“Manipulação nutricional” é um termo que aparece aqui e ali em artigos ou materiais informativos sobre nutrição, mas não se trata de um conceito definido e, portanto, não é um “termo técnico”. Mas eu acho que deveria ser. Eu acho que esse conceito sintetiza uma concepção segundo a qual não existem “necessidades nutricionais essenciais”, dessas que se referem a uma pretensa natureza biológica humana que todos partilharíamos como espécie. Mais que isso, confronta a idéia de que existiria uma tal “dieta balanceada” ou “equilibrada”.
O argumento aqui, não é exatamente uma novidade no contexto do que venho escrevendo. Parte da idéia de que não existe essa “natureza” intocada pela cultura e que por algum motivo moral deva ser preservada, em nenhum plano. Nossos corpos são tão produtos culturais (no nosso caso, tecnológicos) como qualquer outra coisa nessa sociedade e não há por que achar que seria diferente com comida.
A idéia de que todos precisaríamos de determinadas quantidades mínimas de certos macro e micro-nutrientes é uma idéia ingênua e primária, uma vez que, obviamente, ninguém quer ter uma existência “mínima”, apenas minimamente se distanciando da morte. Ou seja: as tais “recomended daily allowances” são uma bobagem e apenas definem (e mal, pois pesquisas derrubam esses valores o tempo todo) aquilo abaixo do qual se morre ou se vive patologicamente deprivado.
Então, como queremos viver?
Essa é a primeira pergunta que configura o conceito de manipulação nutricional. Numa sociedade complexa e culturalmente múltipla como a nossa, essa é uma pergunta com um imenso número de respostas.
Começo pelo exemplo extremo do esporte ao qual me dedico em termos de aprofundamento em conhecimento e prática, o fisiculturismo. A base do fisiculturismo é uma combinação entre estratégias de treinamento de força e MANIPULAÇÃO NUTRICIONAL que otimizem a hipertrofia muscular. Deve existir uma sintonia fina entre os dois. Dessincronizar esses dois componentes pode ser catastrófico para o atleta, levando a overtraining, perda de massa magra, ganho excessivo de gordura, entre outros efeitos indesejados.
A manipulação nutricional é um conjunto de estratégias de administração de macro e micro-nutrientes segundo composições, combinações, frequências e timing perfeitamente adequados ao objetivo de hipertrofia muscular.
Existem muitas estratégias diferentes e a cada dia alguém aparece com alguma novidade. O interessante é que a Nutrição mainstream insiste em resistir a essas novas informações geradas pela comunidade de prática do bodybuilding, até que não consegue mais e acaba incorporando alguma através de experimentos que apenas corroboram práticas já antigas entre atletas e treinadores. A comunidade científica, no tocante à manipulação nutricional para ganho de massa magra e perda de gordura tem vindo à reboque das comunidades de prática de atletas e treinadores há anos.
Boa parte das estratégias “funciona” sem que as bases fisiológicas dos efeitos observados sejam nem sequer parcialmente compreendidas. Existem inúmeras explicações “ad hoc”, mas, como as estratégias não foram geradas no contexto de experimentos controlados, nunca passam de… bem… explicações “ad hoc”, dadas a posteriori, tentativas de dar conta daquilo que requer uma explicação.
De uma certa forma, isso expõe um pouco da complexa relação entre ciência e tecnologia. Manipulação nutricional é tecnologia e, portanto, se trata de um conhecimento que pode, sim, preceder a construção de modelos teóricos sobre a realidade que sustentem o discurso. Ao contrário do que se pensava há algumas décadas, a ciência não necessariamente precede a tecnologia relacionada.
Aqui, no caso, a manipulação nutricional expõe outros conflitos, conflitos entre interesses partilhados por grupos diferentes: cientistas, atletas, a indústria de suplementos, a indústria farmacêutica e consumidores leigos.
A mídia politicamente correta para o público leigo continua insistindo no insustentável conceito de “alimentação balanceada”, divulgando a falsa idéia de que existe uma dieta genérica que atende às necessidades de qualquer corpo humano.
Por quanto tempo isso vai durar, acho difícil prever. Depende de forças do capitalismo contemporâneo que fogem a qualquer modelo de análise ou previsão, uma complexa e poderosa combinação entre os interesses da indústria farmacêutica, indústria alimentícia, indústria nutricêutica, indústria de suplementos, os interesses corporativos de várias especialidades médicas e as tecnologias de informação que dão poder ao consumidor e democratizam os processos decisórios.
Esse último fator pode complicar toda a equação, já que os atores adquirem ferramentas inéditas para expressar seus desejos e demandas, para ter acesso ao que antes era misterioso e distante, que é a construção de seus próprios corpos.
De volta ao conceito geral de manipulação nutricional, trata-se de um conjunto de estratégias de administração de macro e micro-nutrientes segundo composições, combinações, frequências e timing perfeitamente adequados ao objetivo em questão, seja lá qual for – ganhar massa magra, perder gordura, ganhar gordura, combater efeitos indesejados do envelhecimento, combater efeitos indesejados de patologias diversas, etc. Isso é aplicar conhecimento técnico-científico na construção de corpos adequados ao nosso mais nobre objetivo como humanos: viver com qualidade e auto-satisfação.

Marilia


BodyStuff