A edição do dia 6 de fevereiro da revista Época, no. 403, 2006, tem como matéria de capa “Depressão – novas pesquisas afirmam que a meditação pode substituir – ou complementar – os antidepressivos”. Tânia Nogueira, Suzane Frutuoso e Renata Leal, as autoras, foram corajosas e cautelosas do título ao ponto final. No título, passa desapercebido o que para mim saltou aos olhos na banca como um verdadeiro ato de heroismo, a coragem que beira o perigo: “… pode SUBSTITUIR -…”. Tudo bem, veio seguido do cauteloso e correto “ou complementar”. Mas tiveram a coragem de afirmar que, pelo menos é possível que, em determinadas circunstâncias, em determinados casos, a meditação possa libertar o paciente da prisão farmacológica. Não sei como isso passou. O braço da indústria farmacêutica é comprido e tentaculado. Seus fiéis guardiões, os psiquiatras mainstream, devem ter percebido o que percebi e reagido – tarde demais. A revista teve coragem de abrir essa brecha ao público de pacientes. Uma vez li uma entrevista da psiquiatra e templária da indústria farmacêutica Patrícia Hochgraff afirmando que era um crime divulgar a “falsa idéia” de que qualquer outro tratamento que não o farmacológico poderia ser empregado em desordens de humor – no caso, ela atacava o emprego terapêutico da atividade física como tratamento exclusivo.
No texto, há uma breve, porém informativa entrevista com Richard Davidson, que pesquisa o tema há anos e ao longo do texto da reportagem, citações de outras pesquisas feitas em laboratórios estrangeiros.
A reportagem é cautelosa em advertir que os mecanismos fisiológicos precisos que tornam a prática da meditação eficiente no combate à depressão não são plenamente conhecidos. Na verdade, mal começam a ser conhecidos. Também achei importante frisar que os benefícios duradouros só podem ser observados a longo prazo e que modificações nos padrões cerebrais só são conhecidas em praticantes crônicos e antigos.
Numa frase da reportagem, compara-se o efeito da meditação ao da atividade física.
Eu diria que, entre as duas, há mais do que o efeito terapêutico em comum. Há o desconhecimento das bases fisiológicas e neuro-químicas, frutos de um desinteresse da comunidade científica que não tenho dúvidas em afirmar ser produto dos fortes interesses da indústria farmacêutica.
Espero que a Época continue na linha de abordar estas questões com coragem e que a próxima reportagem seja sobre os efeitos da atividade física sobre as desordens mentais, onde as conclusões não serão muito diferentes: existem, são importantes, mas ninguém sabe realmente como acontece…

Marilia


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