Hoje o Armando me fez uma pergunta que quero partilhar com todos, pois é uma dúvida recorrente:

Pergunta:

Marilia, então voltando à discussão, vc citou “personalidade motora”, que acho, seria o padrão motor de movimento de uma pessoa de acordo com a sua vivência motora.Assim como a ADF, trabalho com o tripé identificar-corrigir-fortalecer os padrões que apresentam-se inadequados. No caso específico do Terra, trabalho muito com bastão em exercícios educativos para o movimento,já que a maioria dos meus alunos apresenta dificuldade no movimento de quadril e em organizar a coluna vertebral para a execução adequada do exercício. Mas aí acontece algo interessante. Durante o educativo com o bastão, todos executam o movimento com uma boa técnica, mas ao colocá-los diante do exercício mesmo, o padrão motor antigo volta à tona. Na tua pesquisa, essa personalidade motora pode ser modificada? Vc parte de que Terra nessas situações?

Resposta:

Não existe pesquisa, infelizmente, Armando… Eu (assim como os gurus) posso falar sobre a minha experiência de observação não sistemática, porém informada, de seres humanos. Eu criei essa expressão (personalidade motora) por falta de outra. Ninguém sabe quais são os determinantes cognitivos, emocionais, culturais, anatômicos e fisiológicos que resultam em um determinado padrão de movimento. Certamente é influenciado por lesões anteriores, mas não menos por aprendizado motor. Quando é uma questão de lesão ou aprendizado, minha experiência mostra que pode ser mudado à medida que a pessoa adquira mais vivência do movimento. Já outras características parecem ser inerentes ao cara. Existem pessoas, em geral meio hiper-ativas, que simplesmente imprimem potência a qualquer coisa. Tentar fazer com que controlem um movimento é difícil e às vezes resulta em um movimento estragado. Vamos ao caso do terra.

Me diga os padrões deficientes, inadequados ou lesivos que você observa, talvez fique mais fácil. Eu digo os meus. O mais freqüente é a elevação precoce do quadril. Percebo que é uma reação instintiva de muitas pessoas assim que identificam mais carga: elevam o quadril e, em seguida, perdem o controle da neutralidade da coluna. Aí dançou, você tem um movimento em “C”, que deve ser parado – não se deve deixar fazer pois é certamente lesivo. Outra coisa é que, desde que a pessoa consiga manipular bem a carga, ela tenta elevar ombros e/ou flexionar braços. Existem várias medidas para ajudar o praticante e corrigir isso: 1. filmar e analisar com ele. Muitas vezes isso basta, pois ele consegue se perceber e ser mais consciente do que está fazendo. É fácil e rápido, você faz com seu celular e gasta menos de 5 minutos da aula. NÃO USE O ESPELHO. 2. movimentos parciais. Um deles é a saída do terra, ou liftoff. Colocarei um video abaixo com o Tiago fazendo isso. Esse exercício parcial pode ser bem eficiente, pois ajuda a pessoa a se entender com a adução de escápula na saída e também a manutenção da flexão de joelhos. ‎3. sustentação: carregar a barra com um peso substancial e colocá-la cerca de 20cm abaixo do ponto de extensão total da pessoa. Assim, ela deve apenas finalizar (bem pouco) e segurar o peso por 15″-20″. É interessante para perceber como manter os braços soltos e ao mesmo tempo uma pegada firme. Também interessante para a pessoa perceber a elevação desnecessária/lesiva dos ombros. 4. Comandos: “peito para fora”, “cabeça erguida”, “respira e segura”, “olha essa bunda”, “contrai escápula, contrai abdomen, contrai coxa, contrai glúteos”, “barra grudada na perna”, etc

Finalmente, o movimento sem carga é muito diferente do movimento com carga. Às vezes a consciência da carga faz com que a pessoa naturalmente se corrija. Às vezes é o oposto. Depende de várias coisas, novamente. A correção do movimento pela prática, usando estas estratégias ou qualquer outra que funcione, pode ser mais interessante com várias cargas diferentes.