Dia 16 agora cheguei de Guaíra cansada e encontrei as notícias. No meu e-mail, mandadas por amigos, e nos jornais, estampadas por todos os lados: o pior massacre da história Americana havia acontecido na Virginia Tech, em Blacksburg. Seung-Hui Cho chacinou 32 pessoas e depois se matou, num ato muito semelhante ao massacre de Columbine, de 1999, onde Eric Harris e Dylan Klebold mataram 12 pessoas numa escola.

Olhei as fotos e imediatamente reconheci, do lado direito de uma das imagens, o Lane Hall: foi onde tive um escritório durante os meses em que fiz meu pos-doc naquela instituição, entre 1996 e 1997.

Naquela segunda-feira, tudo parecia um pouco irreal. O cansaço do campeonato paulista de powerlifting, dúvidas e conflitos afetivos, fome, casa bagunçada e aquilo ali na tela do computador. Mais para pesadelo do que vida real. Dormi praticamente o dia inteiro. A ficha foi cair só na terça-feira.

Foi então que fui ler todos os detalhes, depoimentos e investigações.

Escrevi para amigos que ainda tenho lá, com quem não me comunicava há anos. Estranha volta ao passado, esta, proporcionada por algo tão trágico.

Minha relação com a Virginia Tech vem de antes da conclusão do meu doutorado, em 1994. Minha pesquisa foi na linha da sociologia do conhecimento científico, sobre o que havia muito pouca gente no Brasil trabalhando. Especificamente na temática que eu havia escolhido – ciências da vida, ecologia -, ninguém. A partir de 1991, passei a me corresponder (sem Internet!!) com pesquisadores de fora do país, quase todos nos Estados Unidos. Aos poucos fui me “enturmando” com a comunidade científica da área, organizada numa sociedade internacional chamada International Society for the History, Philosophy and Social Studies of Biology – ISHPSSB, por motivo que nenhum de nós sabe explicar, pronunciada “ishkabible”. É uma das sociedades mais ativas na área dos estudos sociais da ciência. Em 1993 conheci, no primeiro congresso da ISHPSSB do qual participei, Richard Burian, que me havia sido indicado por Joshua Lederberg. Lederberg é uma figura respeitada por todos em todas as áreas, ganhador do prêmio Nobel de 1958 por seus trabalhos em genética e um incentivador de novos talentos. Eu era um “novo talento”. Dick Burian era o diretor do Center for Science and Technology Studies, da Virginia Tech, e tem publicações importantes na área de filosofia da biologia. Dick é uma pessoa generosa e brilhante, nos demos bem instantaneamente e, depois de concluído meu doutorado, passamos a nos dedicar a elaborar meu pedido de bolsa para posdoc na Virginia Tech.

No congresso seguinte, de 1995, eu já pertencia à “turma”, já sabia com quem me identificava e me sentia em casa com eles.

Em 1996, me instalei em Blacksburg, com um projeto sobre “excelência científica em países periféricos”. Essa pesquisa só avançaria realmente mais tarde e durante os meses em que estive na Virginia Tech apenas selecionei metodologias e abordagens. Mais importante que tudo, no entanto, foi a interação com os colegas do Centro.

Do ponto de vista profissional, foi quando ganhei reconhecimento oficial: fui a primeira latino-americana indicada para a diretoria da ISHPSSB e organizei atividades bem-sucedidas na sociedade. Interagi com os melhores da área. Mas também foi o momento em que me situei plenamente entre os outsiders acadêmicos: recusei a proposta do vice-reitor da USP, na época, para ser a carta-marcada de um concurso e optei por me juntar a um bando de malucos mundo afora com destinos semelhantes ao meu. Nunca mais me encaixei no esquemão acadêmico “mainstream”.

Do ponto de vista pessoal, ir para Blacksburg foi abandonar uma vida quase certinha (certinha mesmo minha vida nunca foi) e ir para o desconhecido, sozinha e com uma filha de 7 anos a tira-colo. Larguei o pai dela aqui, com quem tinha um relacionamento desgastado, e fui para os Estados Unidos.

Blacksburg é uma cidade bucólica, rural, no meio dos Apalaches. Fica em uma das regiões mais bonitas dos Estados Unidos, onde há uma reserva extensa chamada Blue Ridge Parkway. É uma região de maior altitude e clima sub-ártico. No inverno faz muito frio e freqüentemente nevava a ponto de serem suspensas as aulas na escola da Mel.

Foi onde mais interagi com a vida selvagem. As estradas ficavam cheias de animais atropelados, alguns que eu nem conhecia. Uma vez uns amigos encontraram um veado recém-atropelado e assaram.

Minha rotina era levar a Mel para o ponto de ônibus escolar e ir correr ou nadar – dependia do tempo. Eu corria por uma trilha que inventei que passava pelo “duck pond” (lago dos patos) e atravessava pastos onde vacas experimentais pastavam tranquilamente. As vacas, com grandes esparadrapos vermelhos na bunda, eram propriedade da PPL Therapeutics, a empresa que fez o primeiro animal transgênico na história, a ovelha Dolly, em 1996. A PPL Therapeutics, com sede na Escócia, tinha uma das filiais em Blacksburg.

Estranha combinação de simplicidade rural e altíssima tecnologia. Nestas corridas matinais, vi uma quantidade enorme de pássaros e outros animais. Prarie dogs espiando de seus buracos na terra. Toquei num pequeno morcego estacionado numa árvore. Acompanhei a formação de ninho, nascimento e crescimento dos patinhos do lago.

Ao mesmo tempo, Blacksburg era a cidade mais on-line do planeta naquele momento. Com apenas cerca de 30 mil habitantes, 26 mil dos quais estudantes da universidade, Blacksburg é uma cidade universitária e só. Uma tripa de construções ao longo da Main Street e pastos em volta. O único hospital já ficava na cidade adjacente, Christiansburg.

Minha colega, a filosofa Valerie Hardcastle, dizia que Blacksburg era o cu do mundo, eqüidistante por 6 horas de qualquer centro civilizado. Acho que eu abusava da velocidade, pois chegava a Springfield, subúrbio de Washington DC, onde minha irmã mora, em cerca de 5 horas.

Não havia muita vida noturna. Nosso lazer consistia dos almoços com amigos ali pelas bandas da universidade e encontros nos finais de semana na casa uns dos outros. Um dos lugares favoritos para isso era a Poor House, uma espécie de república de pos-graduandos. O nome se deve ao fato de que a casa, uma antiga construção do século XIX, havia sido um local de caridade onde era distribuída uma sopa aos pobres da região. Lá moravam Amy, Steve, Chuck e não lembro mais quem. A cozinha era um desbunde e Steve fazia cerveja em casa. Tomamos altos porres, assamos patos e tortas.

No meu condomínio havia uma sala de musculação com uma multi-estação antiga Nautilus e um par de bicicletas ergométricas. Comprei dois livros sobre “musculação para mulheres” pela Amazon e montei meus primeiros treinos da vida. Sozinha, ia explorar o que meus músculos podiam fazer com aqueles pesos. No vestiário feminino da Virginia Tech havia outra multi-estação. Por que no vestiário, não faço idéia. Mas foi em Blacksburg que tive meu primeiro contato com o treino de força, sem suspeitar que anos mais tarde seria a salvação da minha vida e o centro das minhas atividades – esportivas, profissionais, sociais, políticas e afetivas. Foi lá que tudo começou, numa trajetória solitária.

A Mel tinha 7 anos – hoje tem 17. Estuda na USP, onde cursa Ciências Atmosféricas (ou metereologia?). Dou carona para ela até o IAG ou a apanho lá, tranqüila entre as ruas arborizadas da universidade. Para mim, sinônimo de segurança.

Mas depois do dia 16, não consigo tirar da cabeça que é a mesma segurança que os pais dos garotos assassinados em Blacksburg sentiam. Eles, como eu, tinham filhos universitários, jovens da idade da Mel, inocentemente assistindo uma aula de mecânica.

Penso nisso e me arrepio.

 

Marilia

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