Num dos últimos dias do ano passado, saí para jantar com um amigo. Ele havia ficado sumamente preocupado com minha decisão de abandonar o uso de medicamentos.
“Mas e os riscos?”
“Sim, existem, são sérios.”
“Mas como você assume riscos, assim, contra a recomendação de um profissional?”
“Simples: o critério é a minha felicidade. Passei uma vida infeliz, com um ano razoável, o ano de 1977, quando pratiquei meu esporte de eleição de forma quase profissional, muitas horas por dia. Depois disso, voltei a ser feliz novamente em 2004, quando passei novamente a praticar meu esporte de maneira intensa, sem utilizar nenhum medicamento. Vida com atividade física, feliz. Vida sem atividade física, infeliz. Vida com medicamento, infeliz. Vida sem medicamento, feliz. Simples.”
“Mas e se você morrer?”
“Daí morri. Não importa. O que importa é viver. Portanto, faço o que devo para viver bem – a morte, bem, foda-se a morte.”
“Mas isso é absurdo!”
“Não, não é. Eu estou feliz assim e isso é o que importa.”
“Mas não é você que tem que saber isso.”
”Não??!! Quem pode saber se eu estou feliz, então, se não eu??”
“Um profissional.”
”Um profissional????!!! Como assim??”
“Um profissional, um psiquiatra é quem deve saber…”
”Um psiquiatra tem autoridade para dizer se eu estou FELIZ ou INFELIZ?????”
“Sim, ele sabe fazer as perguntas certas e…”
“Não, sério: você jura que seriamente acredita que um outro indivíduo, fora você, tem competência e autoridade para declarar se você está ou não está FELIZ???”
“Sim… não…”
Diante da minha incredulidade, espanto e até sorriso de quem estava se divertindo com o ridículo da afirmação, meu amigo deu uma recuada. Meu amigo é uma das pessoas mais inteligentes que conheço, cientista brilhante, de grande prestígio. Ao longo da nossa conversa, adotou um tom menos normativo, mas sua primeira reação é o que importa para essa crônica, porque foi espontânea e reflete uma atitude automática dos membros da nossa elite simbólica (quem profissional e oficialmente pensa “na” e “a” nossa sociedade). E isso é assustador: não apenas permite-se à psiquiatria patologizar comportamentos coletivos e culturalmente codificados, coisa que denunciei em outro post, como, percebo, se delega a ela a autoridade sobre questões de natureza inalienavelmente pessoal e individual, de caráter ético, existencial e profundamente íntimo.
Isso, sim, é assustador.
Isso, sim, reflete o avanço de uma pseudo-disciplina, movida por agendas ocultas das mais perversas (inclusive aquelas que partilha com a indústria farmacêutica), para a esfera do controle dos comportamentos individuais.
Isso é Big Brother.
Isso é a total e completa alienação de nós mesmos – de nosso sexo, nossos músculos, nossos estômagos, nossas formas e, finalmente, nossos cérebros.

Marilia


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