Uma grande amiga minha está passando por uma perda corporal grande: uma histerectomia. Mutilações – perda de pedaços, danos irreversíveis – são uma questão corporal muito séria. Existem diferentes tipos de mutilação e diferentes respostas. Existem mutilações acidentais, completamente fortuitas, que obrigam a vítima a fazer as pazes com o acaso. Precisam fugir da armadilha do “grande esquema”, o pensamento conspiratório, onde os acidentes e catástrofes começam a parecer intencionados. Não são: são só acidentes. E o acaso é foda mesmo. Existem as mutilações resultantes de desordens crônicas, doenças que evoluem até o ponto que exigem a extirpação de algo. Como os acidentes, também parecem algum tipo de injustiça cósmica. Muito frequentemente (quase todo mundo que eu conheço) tenta achar responsáveis: culpa de alguém. Na grande maioria das vezes, acaba encontrando em si mesmo esse responsável, entrando numa horrível bad trip de culpa. E essa, eu acho, é a principal armadilha. Seja com um racicínio mais sofisticado, como explicar a doença como uma “trava” qualquer na própria vida ou alma, ou com um discurso religioso, em que a perda é punição divina, culpa é sempre culpa e é a pior viagem.
Quando a mutilação é muito associada a algo que fizemos mesmo, a inevitável culpa vem junto com vergonha e humilhação. Então, o círculo vicioso da auto-flagelação, do sacrifício do “envólucro terrestre”, desse corpo com o qual temos uma relação tão ambivalente, se perpetua.
Tudo que tenho a dizer aqui é que aprendi algo com os veteranos de guerra. Vivi num país onde existem muitos. Não é fácil para eles sair na rua com pernas e braços faltando ou profundas marcas na pele. Cada um tem uma história, mas a maioria acaba num equilíbrio entre se adaptar à vida com aquilo e portar as marcas visíveis com certo orgulho: “sim, enquanto todos estavam aqui na boa eu estava me fodendo na lama, com uma bala no maxilar, e daí?”.
Assim, para mim, as marcas que acumulamos são cicatrizes de guerra. Uma guerra que todos com alguma coragem travam: a guerra por crescer, por resistir à neutralização da nossa condição humana, a guerra contra as forças que nos empurram para a degeneração e para a morte. Essa guerra inclui batalhas diversas. Se temos uma cicatriz, é porque ganhamos uma batalha.
É desse jeito que eu encaro as minhas: batalhas que venci. Não sem perdas, não sem dores, não sem mutilações. Mas venci: de cada uma, saí uma Marilia melhor, mesmo que com algum pedaço a menos.
São lutas numa guerra estranha, em que se luta não apenas para se permanecer vivo, mas para se tornar um ser humano mais pleno e mais vivo. Às vezes, paradoxalmente, é preciso morrer um pouco para se viver de verdade.

Marilia


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