios e coisas do mal.

Você, que está lendo essa crônica, deve estar pensando: essa mulher é completamente doida. Sim, você tem razão. Mas, pense bem: não somos todos um pouco assim? Não temos todos pelo menos um pouquinho de relações meio mágicas, meio pouco racionais, com comida? E não foi assim ao longo de toda a história da humanidade? Os grandes pactos com os deuses, as grandes alianças divinas, não foram todas ritualizadas com comida?

Eu não tenho nenhum deus em que acreditar. Também não acredito em I-Ching, não sou Wikana, não sou budista e nem espírita. Meu mundo é muito simples e articulado em bases racionais. Mas me sobra esse grande nicho de magia que acredito existir em qualquer ser humano, o daquilo que ingerimos e transformamos dentro de nós mesmos: a comida.
Comida é mágica!
Vivam as Wonderfoods!

Marilia


BodyStuff

  • Anônimo

    marília, bárbaro!
    seu texto me fez reconhecer que tenho um alimento mágico: o chá verde. tomo muitos copos aqui na band. sempre que as coisas estão apertando, que a tensão aumenta vou buscar meu chá verde e parece que ele me acalma, apesar de não ser essa a função do chá verde. para isso deveria tomar camomila, erva doce, talvez…. sinto como se o chá verde pudesse ir além, forjar ao meu redor uma proteção contra as angústias do trabalho. tanto que no período de férias não tomei nadinha de chá verde e nem senti falta…
    há muitos anos quando eu fazia tai chi com o mestre liu pai lin ele nos fazia tomar chá verde antes e depois das aulas. foi um período deliciosamente calmo da minha vida..talvez esteja aí a explicação: o chá verde me leva a “sentar na calma”, apesar de tudo estar explodindo ao meu redor, na redação…
    dizer que adorei seu texto é redundante…mas tudo bem, posso me dar ao luxo de ser repetitiva aos 40 anos…
    beijos, ana cardilho

  • Anônimo

    Curioso e mágico parece ser o fato de eu estar lendo seu texto hoje, quatro anos depois de publicado. Isto me fez lembrar fatos ocorridos na família.
    Minha avó preparava um chá mágico, servia pra tudo, pena que não anotei a fórmula. O chá era feito com cabelo de milho, carqueja, boldo e outras raízes. Ficou na minha memória o dia em que o nosso médico de família, numa emergência diarreica recomendou tomar o chá da vovó e suspender a comida mais pesada e principalmente os derivados de leite.
    Dores de cabeça, mal estar, indigestão… amigos iam até a casa da minha avó tomar uma chicara do chá em vez do delicioso cafezinho, também mágico que a velhinha fazia.
    Tudo uma questão de fé que a ciência reconhece como elemento fundamental em qualquer terapia. Gostei de saber um pouco do que fervilha na sua mente.
    Um dos alimentos mágicos que é rotineiramente usado por nossa família é o mel mais os seus derivados. Hoje continuo consumindo pólem geléia real e mel extraido das nossas próprias colmeias. Estas, infelizmente, estão sendo desativadas pela falta de tempo para as apis.