Chega de pussyfication: hora de largar as fraldas políticas e colocar emoção e razão onde é seu lugar

 

Comecei provocativamente com um termo considerado machista por muita gente. Por que fiz isso? Para que o leitor se sinta chamado a ler o discurso no contexto de onde vem. Esse termo, “pussyfication”, é uma brincadeira sobre a expressão pejorativa “pussy” (gíria para vagina), que significa um comportamento ou pessoa cheio de frescura, sensibilidade fake ou fora do lugar, e choramingação. Claro que é machista. Tão machista quanto as expressões que todos nós usamos como “do caralho” (que quer dizer “excelente”, obviamente só comparável a um belo falo), trânsito “embucetado” (congestionado, ruim), “puta que o pariu” (expressão de frustração e raiva), entre dezenas ou centenas de outras. E você não se comunica assim? Fala sério.

O grau de pussyfication atingiu níveis ridiculamente altos em todo o discurso das minorias aqui no Brasil. O uso de pronomes “errados” para trans, um elogio feito sem precisão quanto à forma normatizada pelas lideranças mais vocais, já é motivo de reações cheias de indignação e sensibilidade. Claro que isso é do maior interesse dos grupelhos totalitários que acabam monopolizando as cenas destes movimentos porque gritam sem parar e vencem pelo cansaço.

Mas qual é o resultado dessa incessante procura de pelo em ovo? Apenas fragmentação, guerra fratricida, revanchismo e isolamento. Na cabeça dos grupelhos, “radicalização da luta”. Perfeitamente compreensível para um segmento cuja mediocridade intelectual os faz abrir a janela (a mesma que eu, da qual eu vejo ruas com pessoas e carros caminhando sem nenhuma intenção insurrecional) e ver uma etapa “pré-revolucionária” (ou revolucionária mesmo, dependendo do delírio do grupelho).

Chega, né!

Creio que é hora mais que adiantada de admitir que nenhum de nós é isento de certo grau de preconceito e sexismo – e por “nós” eu me refiro a todos, incluindo cada membro de minoria oprimida (afinal, eu continuo sendo mulher, não é mesmo). Esse grau varia bastante. Mas para justificar um “opa, linha vermelha a não cruzar aqui, hein”, é preciso mais do que uma expressão mal usada.

Também é completamente contra-producente (e, estritamente falando, “reacionário”, pois “reage” contra o que seria o progresso) sugerir que qualquer grupo que não seja a bola da vez da opressão deva se abster de celebrar ou até mesmo discutir sua identidade. Assim, homens só podem se reunir para discutir masculinidade se for de uma perspectiva das mulheres oprimidas. E se for para discutir políticas sobre câncer de próstata? Ou bullying entre garotos? Ou paternidade? Ou adolescência e sexualidade? Ah, não pode.

O Ano Novo Chinês, as festividades japonesas na Liberdade e a festa de Nossa Senhora de Achiropita, no Bixiga, as festividades judaicas, são coisa de “gente branca”. Se o preço para apoiar a luta contra a opressão a negros e etnias “marrons” (em outros países, “Brown” é usado em referência tanto a latinos, como hindus ou árabes) for abrir mão de sequer reconhecer uma identidade étnica que não o seja, então estes movimentos estão fadados ao isolamento, sectarismo, isolamento e, finalmente, ao triste papel de fomentador de ódio inter-étnico. Triste, pois entre os brancos que não querem abrir mão de ter uma identidade (e quem quer?), há uma maioria que gostaria muito de apoiar a luta de etnias oprimidas. Apoio genuíno, jogado fora, por vezes, por lideranças sectárias. O que estas pessoas brancas não conseguem compreender, porque não tem lógica, é por que as duas coisas são incompatíveis: manter sua identidade e apoiar a luta do “outro”.

Ou todos nós topamos o jogo democrático da hospitalidade ao “outro”, o “venha conhecer meu mundo para, quem sabe, apoiar minha luta”, ou realmente o resultado será mais e mais fragmentação e ódio.

Tenho certeza de que muita gente vai ler este texto como racista e machista. Eu não poderia me importar menos, porque não é. É uma crítica objetiva que busca mostrar o óbvio: só é possível convencer o “outro” sobre a validade de nossa reivindicação quando abrimos uma porta para o diálogo, e não com ameaças, chantagem e revanchismo. Esse “entre na minha casa, mas de quatro”.

Eu vivo num mundo masculino. Sou atleta e liderança num dos mais pesados esportes de força. É evidente que sou vítima de machismo: só mesmo num mundo cor-de-rosa é que isso não aconteceria. Onde já se viu uma mulher, baixinha, minúscula, falar mais alto (no sentido simbólico, com mais poder e embasamento intelectual) do que homens? No entanto, só uma minoria com sérios problemas com sua masculinidade é que reage mal a isso. O resto dos homens continua vendo uma mulher baixinha e minúscula, mas capaz de trocar experiências e ensinar coisas legais a eles. Minha relação com eles é perfeitamente tranqüila e fraternal.

Eu gosto desse mundo. É onde tenho meus melhores amigos. Sei que parte da fala deles (e minha) é permeada por um certo preconceito e sexismo pelo óbvio fato de que somos seres culturais e não gastamos nossa energia nos policiando 100% do tempo. Os problemas que tenho com esse mundo são os mesmos que outros colegas éticos têm, que são os comportamentos delinqüentes.

E isso, meu amigo, é igual entre os mais politicamente corretos e cheios de bandeirinhas vermelhas e no meu mundo.