Muito antes de eu descobrir o objeto destas acaloradas discussões – o Powerlifting, ou Levantamento Básico – eu fui uma cientista. Nos anos 90, fiquei mais ou menos conhecida numa pequena comunidade por minhas publicações sobre “excelência científica”, mais especificamente “excelência científica em países periféricos”. Todo cientista que tem a chance ou os culhões para tanto, escolhe como objeto de estudo algo que lhe é particularmente importante. Minhas escolhas foram sempre baseadas nessa relação quase obsessiva com o mérito e a justiça. Eu disse muitas coisas sobre esse tal de mérito e seu papel na construção de coisas importantes, como um lugar para a ciência na sociedade. E uma das coisas em que eu insistia era que o “jogo meritocrático” jamais havia sido inteiramente implantado em nossos países – nós, constituintes desse complicado continente que chamamos de América Latina. Cada vez que uma empreitada científica “excelente” (e necessariamente baseada em mérito) emergia, em pouco tempo era abortada pelos fatores anti-meritocráticos que comandavam (e eu acredito que ainda comandem) a vida social e política no nosso continente. Escrevi sobre isso, falei sobre isso em inúmeros países, a galera curtiu muito mas… entre a compreensão sociológica e etnográfica de um fenômeno e o uso de seus elementos na prática individual há um abismo que só pode ser explicado por coisas como neuroses, burrice emocional ou alguma outra tosquisse. E, por isso, ainda que descrevendo com bastante competência os “fatores anti-meritocráticos”, na minha vida profissional desprezei-os inteiramente: agi como se o jogo meritocrático fosse impecável, à la Merton.

Antes de prosseguir, vou contar uma coisa que ninguém escreve porque todos sabem e devem calar: na vida de qualquer acadêmico fadado a ser bem-sucedido (e os fatores não têm nada a ver com mérito, mas sim com capital social), há um momento crítico em que “alguém” (um individuo investido da legitimidade ou posição para tal) vem e diz assim: “oi, está na hora de você fazer seu concurso e entrar, ok?”. No seu papel de “carta marcada”, cabe a você abaixar a cabeça, fingir que o jogo é limpo, estudar – sim, estudar, como os outros -, não fazer muito feio e acatar a decisão da banca que lhe concede o primeiro lugar e portanto a vaga no departamento. E ponto final. NUNCA MAIS você deve falar no assunto – para ninguém, nem para sua sombra. Só que muita gente fala.

Aconteceu comigo – mais de uma vez. A primeira foi logo após eu concluir meu doutoramento. O “alguém” em questão era nada mais, nada menos, do que o vice-reitor (sem nomes) da maior universidade brasileira. Aí eu pensei bem e fiz a grande cagada (do ponto de vista de quem acredita que a melhor coisa da vida é ser professor da USP): disse “não”. Eu tinha uma bolsa de posdoc para os Estados Unidos aprovada, estava apaixonada, tinha só 30 anos, a vida era bela e eu queria mais era viver. Entre a aventura de ir embora e pesquisar o que eu queria ou me enfurnar num departamentozinho medíocre, eu escolhi a primeira. Fiz isso mais duas vezes. Por que eu fiz isso? Porque, na minha ingenuidade, eu assumi que “mais tarde”, com um currículo muito mais espesso, eu tomaria meu lugar tranqüilamente. Tudo que eu havia publicado sobre os fatores anti-meritocráticos foi ignorado nessa atitude infantil e boba: não existe “mais tarde”! Não existe “currículo mais espesso”! E eu comprovei isso dolorosamente. Prestei três concursos. Nos três, meu currículo tinha um número muito maior de publicações do que meus adversários. Muito mais impacto, medido pelos indicadores de impacto. Minhas aulas foram melhores, segundo quem assistiu. E eu ouvi na minha cara que não me seria dado acesso àquela instituição. Uma vez, na UNICAMP, por motivo ideológico: o presidente da banca declarou que nunca permitiria que uma neo-liberal como eu (?????) entrasse em seu departamento. Em seu apoio, uma feminista pouco publicada que não gostou nada da minha aula sobre gênero e ciência, onde as mulheres não eram coitadinhas. Outra vez, o presidente da banca me disse candidamente que eu não era a “bola da vez”. E na terceira, um amigo me contou que, nos bastidores, considerou-se que eu não era “confiável” para jogar o jogo institucional (nas três melhores universidades do país).

Quem estava errado, eles ou eu? Eu. Porque não entendi que o jogo não era um jogo meritocrático. E confesso que minha relação com o conceito de meritocracia é ambivalente. Assim como democracia jamais implica que todos têm acesso igual ao poder, e sim apenas um jogo codificado segundo normas tais onde todos os segmentos acordam consensos sobre o funcionamento institucional, a meritocracia não é “do bem” nem “do mal”. E não implica igualdade. Implica apenas um rigor maior com regras burocráticas.

O paralelo com a democracia não é casual: a democracia não é nem justa, nem igualitária. Mas entre uma sociedade “democrática” e bem burocratizada (moderna sensu Weber) e outra totalitária ou tradicional, eu fico com a primeira. Prefiro o direito duvidoso de processar a prefeitura porque o buraco na rua fez explodir os canos de gás do meu bairro a depender de um “benévolo tirano” que legisle segundo seus próprios valores, não consensuais.

E o que tudo isso tem a ver com o esporte? Tudo. Em outro artigo defendi que todas as crianças devem participar de esportes competitivos, pois é assim que se treinam a lidar com frustração, a operar segundo recompensa tardia e aprendem os valores básicos da meritocracia. O motivo é que o esporte é uma prática social configurada segundo regras arbitrárias, as quais devem ser seguidas por todos os participantes. Ganha quem, DENTRO DAQUELAS REGRAS, tiver melhor performance. Não importa a regra. São todas arbitrárias.

Pratiquei inúmeros esportes e em alguns me saí muito bem. Fui campeã brasileira de esgrima, por exemplo. Na esgrima, há um procedimento ritual que inicia o assalto, que consiste de um movimento com a arma em direção ao juiz, depois à mesa e finalmente ao adversário. Isso é uma “saudação” – vem do século XVIII – e é obrigatória. Jovens esgrimistas talvez nem saibam o que significa. É feito mecanicamente e tão rápido que um observador externo vê apenas a mão do atleta sacudindo. Qual a importância disso no jogo? Nenhuma! É apenas uma regra! E tem que respeitar.

Em alguns esportes o traje de baixo pode ter 15cm abaixo da virilha, e não 10cm ou 12cm. Por que? Motivo nenhum! Regra! Arbítrio! E todos têm que competir nas mesmas condições DE REGRAS, e não de semelhança biológica, genética ou seja lá o fator imponderável que se use para definir o duvidoso conceito de igualdade.

Os grandes questionamentos do jogo meritocrático, ao longo da história, vieram justamente dos indivíduos que protestaram contra a inerente desigualdade entre os indivíduos. Assim, seria injusto num concurso no Brasil, num departamento de ciências sociais, competir contra mim se as regras favorecessem impacto internacional: eu sou bi-lingue, tenho publicações em revistas referenciadas no exterior e meus colegas não tiveram a mesma oportunidade que eu. E daí? Claro que seria uma vantagem num jogo meritocrático! Injusta? Pode até ser – ninguém falou de justiça, apenas de mérito. Mas não era mérito que estava em jogo.

O mesmo vale para o esporte. Claro que um atleta com 67kg e 1,58m, com baixíssima %BF como o Eric terá vantagem (independente do treinamento, composição de fibras, consciência corporal, agressividade, inteligência e outros fatores ainda mais imponderáveis que influem fortemente na performance) sobre um atleta de 1,76m, membros longos e músculos com secção transversa de pequena área. É a vida! Ambos estão competindo segundo as mesmas regras, mesmos equipamentos e na mesma categoria de peso. Eric tem uma vantagem biológica só para começar – fora todas as outras. É assim que se joga o jogo meritocrático. Cabe ao atleta de 1,76m (que tem nome, é um excelente atleta, é meu amigo e se chama Edilânio) mudar de categoria, comer mais, hipertrofiar mais, treinar mais e competir com seus 80kg, mais ou menos.

Veja o exemplo das drogas. Eu não tenho nada contra o uso de drogas, as quais considero apenas um recurso tecnológico para aumento de performance. É irracional colocá-las em categoria distinta de borrachas para calçados ou tecidos para equipamentos vestíveis. No entanto, se está escrito no estatuto da federação que organiza o evento onde quero me inscrever que ela é “drug free”, eu assino um compromisso segundo o qual eu serei punida se meu teste anti-doping der positivo. E se der, não tenho nada que reclamar: estava escrito, eu assinei, ponto final. A minha opinião sobre o uso de drogas para aumento de performance pouco importa. Dar negativo quer dizer que o atleta está limpo? Não. Agora, dando negativo, é negativo oficialmente. Ninguém tem nada com o que o atleta fez – se deixou de usar drogas, se nunca usou, se usou mas seu metabolismo é maluco, se fez tranfusão de sangue, se conseguiu se limpar ou seja lá o que for. Ele está de acordo com as regras – seu exame deu negativo. É isso que importa. Até que essa regra seja derrubada (e eu luto para que seja), ela deve ser respeitada por todos.

Eu acho idiota o comando “press”, da IPF, no supino. Acho mesmo: acho anti-fisiológico, acho impossível manter uma contagem idêntica para todos os árbitros, acho bobo, acho que diminui a atratividade do “jogo”, pois a performance coletiva cai – e cai mesmo, comprovamos isso. Mas… tendo sido votado, cabe a todos seguir a nova regra NA FEDERAÇÃO  – e apenas nela – onde isso foi deliberado.

Assim, o jogo se re-configura segundo regras, comandos e equipamentos. O equipamento não é uma “ajuda” ao levantamento. O equipamento é parte do movimento, altera significativamente sua biomecânica e requer habilidade e técnica para extrair o melhor carry-over. O equipamento muda o movimento, a curva de força, tudo. Competir com equipamentos diferentes é o mesmo que competir com ou sem equipamentos – não há comparabilidade nos resultados. O jogo não é mais meritocrático – vira apenas um show. A concorrência, que implica o emprego das mesmas regras, desaparece.

Eu sempre defendi que as formas mais sublimes da expressão humana são a ciência, o esporte e a arte. Cada um por seus motivos, mas em todos eles há um ethos (sempre mais ou menos transgredido) meritocrático, onde se premia a excelência humana. É como se a cada ato nestas práticas buscássemos não apenas a superação, mas a afirmação do que há de melhor na nossa espécie. Com todas as suas contradições e dificuldades, com todo o idealismo mertoniano que isso implica, eu defendo os jogos bem codificados: a democracia em suas formas mais diversificadas, a ciência de maior isenção e o esporte praticado de forma disciplinada, segundo o rigor das regras.