Peguei a foto limpa, sem photoshop. Eu queria pensar essa foto assim, sem nenhuma alteração ou nada escrito. Observe a expressão do policial: ele está tenso, nervoso. Ele não é da tropa de choque. A tropa de choque é uma outra brincadeira: eles sequer tem campo de visão, não enxergam o que tem na frente. Eles mesmos dizem isso e qualquer pessoa que entenda de estratégia sabe que não se chama tropa de choque exceto em situações de conflito fora de controle. Esse policial é mais um dos muitos que obedecem uma ordem que veio do gabinete do governador e, antes disso, de uma cadeia de comando. Um dos comandantes cedeu o celular dele para um jornalista. É chocante escutar que tem gente real, sentada em cadeiras confortáveis dando ordens para que isso, que nos parece uma escalada de violência sem controle ou comando, ocorra. Tem gente orquestrando isso, orquestrando nós todos, como marionetes.

Agora observe o jornalista. Ele está cobrindo a situação, como deve ter feito centenas ou milhares de vezes. Ele não larga a maldita câmera, que pesa 5-12kg e é cara pacas. Tem spray de pimenta indo nos olhos dele e ele NÃO larga a câmera. Tudo menos largar a câmera. Deus me livre largar a câmera e sair correndo, esfregar os olhos, sei lá. Meus amigos jornalistas podem perder um dedo, mas não uma imagem. É a arte deles, é o compromisso deles, é a ferramenta deles de transformação do mundo. Por favor, observe o que tem nessa cena: um sujeito defendendo de uma maneira quase heróica a câmera dele, o instrumento de intervenção que ele tem numa realidade cada hora mais caótica.
Agora olhem uma mãozinha atrás. Tem uma mãozinha segurando o colete do jornalista. Deve ser outro jornalista. Não tem mais ninguém por perto, isso não é daqueles conflitos no meio da muvuca. É no meio do nada: só tem o policial tenso, com raiva e medo, e o jornalista agarrado em sua câmera.

Eu nunca vou esquecer essa imagem.