Eu tenho medo de médico. Na verdade tenho medo de muitas coisas. Algumas dessas coisas ficam escondidas em lugares escuros e emergem de forma vulcânica. Explodem e destroem tudo. Então vêm os médicos, eles sempre vieram. Eles e suas bolinhas inibitórias, eles e suas medidas supressivas, eles e seu quase infalível protocolo para enfiar os desviantes nas caixinhas da falsa normalidade.

Eu tenho medo deles, pois às vezes me machucaram mais do que o que estava me machucando, ou até matando.

É por isso que eu preciso dele.

Eu cheguei lá em 2009 no consultório, um misto de pano de chão e cão molhado em noite de inverno. Na mão, envelopes com sentenças. Na verdade eram exames, mas se transformaram em sentenças nas mãos de outros médicos. Acusada do crime de anormalidade, tinha sido sentenciada a morte: a expulsão da única identidade que me faz sentido, a de atleta de força. Coloquei a sentença na mesa dele. Durante três horas, ele me explicou que não era sentença alguma. “Veja, Marilia, esse indicador é esperado sendo você atleta de força, você não corre perigo”. Muita coisa podia ser melhorada. Muita dor podia ser administrada. Tudo ele falou sem alarme, naquele tom meio baixo, de quem fala com crianças ou cães (molhados em noite de inverno).
“Ma, por que você está comendo desse jeito?”, ele perguntou, olhando para os papéis que já não eram sentenças. O que os outros médicos nem tinham visto, estava lá, claro.

“Porque eu tenho medo”.

Há poucos meses eu tinha passado por uma cirurgia de reconstrução de ligamento do joelho. A recuperação foi difícil. Havia agressões e polícia e muita coisa esquisita acontecendo. Eu comia para proteger meu corpo, antes forte, transformado em frágil por gente louca e por médicos até bem intencionados. Eu comia o que me daria uma capa de proteção em forma de carne.

Não precisava. Eu podia comer para me alimentar e podia me mover sem medo. Precisei dele para isso.

O tempo passou, readquiri segurança, com ela a porra-louquice e conseqüentemente lesões. A cada uma, um certo desespero. Corria para ele e nada era trágico. Lesões se curam. Muitas vezes, saímos delas mais fortes do que antes e ele estava lá para acreditar em mim. Precisei dele para isso: para acreditar em mim.

Eu tenho dor de barriga, eu tenho medo do medo de não dormir, e eu preciso dele. Foi ele que me tirou de uma vida de enfiar o pé na jaca, de apelar para recursos arriscados, por medo.

Numa combinação de pediatra e veterinário (que ele diz serem tão parecidos, porque tratam pacientes que não verbalizam o que sentem), ele tira meu medo. Numa mistura de irmão e vó, ele acredita e torce por mim, me dá coisas boas vindas de plantas, me diz para não comer bobagens e está lá para mim.

Eu preciso dele por tudo isso e muito mais.

Preciso dele para pensar o mundo, o Homem e sua corporalidade, sua saúde e seu destino. A mente precisa, genial e acolhedora frutifica idéias espantosas e revolucionárias na minha frente.

Mas preciso dele porque gosto dele acima de tanta coisa, porque é meu ponto fixo num mundo sob terremoto, porque ele existe.

Nesse dia do médico, meu coração e mente estão com ele, meu médico, meu amigo, meu irmão, Paulo Cavalcante Muzy.
 

  • Re: Survivor.Woman.30

    Pois é, mas e aí, hein? Em que sinuca de bico você me deixa – mais uma, aliás. Pelo lado dos não portadores de desordens neurológicas e psiquiátricas, eu sou um “freak”, uma anormal, uma aberração. Pelo lado dos freaks medicados, em paz ou apenas devidamente acomodados à sua miséria, também não presto. Só que a minha existência não pode ser negada (por enquanto). Qual seria a saída para gente como eu? Permanecer na clandestinidade para não perturbar a ordem que satisfaz tanto vítimas quanto algozes? Esconder a verdade (a verdade de que eu existo, de que sou feliz e não me medico)? Parece que é isso que você sugere.
    No entanto, não é isso que eu escolhi fazer. Revelar a minha experiência não é só uma questão de mostrar aos portadores que existem outras possibilidades. É o exercício do meu direito político de existir como qualquer outro cidadão.
    Toda verdade pode incomodar alguém. Pode incomodar a tal ponto que se torne destrutiva. Pode incomodar a tal ponto que torne o “outro” destrutivo. Ainda assim, revelá-la é o certo.