Quando eu era bem pequena, minha irmã mais velha Lena tinha uma coleção de pectens. Pectens são aquelas conchinhas com o formato do símbolo do posto Shell. São bem pequenas e extremamente frágeis. Vinham em todas as cores e texturas – algumas quase translúcidas. A coleção da minha irmã ficava guardada numa caixinha de plástico transparente de uns 10cm, com algodão para amortecer. Eu ficava fascinada com os pectens dela.

Com uns sete ou oito anos, comecei a colecionar meus próprios pectens. Minha mãe me deu um tubinho de plástico para colocá-los. Eu passava horas na orla do mar, em Juquehy, nas zonas onde havia maior acúmulo de debris fino, procurando pectens. Essas eram as áreas com maior probabilidade de achá-los. O divertido é que junto com os pectens, muitas vezes eu encontrava outras conchas estranhas e belas, quebráveis, pois essa era a zona das coisas pequenas e frágeis. Achei segmentos articulados de pinças de pequenos siris, carapaças de caranguejos de zonas mais profundas, pequenas estrelas do mar e ovas de tubarão. Ovas de tubarão me estimulavam fantasias: e se eu colocasse num vidro com água do mar, será que não nasceria um pequeno tubarão? Que poderia crescer, se tornar gigantesco… Cheguei a colocar num vidro e não me lembro o momento em que algum adulto tirou todas as minhas esperanças de produzir meu próprio monstro marinho.

Naqueles debris, achei também coisas que mais pareciam esculturas feitas por algum artista abstrato: pedaços internos de caramujos tão lapidados pelo mar que brilhavam, jóias exóticas. Se ficasse muito tempo na praia, meus tesouros ficavam volumosos demais para caber nas minhas mãozinhas. E, pior, às vezes acabava quebrando algum pecten ao tentar segurar todos os meus achados, apertando-os demais. Isso era uma tragédia.

Os pectens mais bonitos – mas também mais raros – eram os vermelhos e pequenos. Quando os encontrava inteiros, sem nenhuma quebradura, ficava muito contente.

Com os anos minha coleção de pectens cresceu. Ficou maior que a da minha irmã.

Não sei o que aconteceu com minha coleção de pectens… Como quase tudo do pouco que tive de belo, frágil e raro na infância, deve ter se destroçado ao longo de muitas mudanças e se perdido por baixo de pilhas de coisas de muito menor importância.

  

 

Marilia

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