Hoje entrei na comunidade-orkut que a Roberta, filha da atleta Regina Vilella, fez para ela (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=5513345 ). A introdução da comunidade é muito interessante. Por que a Regina mereceria uma comunidade-orkut só para ela? A Roberta responde: porque é uma super mãe, amiga, divertida, tolerante, cozinha bem… uma porção de adjetivos legais. Em nenhum momento ela diz: porque ela teve tais e tais títulos, foi às Olimpíadas de Moscou, colecionou não sei quantas glórias… Nada disso. No fundo, o que ela quis dizer, eu senti, foi a vontade de transmitir aos outros a idéia de que aquela mulher é a mãe dela, é importante para ela, faz comidas que a confortam, esteve e está do lado dela naqueles momentos complicados em que todos nós somos um pouco frágeis.
Eu li e fiquei emocionada. Acho que é tudo que uma mãe pode querer – depois disso, tudo é lucro. Não há glória, pódio, prêmio, reconhecimento de mérito, grana ou poder que se compare a conferir que satisfazemos quem mais nos importa no universo: nosso filho. E não o satisfazemos pela medalha, e sim por um picadinho com batata, salsicha com purê, torta de galinha ou pudim de leite.
Não existe satisfação que se compare ao sorriso do seu filho quando olha para você e abre os bracinhos quando você aparece no portão do jardim-da-infância; quando come o seu pudim ou quando encontra você no quarto, dormindo.
“Estar lá” para um filho é um pouco como comer. É quase satisfazer uma necessidade fisiológica.
Acho que isso deve ser parte do motivo do sucesso da nossa espécie.
Essa analogia corporal é muito mais forte do que se imagina.
Eu tenho uma desordem complicada que faz minha percepção do mundo variar bastante. Há momentos em que tudo perde um pouco o sentido. A primeira vez que passei um longo período de tempo sem nenhuma perda de sentido foi quando estive grávida da Mel. Foram nove meses de pleno sentido. Então ela nasceu e por três dias eu tive que me ajustar a um mundo em que eu não era mais o mundo dela, em que meu corpo havia se particionado, em que eu havia deixado de ser fisicamente dois-em-um. Foram três dias complicados. Mas logo foram superados pelo fato de que de três em três horas uma grande parte de mim se transformava nela: minha filha apenas mamou por seis meses e mamou de fato por um ano. Parte da minha fisiologia continuava sendo “produzir Mel”.
Mas um dia ela decidiu não mais mamar meu leite.
Nesse dia voltei a ter meus ciclos de falta de sentido.
Existe algo profundamente corporal na condição de mãe que homem nenhum ou pessoa nenhuma que não pariu é capaz de entender. Um filho é sempre uma combinação paradoxal de “você” com um “não-você”. E a parte “você” é sempre você. É sempre um pedaço do seu corpo que sai andando por aí, pega ônibus, faz aula de clarinete, escreve poesia e viaja para o Mato Grosso.
Em certos momentos, hoje, as coisas ficam ainda naquele limbo de sentido: vão perdendo… quase perdem… mas aí a Mel se materializa na minha frente ou ouço a voz dela no telefone e as peças do quebra-cabeças voltam aos seus lugares.
Na semana passada, minha amiga Flávia tentou me ensinar a, nesses momentos, buscar a Mel sem necessariamente buscá-la concretamente. Recuperá-la internamente. Porque a memória física da existência dela é permanente e pode ser chamada a qualquer momento. É mais benigno. Menos parasitário. Estou trabalhando nisso e acho que vou conseguir.
Ela é esse pedaço de mim que, por ser afastado, por ter autonomia, por ser o melhor de todos, não é afetado pelo que quer que corroa todo o sentido do que está em volta.

Marilia


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