Hoje fiz um novo piercing, na sobrancelha. Meus piercings são rituais e marcam passagens, sempre. Quando coloquei o piercing do umbigo, saía de um período anestesiado que sucedeu à uma quase morte, em julho do ano passado. Por quase dois meses, apenas me recuperei, sem entender muito nada, tentando re-criar uma identidade a partir dos cacos do estrago. Então fiz o piercing no umbigo, passei a usar trancinhas selvagens no cabelo e uma semana depois fiz um piercing no nariz.
Fiz o piercing no lábio há dois meses, logo depois de tomar a última rasteira da vida dentro do viciado universo acadêmico brasileiro e decidi que a estrada que busquei para sair de dentro dele é um caminho sem volta.
Passei os últimos três dias tentando me entender com uma perda grande. Como todas as perdas, apontam padrões deficientes em nossas vidas. Essa apontou um grande. Um que há um bom tempo tem resultado em dores para mim e estragos em vidas alheias. Por causa desse padrão, sofri horrivelmente e causei sérios danos, danos irreversíveis, nas vidas de pessoas que não podiam ter idéia do perigo que corriam. Chegou o momento de colocar um fim nisso. Para tanto, é hora de “let go”, abrir mão, desistir um pouco. Desistir por senso de auto-preservação, por responsabilidade em relação a terceiros e também por amor.
Mas nada disso pode ser indolor. Toda grande transição traz consigo destruição de algo, algo que por mais errado e destrutivo que seja, se estava lá em nossas vidas, é porque algum conforto trazia.
Talvez as maneiras construtivas que eu tenho para lidar com essas dores incluam necessariamente modificações corporais. Talvez eu seja uma espécie de inverso de Dorian Gray, alguém que aponta, externamente, dores e transformações invisíveis, coisas que aos poucos ou de repente nos fazem outras pessoas.

Marilia


BodyStuff