A garota tinha 21 anos, 40 quilos e tinha 1,72 metros de altura. Chamava-se Ana Carolina Reston e era modelo da agência L’Equipe (http://www.pernambuco.com/ultimas/nota.asp?materia=20061115122932&assunto=5&onde=1 ). Morreu de complicações decorrentes de anorexia dia 14 de novembro deste ano, em São Paulo.

A primeira questão que esse episódio suscita é a respeito do papel da mídia nas desordens de auto-imagem, ou “dismórficas”. Lembrei de uma conversa que tive com minha filha ontem sobre um artigo de Erica Palomino, crítica de moda, que li anos atrás. Eu não a considerava uma grande jornalista até que publicou esse artigo com críticas ferozes a uma onda de “estética junkie”. Eu sei que não foram estas as palavras dela (isso é uma re-leitura minha), mas o sentido do texto era o de que mostrar moças anoréxicas, com roupas aparentemente descuidadas, com sombras escuras sob os olhos simulando overdose, sentadas em posição de “chapação” em escadas de metrôs era total irresponsabilidade social. É mais ou menos o que acho do que li.

A relação de alienação como o próprio corpo não depende diretamente da indústria de moda ou da mídia. É uma desordem, e séria. No entanto, se a pessoa teria alguma chance de administrar sua relação complicada com o corpo, a midia e a indústria de moda tiram essa oportunidade dela.

A falta de responsabilidade social da indústria de moda glamourizando um estado patológico (a anorexia), do meu ponto de vista, é equivalente à irresponsabilidade social da indústria alimentícia que “esconde” calorias em alimentos infantis, permitindo que crianças sem a menor chance de fazer cálculo calórico ingiram 1500 calorias num pacote de biscoitos porque… ora, porque é gostoso!

E aí, a despeito do meu radical anti-intervencionismo, concordo com políticas públicas coercivas. É preciso proibir SIM a exposição de imagens positivas de anoréxicas, colocar limite ao IMC das modelos fotografadas ou filmadas, impor restrições à indústria alimentícia, tudo isso.

São questões complicadas, mas acho que é onde fica aquela fronteira muito sutil entre a desordem mental e o comportamento involuntário (sobre ou sub-alimentação involuntária, auto-intoxicação involuntária, etc.).

A segunda questão suscitada pela morta de Ana Carolina diz respeito ao papel dos pais no desenvolvimento de desordens alimentares e outras onde o comportamento da vítima é muito afetado (como abuso de substâncias e outras desordens mentais). Os pais têm, sim, responsabilidade nestes casos. Não perceber o corpo do filho ou filha é sinal de um afastamento que denuncia uma relação muito negativa. Uma vez minha mãe me contou, num tom penalizado, sobre uma amiga dela cuja filha havia engravidado e tido o bebê sem que ninguém percebesse a evolução da gravidez. Ora… que coisa imbecil… Por mais que a moça fosse gorda, usasse roupas largas, essa mãe, de duas uma: ou vivia em “denial” (negação da sexualidade da filha), ou estava cagando e andando para a garota. Mães notam cada pequena alteração na voz, no corpo e no olhar de seus filhos. Estão naturalmente atentas. Quem não nota, está negando o corpo do filho, e aí não me espanta que esse filho negue seu próprio corpo.

 

Marilia

 

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