No fim de semana passado, dia 19 de maio, foi realizado o primeiro Campeonato Brasileiro ANF-WPC (World Powerlifting Congress). Tivemos 16 atletas participantes, um a mais do que eu previa.

O campeonato teve uma organização impecável: os equipamentos – suportes de agachamento e supino, plataforma, barras e anilhas – eram novos, de dimensões adequadas a todos os levantadores e rigorosamente dentro das especificações técnicas de todas as federações sérias; os anilheiros e spotters eram estudantes de Educação Física ou educadores físicos devidamente instruídos por mim e selecionados, além dos critérios educacionais, segundo critérios de força (deveriam ser todos homens e capazes de executar um levantamento terra com no mínimo o dobro de seu peso corporal); os árbitros estudaram detalhadamente o livro de regras do WPC, devidamente traduzido e disponibilizado ao público com antecedência, e foram instruídos num curso rápido por mim, árbitra internacional certificada do WPC; os mesários todos tinham curso superior, o responsável pela súmula é um programador e os tempos foram seguidos de maneira rigorosa.

A estrutura física do campeonato foi organizada por Cláudio Gomes Pereira, profissional da área de eventos e feiras, que utilizou todo seu know-how na produção de eventos e cenários para criar espaços da mais alta funcionalidade e esteticamente impressionantes. Os banners foram por ele planejados e colocados numa ordem que dava conforto ao público e atratividade ao evento.

Os atletas foram instruídos no congresso técnico. Como a maioria não tinha familiaridade com a estrutura de campeonatos de powerlifting propriamente dito (“full Power”), alguns se confundiram e foram rapidamente instruídos pela organização.

O que podemos concluir disso tudo? Em primeiro lugar, em quatro anos de existência legal e total regularidade jurídica da ANF, nunca houve um evento de fato de acordo com o que eu considero os critérios de qualidade e respeito ao powerlifting exceto este. Como tantas vezes eu disse, suspendi todas as competições de 2011 até agora por este motivo e não faria mais nenhuma enquanto não tivesse certeza absoluta quanto ao respeito a estes critérios. O famoso “powerlifting de fundo de quintal” nunca mais se aproximará da ANF.

A segunda coisa que concluo é que vieram para o campeonato exatamente os atletas que deveriam vir: os que podem prosseguir numa linha correta no powerlifting. Muitos são atletas já de altíssimo nível. Outros são iniciantes. Não importa. São eles a base desse novo crescimento.

Duas decisões que tomei geraram inicialmente estranhamento, mas hoje faz sentido a muita gente: a ANF será mantida apenas RAW (sem equipamento suporte) e apenas com campeonatos full Power e de supino (para sempre). Os três anos não equipados são o tempo de maturação que eu considero necessário para que nos equipemos adequadamente para estes eventos e para que as equipes treinem para os mesmos. A escolha  pelo full Power e supino é simples: qualquer um que faça levantamento terra pode agachar. Powerlifting é um esporte de perfeição cinética: ele é uma metáfora para o movimento humano. É feito dos atos de AGACHAR, EMPURRAR e PUXAR. Como vários adeptos da “old school”, minha posição é que isso é o esporte – o resto são deformações. O supino não: tem muita gente com lesões que justificam a existência de eventos só de supino. Já que existem, que se abra para todos.

Todas estas decisões foram tomadas depois de consulta com as matrizes. Eu mantenho contato permanente com os presidentes de nossas federações internacionais e os consulto sobre todas as decisões tomadas no Brasil. Jamais faremos campeonatos com siglas combinadas (“ABC/WNT”, nomes hipotéticos). Isso é desrespeito com os organismo de sanção, os quais têm suas próprias culturas e livros de regras. É meu princípio ético respeitar a organização à qual filiei a ANF.

Caminharemos devagar e na linha estabelecida da qualidade. Temos amigos crossfiteiros interessados no powerlifting graças a isso. Servimos este tipo de público: pessoas que apreciam o ESPORTE , seu caráter de jogo. Por isso, também, minimizamos as premiações: troféu, apenas para melhor atletas open. O resto serão medalhas pequenas e prêmios que eu considero de muito maior relevância, como livros, equipamento e suplemento. É meu compromisso EDUCAR a população de novos atletas dentro do espírito da MERITOCRACIA, ou seja, fazer algo pelo prazer e respeito pela “coisa bem feita”.

Finalmente, uma palavra sobre anti-doping e drogas. Abaixo está a nota pública de esclarecimento que eu divulguei:

ESCLARECIMENTO SOBRE ANTI-DOPING, OU MELHOR, A AUSÊNCIA DO MESMO (último esclarecimento do dia, galera, amanhã vou dar aula): a ANF é filiada ao WPC e à IPL. Eu escolhi estas federações segundo inúmeros critérios, a começar pela seriedade, consistência na arbitragem, nível dos competidores e, não menos importante, AUSÊNCIA do teste anti-doping. Fiz isso porque, como Professora Doutora em Estudos Sociais da Ciência e Política Científica, como consultora da Organização Panamericana de Saúde para informação técnica em saúde e como bioquímica, sou rigorosamente CONTRA a REPRESSÃO às drogas. Dados históricos e epidemiológicos mostram que a “guerra às drogas” não protege ninguém e gera terror. Dados sociológicos e político-institucionais mostram que os testes de dopagem servem apenas interesses políticos. Eu escrevo regularmente para as melhores revistas de treinamento no país sobre DROGAS, educando a população sobre sua natureza, efeitos e riscos. Só assim cada pessoa poderá decidir o que é melhor para si. Não é correto um Estado-babá tomando decisões pelo cidadão. Quanto ao princípio de justiça esportiva e equanimidade, ela não resiste à lógica: equipamentos, dieta e todo tipo de preparo modificam as vantagens dos competidores e se todos têm acesso aos mesmos recursos, estão equânimes. Como autoridade técnica no tema, afirmo que apenas a INFORMAÇÃO e a EDUCAÇÃO permitem uma TOMADA DE DECISÃO DE BOA QUALIDADE. Nunca, jamais, apoiarei o teste de uso de substâncias e muito menos a perseguição a usuários de qualquer tipo de substância. O princípio básico de que só se deve reprimir o comportamento que prejudique um terceiro vale no mundo, no país e no esporte. Afirmo isso eu, Dra. Marília Coutinho, presidente da ANF.

Mantenho-me coerente com meus princípios políticos e ideológicos há décadas: não é agora que vou me desviar do bom caminho. No entanto, não poderiam estar mais errados aqueles que supõe que eu seja conivente com o abuso de drogas. É uma decisão minha e da diretoria da ANF que o uso de QUALQUER substância proibida ou  mesmo suspeita no local das competições levará a banimento instantâneo do usuário. Não haverá, em campeonatos da ANF, uma única seringa no banheiro, como tristemente é regra em campeonatos de powerlifting Brasil afora . Além disso, a ANF terá, dando seguimento ao que eu já faço, um programa de educação para drogas. Meu compromisso é com a educação, não com a repressão.

Tivemos marcas boas, como se pode ver neste link. Todas os atletas foram arbitrados da mesma maneira, primando pela CONSISTÊNCIA DE ARBITRAGEM. A profundidade do agachamento é particularmente rigorosa.

Tivemos fotógrafos profissionais registrando o evento e produzindo imagens artísticas e de qualidade inigualável. Temos vídeos para quem quiser verificar os movimentos.

Perguntam-se se vou organizar campeonatos internacionais, como sul-americanos. Sim, quando eu sentir firmeza para tanto. Foi exatamente assim como os campeonatos no país.

Estamos re-inventando este esporte. É meu papel, e daqueles que comungam com meu pensamento, desvincular o que hoje fazemos de tristes histórias passadas de desrespeito a regras; de mesquinharia e rivalidades discrepantes com o espírito marcial que deve reger todo o esporte nobre; de abuso de drogas (quase sempre associadas à repressão a seu uso, como o anti-doping); de abuso de poder; de jogos de interesses e manipulação de resultados. Há quem diga que é uma guinada elitista. Estão certos. Infelizmente, para poder cumprir seu papel social, é preciso que antes uma elite educada esteja firmemente comprometida com o projeto.

É este meu papel.

Álbum da fotógrafa Maria Claudia Vergal

Álbum do fotógrafo Adilson Martins