Esta é a época do ano em que escrevo o post clássico: indo. Quase sempre é um misto de “deixando para trás”, “abrindo mão” e “indo de encontro ao novo”. Há três anos, uma constante: uma grande dose de alegria, uma certa euforia com o desconhecido e melancolia com perdas e desapegos.

Desta vez, estou indo para o Campeonato Mundial de Powerlifting da IPL – International Powerlifting League. É uma organização dura, rigorosa e profissional. Mundialmente nova e timidamente crescendo, a IPL é a projeção internacional da grande e conhecida USPA Norte-americana, possivelmente a maior organização dos Estados Unidos.

Quando escrevi pela primeira vez para Steve Denison, seu presidente, o meu momento era outro: pessimismo absoluto com o cenário brasileiro e coletivo do powerlifting, indaguei se eu poderia competir sem país. Apátrida. A pergunta naturalmente o surpreendeu. Isso não é previsto em organização nenhuma. Filiei, então, o Brasil por que o ambiente era de alto nível para mim, ponto final.

De lá para cá, muita anilha rolou por debaixo da barra. No início do ano, eu tomei uma decisão dura: assumi a liderança no powerlifting brasileiro de maneira forte e inflexível. Depois de anos tentando formar coletivos, aderindo a um ideal qualquer de ação política organizada, e mais recentemente, decepcionada com tudo, decidir abandonar esse campo e deixar para outros a Aliança Nacional da Força (ANF), percebi que nenhuma das duas opções era viável. Para implementar realmente um novo modelo de ação e organização dos esportes de força no Brasil, eu teria que exercer a liderança como fiz com todos os grandes projetos que coordenei: assumindo as responsabilidades decisórias e não tendo muito escrúpulo com os dedos em que tivesse que pisar. Foi assim com meus estudantes, que eu formei e formei bem, com os resultados de pesquisa que entreguei a contento aos órgãos de fomento, seria assim com a ANF também.

Tive do meu lado Claudio Gomes Pereira e André Giongo (com quem partilho todo o mérito). Além deles, não consultei mais ninguém. Decidi, segui o que era correto sem concessões, repeli tentativas retrógradas em direção a modelos sem rigor, ignorei olímpicamente o que quer que se auto-denominasse powerlifting além do meu e ponto final: deu certo. O resultado foram dois campeonatos impecáveis do ponto de vista organizativo e de execução de levantamentos. Do primeiro (sancionado pelo WPC) até o segundo (sancionado pela IPL), o número de atletas dobrou e o desempenho dos que vieram nos dois melhorou surpreendentemente.

Os registros do campeonato nacional da IPL rodaram o mundo e foram elogiados por toda parte: nossa maneira de conduzí-lo, nossos equipamentos e nossa qualidade mostraram que a tal ruptura com as tradições brasileiras de fundo de quintal e de inconsistência foi feita.

É para a matriz desta ruptura regional que estamos indo agora – eu como atleta, dirigente e ativista ou iniciadora de algo para o que ainda não tenho nome. Talvez prefira não ter. Talvez eu prefira deixar o movimento ganhar uma forma, agora que ganhou inércia.

Desta dupla identidade conscientemente e sem a menor hesitação, abri mão da segunda agora. Nunca escondi que minha identidade principal era a de atleta. Tomar a frente e a liderança deste movimento no Brasil é consequência das minhas necessidades como atleta. Isso é chocante? É escandaloso assumir que não fiz o que fiz por altruísmo ou por abnegado sentimento de missão com o powerlifting brasileiro? Pode ser, mas é a verdade. Vivam com ela: sem altruísmo, sem abnegação, sem fofura e sem ternura, o fato é que eu fiz o que tinha que fazer e cumpri uma missão. Abri um novo terreno, junto com os dois malucos que me acompanharam e algumas dezenas de atletas que acreditaram no projeto.

Estes atletas, totalmente diferentes da comunidade tradicional de powerlifting, um bando de nerds que paradoxalmente se enfia embaixo das barras com cálculos, coragem e ousadia na cabeça, me entendem (se não entenderem, também, pouco me importa: não estou aqui para que meus sentimentos sejam entendidos, e sim minhas palavras e ações). O encantamento e transcendência que descobriram em Itapecerica da Serra é meu alimento vital e é ao encontro disso que estou indo.

Fechei o ano, cumpri todas as minhas missões coletivas, agora é meu momento – só meu. Dei aulas, me entreguei de corpo e alma aos meus alunos, organizei campeonatos, me entreguei de corpo e alma aos meus atletas e agora sou eu, só eu, minha total prioridade. Na verdade, nunca foi outra. Na verdade, a única Marilia que sempre importou para mim foi esta: a atleta/artista de powerlifting.

O que eu deixo para trás? Cada vez que piso em Guarulhos, algo em mim quer não voltar mais. Cada vez que volto, algo em mim se contorce por ter voltado. Há coisas que eu queria deixar para trás para sempre e esse desejo é o combustível do meu sonho de  uma partida definitiva. Mas a cada ano, existem coisas diferentes que deixo para trás. Deixo para trás ciclos cumpridos. Assim como alguns bons amores, que são férteis, dão enorme prazer, muitos frutos e boas emoções, boa parte dos projetos tem um ciclo e chega ao fim. É preciso saber se despedir deles com maturidade e sabedoria.

Outros projetos dos quais me despedi me deixam angustiada e triste diante do rumo que tomaram, me fazendo indagar se não seria minha culpa que tenham degenerado. Aquela velha e arrogante onipotência que teima em sobreviver num canto irracional qualquer da minha cabeça, me punindo por não ser capaz de prevenir todos os males, de devorar todos os pecados e de salvar todas as almas.

A voz mais sóbria e racional, no entanto, me liberta e me leva de taxi até Guarulhos onde vou, feliz, leve de culpas imaginárias e responsabilidades não assumidas.

Eu vou, sorrindo, apaixonada, de alma tão leve quanto pesados serão os pesos que se integrarão a mim no tablado sagrado de Las Vegas.