Termina, daqui a uma semana, o Ano Internacional do Esporte e da Educação Física (http://portal.unesco.org/education/en/ev.php-URL_ID=38192&URL_DO=DO_TOPIC&URL_SECTION=201.html), assim declarado em 2004 pela UNESCO na resolução 58/5.
No mundo inteiro, as iniciativas relacionadas a esse objetivo foram insignificantes. Porém, ainda que de pouco alcance, alguns países lograram honrar a resolução da UNESCO. O Brasil sequer consta da lista de países em que alguma iniciativa foi desenvolvida.
O descaso das autoridades, aqui, tanto em relação ao esporte, como em relação à Educação Física, não poderiam ser maiores.
São duas temáticas distintas.
O descaso com o esporte já foi longamente comentado na literatura técnica e os elementos dessa negligência foram exaustivamente comentados. Os “tomadores de decisão” (decision-makers) brasileiros têm uma compreensão míope do papel que o esporte desempenha numa sociedade desigual e numa economia complicada como a nossa. A simples onipresente declaração de intenções quanto à “inclusão social” que o esporte deve promover não levou a nada e reduz de maneira simplista o papel da experiência com a prática esportiva. Esporte não é apenas uma questão de “contribuir para superar barreiras sociais e discriminação” e não é apenas um medicamento anti-delinquência a ser empregado nas periferias abandonadas pelo Estado. Esporte diz respeito à formação integral do indivíduo numa sociedade complexa, competitiva e onde o pouco que há de meritocracia real deve ser estimulado, e não combatido. Esporte é mérito e mérito precisa, sim ser recompensado. Esporte é saúde, sim, ao contrário do que dizem tantos que advogam uma concepção pasteurizada de saúde. Esporte está firmemente associado à formação da identidade, da auto-estima e de capacidades cognitivas fundamentais. Esporte está relacionado ao desenvolvimento de várias formas de inteligência, como apontam as pesquisas sobre múltiplas inteligências.
Esporte NÃO É atividade física simplesmete, cuja negligência é, em si, um problema tão grave de saúde pública que não cabe ser tratado aqui.
Que vergonha! Um país que diz respeitar os organismos internacionais e até sedia conferências de grande porte (por exemplo a Eco-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente), simplesmente ignorar o Ano Internacional do Esporte.
Quanto à Educação Física, considero o problema igualmente estrutural. Que “educação” é essa que a sociedade brasileira espera e recebe do educador físico”? A resposta é simples: nenhuma. O lugar da educação física no ensino básico e superior foi definido de diferentes maneiras ao longo do tempo. No entanto, para que um campo do conhecimento encontre uma correspondência na formação educacional básica, é preciso que este campo – seja ele científico, um campo profissional ou ambos – tenha conquistado um espaço social. Que sua legitimidade seja publicamente reconhecida. Isso não ocorre com a Educação Física.
Não passaria pela cabeça de ninguém perguntar: “que física é a física que ensinam a meus filhos nas aulas de física?” ou “que biologia é a biologia que ensinam a eles nas aulas de biologia?”. Certamente, o conteúdo mais consensual, bem estabelecido e avalisado pela comunidade científica correspondente. Além disso, dependendo da qualidade do projeto pedagógico, os objetivos e estratégias curriculares são claros e espera-se que ao final do terceiro ano colegial nossos filhos saibam o que é física e o que é biologia.
Nada disso se dá com a educação física. Não é o conteúdo do campo do conhecimento constituido pela Educação Física que é, no formato apropriado para cada nível de formação, oferecido aos estudantes. Em algumas pesquisas, quando perguntados sobre o que é educação física, alunos de escolas públicas brasileiras só conseguem pensar em jogos e recreação.
Os intelectuais e a elite simbólica de maneira geral têm posturas ambivalentes em relação a essa questão. Existe um setor, profissionalmente ligado à educação física ou à pedagogia, que de fato tem projetos mais ou menos bem formulados. Existe outro setor, cujos interesses na educação variam (garantir a continuidade do capital simbólico dos próprios filhos através do controle sobre a instituição escolar; gerenciar projetos educacionais abrangentes), que simplesmente despreza todo o problema, não se dedica a pensá-lo e cumpre formalidades herdadas de burocracias passadas.
O setor que possui projetos é variado. Existem desde projetos que enfatizam apenas o aprendizado motor até aqueles cujo discurso é fundamentalmente utilitarista, onde a relação da criança com a atividade física está a serviço da transformação das relações de classe. Em todos eles, no entanto, o corpo e o movimento são externos ao indivíduo. Além disso, em nenhum deles corpo ou movimento são apreendidos como objetos do conhecimento científico. Entre os projetos menos politizados existem alguns cujo objetivo é a melhoria de indicadores de saúde e bem-estar. As estratégias, no entanto, abrangem apenas a garantia da frequência das práticas de atividade física e a introdução de hábitos saudáveis – não faz parte delas modificar a relação cognitiva do estudante com seu corpo e com o corpo humano de maneira geral.
O setor que não podia ligar menos é o dos profissionais de outras áreas com filhos em idade escolar ou profissionais da área da educação de maneira geral. Observo a grande e louvável preocupação nos projetos educacionais das escolas de prestígio (escolas construtivistas, de perspectiva frequentemente experimental) com a integração do conhecimento. Tanto a integração inter-disciplinar como a integração do conteúdo com a prática. Assim, existem projetos combinados de biologia e história, ou de química e geografia, ou de matemática e filosofia. Excursões e vivências onde os conhecimentos são mobilizados em atividades interativas. Mas em relação à educação física, nada além de campeonatos.
Entre a perspectiva extremamente ideologizada (e desprezada por outras áreas do conhecimento) dos “portadores de projetos” e a negligência completa dos educadores mainstream, não existe lugar para o corpo como objeto de conhecimento e apropriação.
Nossa formação, como intelectuais, passa por uma separação cognitiva, ideológica e, por fim, quase física entre corpo e mente. Não só não damos importância ao corpo, como não consideramos correto pensá-lo de forma integrada. Somos, assim, alienados de nossos corpos e, portanto, de uma parte significativa de nossa identidade.
Na minha opinião, fazendo isso (e sendo coniventes com um ensino absolutamente precário de educação física nas escolas), estamos sendo irresponsáveis. É para nós que a sociedade se remete quando necessita de idéias e modelos com os quais pensar a realidade e, também, para rejeitá-los. Vivemos um momento em que as doenças não-transmissíveis, cujas causas são fundamentalmente associadas ao sedentarismo e aos péssimos hábitos alimentares, são as principais causas de morte e invalidez no mundo. Vivemos a era da alienação do corpo e somos parte do problema.
Neutralidade em relação às relações de poder no mapa político das profissões, indiferença em relação à marginalidade da educação física como campo do conhecimento, desinteresse pelo papel da educação física na educação básica são, hoje, ao meu ver, posturas não apenas erradas, mas perigosas. É nossa obrigação contribuir para construir uma nova forma de pensar o papel da educação física como profissão, área do conhecimento e disciplina do currículo básico, ainda que não sejamos educadores físicos (mas somos cidadãos e, às vezes, pais).
Uma abordagem que subvertesse os modelos que mencionei traria os conteúdos científicos das ciências do movimento e do esporte para a sala de aula de educação física. Educação física seria a disciplina de eleição para o ensino de anatomia humana – em cooperação com a disciplina biologia, mas jamais prescindindo do aspecto integrativo desse conhecimento que só uma ciência do movimento pode proporcionar. Desde que já introduzidos os conceitos relativos aos grupos de moléculas que constituem os alimentos, nutrição humana propriamente dita deveria ser atribuição da disciplina educação física. Para os níveis mais básicos (primeiro grau), provavelmente seria adequado restringir noções de nutrição às aulas de educação física.
Assim, educação física passaria a ser uma disciplina escolar de fato e de direito, com conteúdo codificado e sancionado por uma comunidade de especialistas e seus professores teriam a mesma autoridade e legitimidade que os demais professores da escola. Uma transformação nesse nível básico pode ou não repercutir, com prazos imprevisíveis, em outras dimensões, como na negociação de um papel social mais reconhecido para a educação física na sociedade de maneira geral.
Com essas reflexões e protestos, faço minha pequena contribuição ao Ano Internacional do Esporte e da Educação Física, não celebrado, não lembrado, sequer mencionado pelas autoridades brasileiras.

Marilia


BodyStuff