Sou contra – sempre fui.

Mesmo antes de devorar a literatura sobre sociologia da ciência e da tecnologia e ter os instrumentos interpretativos para descrever o jogo de interesses que realmente sustenta esta política.

Acho que formei uma percepção pouco elaborada sobre a falácia do anti-doping em 1988, quando Ben Johnson perdeu sua medalha olímpica por causa dele. A disputa apertada com Carl Lewis, o ídolo americano, foi, enfim, resolvida com o banimento de Johnson. Depois disso, uma tímida discussão sobre o uso de esteróides nos esportes de alto rendimento começou a se desenvolver. O próprio Lewis foi acusado mais de uma vez de utilizar drogas e, mais tarde, admitiu que o fazia.

No ano 2000, a USATF, a Federação de Atletismo, foi acusada de acobertar 13 casos de doping positivo, incluindo alguns medalhistas olímpicos. Mas a poderosa federação ganhou o processo movido contra ela e os nomes não foram revelados.

Wade Exum, que foi diretor do USOC (Comitê Olímpico dos Estados Unidos), revelou, em sua ação contra o órgão, uma política sistemática para na prática encorajar o uso de substâncias otimizadoras de performance. Estes documentos são conhecidos como “Exum Files”.

O técnico de Ben Johnson, Charlie Francis, também banido do esporte, revelou que todos os atletas olímpicos de topo faziam uso de fármacos otimizadores de performance e que, no caso específico de Johnson, não havia como testar positivo, ironicamente. Hoje eu sei do que ele estava falando: não testar positivo é uma questão de administrar o processo de “desbolar” e limpar a tempo de não haver resquícios da droga no orgnismo. No caso de Johnson, então, aparentemente a coisa foi ainda pior: o doping foi forjado e usado numa disputa política.

 

Indústria farmacêutica e rotas tecnológicas

 

O tempo passou, me formei em biologia e química, fiz mestrado na área de bioquímica e me doutorei em sociologia da ciência. Anos depois do meu doutorado, minha trajetória me trouxe a uma temática interessante: as rotas tecnológicas da indústria farmacêutica e as políticas de propriedade intelectual. Fui coordenadora de um projeto da FAPESP (http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4785749T6 em “projetos”) na área e dei consultorias, no contexto deste projeto, a várias instituições públicas no Brasil. Ao longo desta linha de pesquisa, tive oportunidade de interagir com grandes advogados de patentes farmacêuticas e biotecnologicas nos Estados Unidos. Nunca me esqueço do que um deles um dia me disse: “empresas não tem ética, não têm responsabilidade social, nada disso: empresas não são gente – são instituições movidas pela lógica do lucro e as decisões no que diz respeito a patentes farmacêuticas nada têm a ver com saúde pública”.

Assim se formam as rotas tecnológicas: determinadas linhas de produto são inseridas de forma bem-sucedida no mercado e sua manutenção ou substituição depende de um ciclo que estas linhas cumprem no tempo. Até lá, esta “rota” será explorada à exaustão e outras serão inibidas. Para ilustrar, consideremos o caso do forno de micro-ondas: o protótipo foi desenvolvido cerca de 10 anos antes de sua introdução no mercado. O motivo é simples: o “ciclo” do forninho elétrico ainda não havia sido cumprido e o benefício (para a indústria) da introdução do forno de micro-ondas seria menor do que se fossem esperados alguns anos.

Na indústria farmacêutica, bilhões de dólares são gastos em processos litigiosos entre as mega corporações, alguns dos quais com o objetivo de “sentar em cima da patente”. Isso quer dizer que, independente do maior ou menor benefício da droga para situações clínicas específicas, se estrategicamente valer a pena não desenvolvê-la, a indústria investe pesado para impedir que qualquer um o faça. Mas até chegar nos tribunais, outras formas mais eficientes de inibir ou estimular linhas de pesquisa, e, portanto, chegar ao desenvolvimento de produtos farmacológicos (que chegam a custar vários bilhões de dólares e mais de 10 anos de pesquisa), são empregadas.

Assim, é preciso olhar com cuidado as “proibições” do uso de substâncias adotadas por políticas públicas. Vejamos um caso de substância proibida: DNP, ou dinitrofenol. Essa droga tem uma história interessante. Originalmente desenvolvido como um composto para síntese orgânica e utilizado para a fabricação de tintas e preservativos de madeira, lá pelos anos 30 alguém descobriu que podia ajudar a emagrecer. Depois de várias mortes causadas pelo uso de DNP, a substância foi controlada. Ora, DNP é um desacoplador de fosforilação oxidativa, o fenômeno metabólico básico da respiração celular! É classificado – não moralmente, mas bioquimicamente – como um VENENO METABÓLICO. É interessante explorar a manipulação dos processos oxidativos para o controle da epidemia de obesidade? É sim, e a rota “benevolente” para isso está sendo explorada através das proteínas desacopladoras (uncoupling proteins).

Esse é um caso onde o controle da venda de uma droga é do interesse público. Outro, batido demais, é a talidomida: depois de inúmeras tragédias familiares, caiu a ficha de que era uma droga teratogênica e de altíssimo risco para gestantes e foi controlada.

E os esteróides? Quais as evidências empíricas sobre os riscos no consumo de esteróides? Mais ou menos o mesmo do que com qualquer hormônio, anti-inflamatório ou anti-histamínico. Óbvio que há riscos. Qualquer uma destas substâncias é potencialmente letal. No entanto, é um sofisma de racionalidade insustentável banir e reprimir o uso de esteróides e não de pílula anti-concepcional ou cortisona.

Uma pesquisa minimamente cuidadosa na literatura médica mostra que, do ponto de vista clínico, não há base para alarme com estas substâncias, cujos malefícios são infinitamente menores do que o das drogas psicotrópicas.

Ao contrário, esteróides anabolizantes estão timidamente sendo pesquisados como ferramentas úteis em casos de depressão, perdas ósseas e musculares pelo envelhecimento ou desordens consumptivas, como a AIDS. O uso crônico destas substâncias, como reposição hormonal, alivia boa parte dos sintomas degenerativos da andropausa e menopausa – muito mais do que a reposição hormonal estrogênica.

Mas há um problema: drogas psicotrópicas na linha dos neurolépticos, estabilizadores de humor e anti-depressivos estão entre as três classes de maior lucratividade da indústria farmacêutica (que inclui também os anti-hipertensivos e os anti-cancerigenos). Hoje em dia, o screening para descoberta de drogas basicamente contempla estas três classes de composto antes de mais nada. Assim, novas patentes são introduzidas anualmente, alimentando uma guerra bilionária entre as multi-nacionais. O resultado são novas drogas caríssimas, enfiadas goela abaixo de uma comunidade médica desinformada e mal-educada, que por sua vez repassa os produtos para a população.

Sim, sim, minha última linha de pesquisa foi a respeito de necessidades de informação técnico e científica entre médicos e a desinformação médica: amigos, médicos hoje em dia são educados pelos vendedores das indústrias farmacêuticas com suas malinhas pretas. Sem uma política de disponibilização de informação técnica, será assim para sempre, pois são necessárias cerca de 19 horas de leitura contínua por dia para que um profissional se mantenha tecnicamente atualizado. Se nem pesquisadores conseguem isso, o sujeitinho que receita Zyprexa como aspirina em seu consultório vai ter tempo para que?

O ponto aqui é o lucro: a indústria investe pesado para que os médicos substituam o tempo todo as drogas que caíram no domínio público (e, portanto, seu custo se reduz drasticamente) por drogas sob proteção patentária. Façam um experimento mental: e se realmente for comprovado que a administração de um esteróide androgênico controlar desordens mentais? Uma ampola de deca de 25mg custa R$ 5,32. Suponha o uso de duas doses semanais: R$ 42,56. Compare com o uso de Zyprexa (originalmente um neuroléptico altamente tóxico, hoje empurrado como panacéia, até como estabilizador de humor): uma caixa com 14 comprimidos custa R$ 216,43 e costuma ser suficiente para uma semana. O custo mensal do tratamento com essa droga (e tratamento psiquiátrico quase nunca utiliza uma única droga) é de R$ 865,32. O custo seria 20 vezes maior para o último tratamento. Isso diz algo sobre o lucro correspondente de quem produz estes medicamentos.

Não há o que a indústria não faça para proteger seu lucro: não há jogo sujo o suficiente para esta guerra. Na minha opinião, esse é o motivo pelo qual as linhas de pesquisa voltadas para o uso clínico de esteróides em desordens mentais, lesões, recuperação de desordens diversas não são perseguidas: o lucro da grande indústria farmacêutica e só isso.

 

A questão da otimização da performance

 

Não há argumento com mais furos lógicos do que a proibição de drogas para aumento de performance. O que são drogas? São recursos tecnológicos. Moléculas sintetizadas através de tecnologia apropriada para modificar o funcionamento metabólico. Só e nada além de TECNOLOGIA. Não são diferentes de borracha para tênis que melhora a corrida ou tecidos para melhorar a hidrodinâmica do nado em maiôs.

“Redutio ad absurdum” (reduzindo ao absurdo), proibir recursos para aumento de performance seria o mesmo que buscar uma situação de concorrência apenas com irmãos gêmeos univitelinos, nus, com a mesma dieta e ambiente pela vida toda anterior ao evento.

Se um atleta tomar whey e outro não, há vantagem em performance.

Se um atleta tomar whey com tecnologia que preserve a estrutura molecular da lactalbumina e outro tomar whey com proteína desnaturada, o primeiro tem vantagem de performance.

Se um suplementar com leucina e outro não…

A separação entre a indústria FARMACÊUTICA e a NUTRICÊUTICA, caro leitor, é apenas de natureza LEGAL. Não se trata nem de diferenciar entre xenobióticos (substâncias exógenas com ação biológica) e compostos metabólicos: hormônios são tão “compostos metabólicos” quanto amino-ácidos, e HMB é tão xenobiótico quanto tilenol. Só que estão legalmente em categorias distintas.

Assim, ao proibir as drogas que melhoram a performance e não proibir outras coisas que melhoram a performance, o COI e seu braço armado, a WADA, revelam interesses muito diferentes da “justiça esportiva”. O que está em jogo são interesses empresariais – afinal, proibir o tenis da Nike seria trágico para os jogos olímpicos e manter as drogas bem escondidas, ótimo para as multi-nacionais.

 

Para que serve a alta performance

 

Para que serve a corrida espacial? Muita gente questiona isso. Afinal, com bilhões de pessoas vivendo na pobreza e exclusão, é o fim da picada mandar um foguete para uma bola de pedra inóspita no espaço ao custo de alguns bilhões de dólares. No entanto, alguém sabe quantas inovações tecnológicas resultaram das pesquisas que levaram esses foguetes ao espaço? Inúmeras e de altíssima relevância prática para a qualidade de vida de milhões de pessoas.

O mesmo se pode dizer da formula 1: para que serve aquele show caro onde cada pneu alimentaria várias famílias em Paraisópolis por mês? Pois é, para desenvolvê-los, para desenvolver combustíveis e componentes mecânicos dos carros, foram feitas pesquisas tecnológicas cujos sub-produtos são veículos mais econômicos, mais eficientes, menos poluentes e mais acessíveis, hoje.

Assim, toda a atividade de alta performance que atraia investimento em pesquisa tecnológica “serve” para gerar sub-produtos para aplicações alternativas.

O esporte não é diferente. Hoje, os suplementos originalmente desenvolvidos para a melhora da performance esportiva têm aplicações clínicas diversas: há muita evidência empírica demonstrando a eficácia de whey como preventivo de degeneração por envelhecimento, por viroses, como forma de combater intoxicação alcoólica e outras aplicações (Whey e o meu resfriado). O mesmo se pode dizer de BCAA e outros suplementos. É simples: se uma substância inibe o gigantesco catabolismo de um atleta de alta performance, não é intuitivo que pode melhorar a vida de um idoso com câncer? Quase sempre é verdade!

Se uma droga aumenta o rendimento físico e mental de um indivíduo de metabolismo ultra-eficiente, não terá um efeito ainda mais marcante sobre indivíduos com deficiências?

Essas são as motivações práticas para se buscar tecnologias de melhora de alta-performance – seja na área da suplementação esportiva (indústria nutricêutica), dos equipamentos (várias indústrias) ou das drogas (indústria farmacêutica).

As motivações culturais, ou simbólicas, no entanto, são ainda mais relevantes. Mas já escrevi bastante sobre isso (A arte, a ciência e o esporte – em busca do “humano” e “Meritocracia no jogo e na vida social” –  http://mariliacoutinho.livejournal.com/47165.html).

 

A questão da demonização da força

 

Este assunto foi muito bem desenvolvido por John Williams em:

The Demonization of Anabolic Steroids – Part I: What Makes These Hormones So Evil?

The Demonization of Anabolic Steroids – Part II: Modern Society’s Love-Hate Relationship with Strength and Muscle

Basicamente, Williams demonstra, através de uma séria análise da historia da criminalização dos esteróides nos Estados Unidos, que um fator cultural não considerado pode ter sido determinante nesta “guerra santa” contra as drogas: a demonização da força. Acho que o argumento de Williams têm fundamento e eu mesma já desenvolvi idéias sobre o preconceito contra a força (Síntese das idéias sobre preconceito muscular ).

 

Bottom line

 

Vivemos numa sociedade complexa com interesses mais ou menos poderosos orquestrando praticamente todos os aspectos da vida social e econômica, além, claro, dos imponderáveis elementos simbólicos e culturais. Tomar “de barato” um argumento raso contra drogas como aquele (mal e apelativamente) articulado pela WADA é jogar fora séculos de reflexão cuidadosa de filósofos, cientistas sociais e pensadores diversos sobre estes aspectos tão relevantes de nosso mundo complicado.

Por favor… não façam isso: não nos joguem de volta na Torre de Marfim. Para nós, que tentamos contribuir com uma reflexão crítica e isenta de preconceitos nestes assuntos, é como se décadas de dedicação honesta ao mundo das idéias e seu poder para reduzir injustiças e melhorar a vida de TODOS fosse jogada no lixo. 

PS – O próximo será sobre o aspecto discriminatório, do ponto de vista internacional, da prática do anti-doping, o qual sempre penaliza países menos desenvolvidos.

 

Marilia

BodyStuff