Trata-se agora de saber como essa construção de uma identidade feminina mais positiva e saudável se integra no ciclo de vida da mulher.
Comecemos por quando ela se transforma em fêmea reprodutiva, ou seja, na puberdade.

Resumidamente, a puberdade hormonal consiste da seguinte sequência:
1. o hipotálamos começa a secretar GnRH (gonadotrophin releasing hormone)
2. As células da glândula pituitária respondem secretando LH (lutheinizing hormone – hormônio luteinizante) e FSH (folicle stimulating hormone) na circulação
3. Ovários e testículos (as gônadas) respondem ao aumento desses hormônios se desenvolvendo e começando a produzir estradiol e testosterona
4. Esses níveis mais elevados de estradiol e testosterona produzem as mudanças corporais que caracterizam a puberdade

Nas meninas, à medida que aumenta a secreção de LH, as células theca dos ovários começam a produzir testosterona e pequenas quantidades de progesterona. Boa parte da testosterona é captada por um tecido adjacente que, sob ação da enzima aromatase, sensível ao aumento de FSH, convertem essa testosterona em estradiol.
Os níveis mais elevados de estradiol produzem as mudanças estrogênicas do corpo feminino: crescimento, aceleração da maturação óssea, crescimento dos seisos, aumento da porcentagem de gordura, crescimento do útero, espessamento do endometrio e da mucosa vaginal e alargamento da pelvis.
Os níveis de andrógenos adrenais e testosterona também aumentam durante a puberdade, produzindo as mudanças androgênicas da puberdade feminina: pelos pubianos, outros pelos androgênicos, odor corporal e acne.

Trabalhos recentes têm mostrado que as mudanças em composição corporal comandadas pelas alterações endócrinas da puberdade são determinantes não apenas da composição corporal do adulto como das tendências ao desenvolvimento de desordens relacionadas ao acúmulo de gordura corporal, como diabetes e doenças cardíacas.
A gordura corporal aumenta mais rapidamente em meninas do que em meninos, entre 8 e 15 anos, estabilizando-se aí. O aumento de massa magra em mulheres também aumenta até aproximadamente 15 anos, permanecendo estável a partir desta idade. Nos meninos, a tendência é diferente: o aumento de massa magra é mais acentuado e mais prolongado, sendo a maior taxa de aumento observada entre 12 e 15 anos.
Enquanto a correlação entre a composição corporal da criança e do adulto no mesmo indivíduo é moderada, a correlação entre a composição corporal do adolescente e do adulto é altíssima. Por exemplo, entre crianças entre 8 e 13 anos com um IMC maior que o 95º percentil, 33% dos meninos e 50% das meninas continuam obesos como adultos, enquanto para adolescentes entre 13 e 18 anos com um IMC superior ao 95º percentil, 50% dos meninos e 66% das meninas se tornam adultos obesos.
Muitas dessas transformações são mediadas pelas adipocitocinas (leptina, adiponectina e resistina), hormônios produzidos pelo tecido adiposo, que se torna endrocrinologicamente ativo. Existe um dimorfismo sexual acentuado com relação a isso, sendo que as meninas têm níveis bem mais altos de leptina, mesmo controlando por porcentagem de gordura corporal.
Esse estudo evidencia a maior vulnerabilidade das mulheres quanto aos danos resultantes de uma composição corporal desfavorável na adolescência.
[Siervogel et al. Puberty and Body Composition Horm Res 2003;60(suppl 1):36–45]

Outro estudo aponta um aspecto ainda mais complexo dessa vulnerabilidade: enquanto o gasto energético total nos meninos aumenta anualmente da infância à puberdade, nas meninas o padrão sofre uma descontinuidade. Há um aumento inicial entre 5.5 anos e 6.5 anos (1365 +/- 330 kcal/dia para 1815 +/- 392 kcal/dia), mas a partir dos 9.5 anos, ocorre uma redução significativa (1608 +/- 284 kcal/dia), sem mudanças na ingestão calórica. Essa diferença de gênero no consumo total de enerbia é explicada por uma redução de 50% em atividade física (kcal/dia e horas/semana) nas meninas entre 6.5 e 9.5 anos. Esses dados sugeresm que existe um dimorfismo sexual no desenvolvimento que precede a instalação da puberdade, com um padrão de conservação de energia nas meninas à custa de redução em atividade física. Se a origem deste padrão é de natureza genética ou cultural, o estudo não esclareceu.
No entanto, parece no mínimo fortemente provável que o componente cultural seja decisivo e que essa redução na atividade física impõe elevados custos à saúde pública, onerando as mulheres com riscos muito mais altos de desordens alimentares e endócrinas.

[Goran et al. Developmental Changes in Energy Expenditure and Physical Activity in Children: Evidence for a Decline in Physical Activity in Girls Before Puberty PEDIATRICS Vol. 101 No. 5 May 1998]

A melhor maneira de controlar essas transformações desfavoráveis em composição corporal e também em gasto energético é através da atividade física. No entanto, não qualquer atividade física, e sim uma que proporcione uma estratégia deliberada para aumento do tecido muscular em detrimento do tecido adiposo. Essa atividade é a musculação.

Marilia


BodyStuff