Ontem à tarde voltei de Brasília, onde fui discutir o apoio a um projeto sobre identificação de demandas de informação científica na área da saúde. Voltei feliz com o resultado, mas fui preocupada. Sentada no avião, pensava nas chances.
Do meu lado sentou-se Leandro, um Educador Físico gaúcho. Me contou que trabalha em duas escolas e é técnico de judô. Leandro ama o que faz, é um Educador Físico dedicado e pretende fazer um mestrado, possivelmente em psicologia do esporte aplicado a crianças. Ele gosta de crianças e se sente frustrado com o papel tão marginal reservado à Educação Física no ensino básico.
Fomos conversando e eu mencionei, aqui e ali na conversa, publicações interessantes nos tópicos de que falávamos. Leandro então confirmou uma das premissas do meu projeto: a de que o profissional da área da saúde (nesse caso, o Educador Físico) não dispõe do tempo necessário para examinar as fontes primárias da informação técnica. Isso é o esperado. Espera-se também que disponham de um tempo menor e durante o período de trabalho para examinar produtos de informação que precisam ser desenvolvidos com a finalidade de suprir essa demanda: produtos de informação que ofereçam uma síntese das evidências científicas no tópico, os consensos ou falta deles, as recomendações, enfim, os instrumentos que fortaleçam o profissional para tomar decisões de boa qualidade. Só que esbarramos num problema estrutural: os profissionais estão SEM ACESSO À INFORMAÇÃO EM SEUS LOCAIS DE TRABALHO. Por “informação”, refiro-me a Internet, que é o veículo de disponibilização não apenas prioritário, como mais barato, democrático e eficaz. Não há acesso à Internet na maioria das escolas, academias e clínicas. Leandro me contou que onde ele trabalha, não há acesso para os professores. Nem nas academias que ele conhece. Na academia onde eu treino, uma enorme rede, os professores também não contam com acesso à Internet. Não é diferente de nenhuma outra. O profissional passa mais de dez horas de seu dia em trabalho, outras tantas se locomovendo e certamente não terá muito tempo para visitar uma lan-house e, se tiver, não fará mais do que checar seu e-mail. O local de consulta de informação NECESSARIAMENTE deve ser o trabalho, onde o profissional toma, de fato, suas decisões.
Eu acredito que essa é uma questão complexa e envolve aspectos relativos à evolução das relações de trabalho e outras simplesmente relativas à cidadania.
Quanto às relações de trabalho, ainda engatinhamos. Se direitos básicos como saúde e transporte não são garantidos pelo Estado e nem a maioria das empresas se preocupa em complementar para seus funcionários, outros direitos são mais complicados de se negociar.
No entanto, algumas empresas já acordaram para o fato de que certos “benefícios” (nesse caso, proponho que seja promovido a “direito”) aumentam a produtividade do trabalhador e, consequentemente, o lucro da empresa. Assim é que muitas empresas investem em corporate fitness e contratam serviços de ginástica laboral, por exemplo.
As empresas que possuem profissionais com qualificação superior ainda não se deram conta de que as decisões desses funcionários, no nosso mundo globalizado, tecnológico e absolutamente centrado em informação, são amparadas por informações que se encontram em permanente processo de atualização. É imprescindível que tenham acesso a essa atualização, sob risco de que suas decisões, e consequentemente a qualidade do serviço da empresa, sejam prejudicadas.
Mas eu vou além e acho que o acesso à informação deve ser considerado direito básico do cidadão. Não ter acesso a ela é uma das mais crueis formas de exclusão social. Manter profissionais formados com dificuldade, muitas vezes em precárias instituições de ensino superior privadas, sem acesso à Internet no local de trabalho é perpetuar a divisão entre os “sem currículo” e a elite proveniente das boas universidades, que trabalha em instituições bem informatizadas e tem banda larga em casa. Temos uma casta onde se concentra não apenas a grana, mas o poder sob forma de conhecimento e informação. Sempre foi assim, mas, pela primeira vez na História, temos um instrumento que pode alterar pelo menos um pouco essa disparidade: a Internet. A Internet de fato pode democratizar um pouco o acesso a informação.
Entre os vários profissionais da área da saúde, eu acredito que os Educadores Físicos estão em piores condições. Psicólogos e nutricionistas ainda têm algumas regalias em seus hospitais e empresas e acabam tendo mais acesso à informação. Educadores Físicos são tratados como cidadãos de segunda categoria, profissionais de tão baixa relevância que educar-se continuamente e informar-se é considerado desncessário.
Essa situação precisa ser mudada.
Escolas e academias precisam disponibilizar computadores com acesso à Internet para seus professores. É preciso garantir que eles disponham de algum tempo durante o expediente para consultar informação técnica. É preciso que eles tenham direito de consultar provedores de informação em situações de incerteza para tomar decisões. Num cenário ideal, é importante que eles sejam treinados para buscar e utilizar criticamente a informação desses serviços.
Isso é urgente, é importante e é justo.

Marilia


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