Juquehy é uma praia do litoral norte do Estado de São Paulo, que fica na região administrativa de São Sebastião. Fica entre Barra do Una e Boiçucanga. Há cerca de 45 anos, um grupo de médicos da Escola Paulista de Medicina comprou e loteou uma área, antes ocupada apenas por caiçaras e índios. Um destes médicos era meu tio, que vendeu o lote para meu pai, um geólogo. Meu pai logo construiu uma casa pré-fabricada de madeira no lote e, ao longo dos anos, comprou mais lotes para garantir uma área de mata intacta. Naquele tempo, existiam tão poucas casas construídas que era uma praia praticamente deserta. No início dos anos 70, contei 13 casas de “estrangeiros”. Havia uma vila de caiçaras, que, até nossa chegada, eram totalmente isolados da civilização. Aos poucos, foram “convertidos” em caseiros, bandidos (inclusive assassinos e estupradores, o que naturalmente os levou ao extermínio), prostitutas… e no fim sumiram.

Logo depois que meu pai construiu a primeira casa eu nasci e foi lá, há cerca de 42 anos, que eu andei sozinha, desassistida por adultos, pela primeira vez, aos 10 meses. Foi lá que peguei na mão pela primeira vez uma cobra, oferecida por meu pai. Foi lá que aprendi a nadar com meu irmão Mauro e minha mãe. Foi lá que aprendi a mergulhar e identificar animais marinhos. Foi lá que vi girinos pela primeira vez, e também um bicho-preguiça. Muita coisa aconteceu “pela primeira vez” lá.

Hoje só vou para o Juquehy em momentos de “baixa temporada”, quando suponho que tenha menos gente. Jamais no Reveillon, jamais no Carnaval, jamais em feriados. Não é por causa da estrada: é por causa da profunda tristeza que a presença e comportamento daquela classe média alta que colonizou minha praia deserta me causa. Ostentação e desrespeito, essa é a norma. Há uns 20 anos, uma família dessas tipicamente muito rica e de baixo nível educacional (como eu sei: eles não falavam, gritavam, e os gritos continham terríveis erros de português) construiu uma verdadeira fortaleza em frente à nossa casa. Era uma família numerosa, de descendentes de árabes. Raramente iam à praia, pois preferiam a piscina de casa. Foi a primeira vez que fui confrontada com esse espanto que se tornou regra: sim, muitas pessoas, diante daquela sagrada vastidão de água salgada perfeita a alguns metros, prefere se banhar num cubículo de água clorada.

Eles fumam e largam bitucas não bio-degradáveis na areia, tomam bebidas em lata e poluem a praia com seus lixos e passam a tarde sentados em cadeiras reclináveis tomando cerveja e fumando, passando protetor solar, sem entrar no mar.

Anteontem, minha filha ligou. Disse que ela e as amigas foram tomar banho de mar à noite. Fiz esse ritual tantas vezes que se tornou trivial para mim. Saindo do mar, viram um homem se masturbando perto de suas roupas. Saíram gritando, o homem fugiu, mas logo à frente, voltando para casa (num caminho que não tem mais que 250 metros), passaram por um grupo de homens que agressivamente ameaçaram estuprá-las – se de brincadeira ou a sério, nunca saberemos: elas fugiram. Gritavam: “pega elas, pega!”.

O que fizeram com meu Juquehy…

 

Marilia

 

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