De todas as grandes transformações corporais pelas quais passa um ser humano em sua história, talvez nenhuma se compare à gravidez. É a transformação mais radical, dramática e rápida pela qual alguém pode passar. Gigantescas adaptações fisiológicas, morfológicas e emocionais acontecem no organismo feminino, orquestradas por uma verdadeira revolução hormonal. O corpo muda de dentro para fora. Em nenhum outro momento a imagem de uma pessoa se altera tanto nem tão rapidamente.

As sociedades tradicionais administraram a gravidez e o parto de diversas formas, mas elas sempre incluiam rituais quase que exclusivamente femininos. Neles, a relação entre as demandas fisiológicas e as posturas corporais tinham alguma relação. Mulheres se mantinham ativas durante a gravidez e os partos eram em geral realizados em posições fisiologicamente adequadas, como a posição de cócoras, com ou sem auxílio de companheiras. Quando a gravidez e o parto foram “medicalizados” e “patologizados”, restrições de mobilidade ainda maiores foram impostas às mulheres nessa condição. Inúmeros problemas ligados à inatividade surgiram e se multiplicaram. Além disso, a própria mulher foi praticamente excluída do ato do parto, reduzindo-se à condição passiva de “paciente”: deitada, em geral anestesiada e imóvel.

Os benefícios da atividade física em geral e do treinamento de força em paticular são reconhecidamente significativos para a mulher grávida. Os que podemos encontrar na literatura em geral são os seguintes:

– menor número de complicações durante o parto
– recuperação pós-parto mais rápida
– menor incidência de dores nas costas e menos enxaquecas
– sensação de bem-estar e melhor auto-imagem
– mais vitalidade
– maior flexibilidade
– melhor capacidade aeróbica
– melhor circulação nas extremidades
– maior força e coordenação muscular, o que permite uma melhor adaptação ao ganho de peso e mudanças no equilíbrio
– menor incidência de constipação

No entanto, talvez um dos ganhos mais importantes seja a superação da condição passiva da parturiente nas sociedades industriais, permitindo que a mulher se aproprie de mais essa fase e momento de sua história corporal.

A mulher grávida pode executar a maioria dos exercícios de força sem maiores problemas. As restrições óbvias se referem àqueles que requerem decúbito ventral e exercícios abdominais em superfícies planas, uma vez que o peso do abdomen exerce pressão sobre a veia cava, causando desconforto.

Exercícios que contribuem para o fortalecimento e alongamento da região lombar são particularmente benéficos, uma vez que eles tendem a se encurtar com o enfraquecimento e estiramento da musculatura abdominal, à medida que o feto cresce. Essa ênfase pode ajudar a prevenir o exacerbamento da condição lordótica.

Algum cuidado quanto à maior susceptibilidade a lesões por parte das grávidas deve ser tomado, uma vez que o organismo materno se ajusta às demandas do parto aumentando a flexibilidade e enfraquecendo juntas e tecido conectivo.

Exercícios que contribuam para o fortalecimento e alongamento da musculatura dorsal também devem ser enfatizados, uma vez que o peso dos seios tende a puxar ombros para frente, encurtando o peitoral e super-extendendo rombóides e trapézios, acentuando a sifose.

Durante a gravidez, o volume sanguíneo aumenta em aproximadamente 40%. Quanto mais sangue, maior é a demanda sobre o coração. A frequência cardíaca aumenta. A grávida pode sentir tontura por causa da maior pressão sobre os grandes vasos da região dorsal que trazem o sangue de volta das extremidades.

Finalmente, as mudanças metabólicas no organismo feminino estão relacionadas a um aumento na temperatura corporal. A hidratação durante o treino é particularmente crítica para grávidas.

Marilia


BodyStuff