Eu ainda era uma criança quando fui selecionada, num programa de identificação de talentos esportivos, para a Esgrima. Segundo este programa, passei cerca de um ano sob os cuidados de uma professora. Essa atleta, que se chamava Yara Bush Coelho, tinha tido alguns títulos importantes e foi contratada pelo Clube Pinheiros para treinar as crianças antes que fossem incorporadas à equipe propriamente dita do clube. Durante um tempo, aprendemos os golpes e posições com bastões de alumínio e não armas de verdade. Lembro que sonhava com o dia em que tivesse o direito de empunhar meu florete “de verdade”. Nós treinávamos em outro horário e apenas víamos de longe os atletas da equipe.

Finalmente chegou o dia em que fui transferida para o grupo principal, comandado pelo “Mestre”. O “Mestre” (era assim que o chamávamos) era um italiano da Sicília chamado Angelo Pio Buonafina. Devia ter a idade da minha mãe, mais ou menos. Cabelos pretos e bigode, sotaque muito forte e um jeito sanguíneo.

No começo eu tinha um pouco de medo dele. Depois, o medo foi substituído apenas pelo respeito e submissão. Nunca me submeti às ordens de ninguém exceto do Mestre. Mas dele, se a ordem fosse plantar bananeira e depois mergulhar na piscina, cumpriria sem questionar.

Durante os anos em que fui atleta dele, nossa equipe era de longe a melhor do país. Eu ganhei vários títulos, todos os máximos no infantil, alguns no juvenil e senior e cheguei a um lugar alto no ranking brasileiro – a mais jovem, na época.

A expressão “atleta dele” não é figurativa: minha disciplina era total e completa. Se o Mestre determinasse um treino no domingo – e tivemos vários – lá estaria eu, fizesse chuva ou sol. Se eu fosse indicada como mesária ou ajudante do que fosse, lá eu ia, sem questionar.

Havia uma união razoável entre os atletas, mas não tanto. Pelo perfil social deles, hoje vejo que uma solidariedade mais real era difícil. Eu via mais solidariedade entre atletas de clubes menores e menos de elite.

Com meu Mestre, aprendi muito mais do que ser uma boa esgrimista. Aprendi a importância fundamental da disciplina e o que significa dedicação. Aprendi, acima de tudo, que amor e dedicação são coisas muito irmãs. Poucas pessoas em toda minha vida se dedicaram a mim e se interessaram por mim como meu Mestre e eu retribui essa forma meio dura de amor com minha total devoção. Era, sim, meio dura. Um dia ele se irritou com minha moleza ao realizar um golpe chamado “flexa” pela n-ésima quadragésima vez. E me bateu com o florete na perna. Eu apenas respirei fundo, fiquei em guarda, esperei o comando e realizei o golpe, desta vez corretamente. De vez em quando ele gritava comigo e falava bravo. Se eu perdia um assalto, costumava dar uma longa volta pela sala de armas para esperar que ele se acalmasse um pouco para que eu cumprisse o ritual de sentar-me ao lado dele e escutar um solene esporro.

No entanto, indiscutivelmente, meu mestre me amava. Me amava quase como uma filha e eu a ele como um pai. Sinto falta dele até hoje.

Leio histórias sobre relações entre técnicos e atletas, às vezes me emociono, mas quase sempre entendo bem. Atrás de um excelente atleta, quase sempre há um técnico devotado.

A equipe era importante também, e eu me ressinto com as patricinhas do Pinheiros que nunca conseguiram aprender o significado do ethos esportivo. Que uma equipe é uma irmandade e que a um irmão devemos toda a nossa solidariedade e dedicação. Mas tinha uma meia dúzia que entendia, e torcia, e apoiava e amparavam-se uns aos outros.

Hoje voltei a um ambiente esportivo propriamente dito, o do powerlifting. Minha equipe é a GCA, que já comecei a descrever no post anterior. Lá existe uma equipe. E dando unidade a ela, existe um técnico, o Gilson.

Treinamos quase sempre em grupo – nossos intervalos correspondem aproximadamente ao tempo para que os outros atletas executem suas séries. Todos participamos de tudo: trocamos anilhas, guardamos materiais e os mais avançados fazem coisas mais avançadas, como enfaixar o parceiro e ajudar a enfiar o equipamento (camisa e macaquinho). Eu ainda estou no estágio de no máximo trocar anilhas e gritar. Mas fico ali, aprendendo. Olhando cada detalhe. O olhar técnico, crítico, só se aprende assim, com outros atletas. Com irmãos.

Um dia escrevi que é no esporte, na arte e na ciência que a humanidade mostra o melhor de si: a transcendência e a recompensa por mérito. Hoje acho mais: que é no esporte, e apenas nele, que se aprendem comportamentos de valor moral que nenhuma outra atividade humana é capaz de gerar. Neles estão incluidas as mais sublimes formas de amor: a solidariedade, a dedicação e o compromisso. Enquanto no mundo, em geral, as lições são de desumanidade – desrespeito, intolerância, tirar vantagem do próximo – o ethos esportivo, que necessariamente inclui as relações com companheiros de equipe e técnico, nos torna mais humanos.

 

Marilia

 

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