ressonância magnética, luz, hormônios, alimentos e outros bichos

 

Como já foi apontado em outro artigo, no caso da desordem bipolar, por “tratamento” entende-se só e exclusivamente DROGA. Mais particularmente todos os peixes farmacológicos que caírem na grande rede dos “estabilizadores de humor”, hoje em grande parte anti-psicóticos atípicos.

Mas e se a abordagem fosse ligeiramente mais científica, ou seja, buscasse vislumbrar intervenções baseadas no entendimento de relações causais no fenômeno? Nem pensar, né? E o que aconteceria com os bilhões de dólares de lucro da indústria farmacêutica com novos e recém-patenteados instrumentos de zombificação? No entanto, de forma inteiramente marginal, algumas tímidas iniciativas vêm se desenvolvendo. A mais tradicional entre as tímidas é a nutricional, que aponta para relações estatisticamente robustas entre o consumo de peixe e a menor incidência epidemiológica da doença, ou estudos sobre o efeito de Omega-3 sobre os sintomas (Lin & Su 2007, Kidd 2004). Outros nutrientes têm sido associados a efeitos terapêuticos positivos na linha “dedutiva” que sugeri: considerando a hipótese de que a desordem bipolar está relacionada a disfunções na membrana do neurônio, agentes que alteram sua estrutura e funcionamento teriam efeito sobre a expressão da doença? Sim, têm! Kidd (2004) publicou uma revisão útil nessa linha, mostrando que há anos existem evidências praticamente inexploradas a respeito de suplementação e nutrição como abordagens terapêuticas.

Também em 2004, Rohan e colaboradores (Rohan et al 2004) publicaram um trabalho mostrando que ressonância magnética de campo plano (EP-MRSI), em determinadas freqüências, tem efeito acentuado sobre sintomas de desordem bipolar. Ao contrário dos tratamentos análogos, com rTMS (repetitive transcranial magnetic stimulation), utilizados com algum sucesso em depressão, porém desconfortáveis ao paciente, o EP-MRSI é bem aceito. A máquina, naturalmente é cara. O tratamento, muito barato. O custo em fármacos, zero. Considerando a indigência e corrupção no sistema de saúde brasileiro (onde muitas farmácias hospitalares têm SÓ Zyprexa para oferecer a pacientes de diferentes diagnósticos), nem cogito a possibilidade de se explorar algo de tão bom senso, redução de custos públicos e sofrimento individual.

Esse ano será publicado (o manuscrito ainda está em prova) um outro interessante trabalho mostrando que um tratamento de eficiência relativamente alta em pacientes de desordem bipolar é o “tratamento do escuro”. O primeiro estudo de caso relacionado a esta abordagem, que consiste em proteger o paciente da exposição à luz, data de 1998. Resultados positivos em outros estudos seguiram-se a ele, mas a deprivação total de luz durante a noite é uma abordagem fortemente rejeitada pelos pacientes, por motivos óbvios: vivemos numa sociedade em que se auto-excluir de mídias como a TV e computador representam um grau de alienação insuportável para a maioria. Phelps (2007), então, desenvolveu um protocolo onde se proporciona “escuridão funcional” ao paciente através de lentes âmbar, que bloqueia apenas a luz azul e azul esverdeada. O resultado é muito semelhante ao da deprivação total de luz, sendo bem aceito por pacientes. O efeito sobre os sintomas de desordem bipolar reportados no estudo são significativos.

No site educativo PsychEducation.org de J. Phelps são citados alguns programas que exploram intervenções hormonais e alguma coisa sobre exercícios físicos, naturalmente sem estudos bem controlados e com hipóteses robustas.

Eu mesma, com toda a rede de contatos que minha longa estadia dentro dos órgãos públicos de pesquisa me rendeu, jamais consegui que meu próprio estudo de caso sobre o sucesso da intervenção através de treinamento de força intenso fosse publicado.

A censura direta ou indireta da indústria farmacêutica é poderosa: os médicos que simpatizaram com minha iniciativa e estão ligados ao sistema de pesquisa brasileiro foram claros em dizer que publicar meu caso teria implicações éticas e políticas que a maioria não estaria disposta a administrar, pois são riscos à carreira que podem se tornar incontroláveis. Outros profissionais já estão tão catequizados pela indústria que sequer processam a informação sobre o caso.

É nesse estado que estamos: nova informação e novos tratamentos precisam romper barreiras econômicas e éticas complicadas para chegar ao público.

 

Marilia

 

Referências Bibliográficas

 

Kidd PM. 2004. Bipolar disorder and cell membrane dysfunction. Progress toward integrative management. Altern Med Rev. Jun;9(2):107-35.

Lin PY, Su KP. 2007. A meta-analytic review of double-blind, placebo-controlled trials of antidepressant efficacy of omega-3 fatty acids. J Clin Psychiatry. Jul;68(7):1056-61.

Michael Rohan, S.M. et al. 2004. Low-Field Magnetic Stimulation in Bipolar Depression Using an MRI-Based Stimulator. Am J Psychiatry; 161:93–98.

Phelps J. 2007. Dark therapy for bipolar disorder using amber lenses for blue light blockade. : Med Hypotheses. Jul 14; [Epub ahead of print]

PsychEducation.org – Extensive Mental Health Information on Specific Topics  – Jim Phelps, M.D.; Corvallis, OR, USA