Não, não é uma discussão conceitual. Outros pensadores muito mais capacitados do que eu para discutir a história institucional do Estado brasileiro já o fizeram. Mas o patrimonialismo no sentido menos técnico, essa tão ibérica promiscuidade entre o público e o privado, elevada ao extremo em terras brasileiras, me parece ser uma das raízes mais sólidas do puxa-saquismo nacional. Essa prática que alguns transformam em caricatura, outros em arte dramática.

Eu aprendi com estes pensadores, em especial com Gláucio Soares, que jamais se deve qualificar nada ou ninguém de maneira que não seja precisa, objetiva, necessária e suficiente. Lembro-me de uma longa discussão sobre a distinção entre “bright” e “brilliant”, ambas expressões de grande capacidade intelectual criativa, mas uma ligeiramente mais graduada que a outra. Lembro-me de outra carta muito precisa de um destes responsáveis pela minha formação intelectual e reconhecida dureza. Era para algum programa fora do Brasil, em meu favor. Descrevia meus pontos fortes, meus itens de excelência, mas não poupava minhas deficiências: “she’s a poor team player”.

Saída das dobras do mundo acadêmico anglo-saxão, até hoje tenho dificuldade em compreender onde, quando e como a arte da dissimulação, do falso elogio ou do puxa-saquismo chulo são profissionalmente vantajosos. Institucionalmente, politicamente, comercialmente vantajosos. Só mesmo aqui, em terras brasileiras, e talvez por isso mesmo me seja difícil compreender.

Para seus defensores, seria necessário apelar para amizades inexistentes, qualidades éticas que só podem ser piada, vínculos de fidelidade que causam ânsia de vômito pela sua ironia invertida. Mas seriam mesmo necessários? Vejamos. Examinei os colegas que me explicaram a necessidade do puxa-saquismo nos termos das trocas de favores escusas e articulações políticas delicadas. Seriam eles particularmente bem-sucedidos? Estariam financeiramente bem colocados? Institucionalmente seguros? Politicamente poderosos?

Não.

As fotos sorridentes com abraços simulando intimidade com autoridades teriam rendido dividendos importantes? Abraços ostentando vínculos de fidelidade inexistentes? Sim ou não?

Não.

Então eu não entendo. Alguém me explique direitinho porque eu deveria chamar de irmão alguém que nem amigo é, de amigo alguém que no máximo simpático tem sido, de grande mestre alguém que não tem nem educação formal, nem mérito específico em nada ou de campeão alguém que ostenta uma porção de mediocridades marcadas por esculturas kitch.

Ganho o que se fizer?

Se não ganho, perco o que se não fizer?

Não fiz, sofri uma porção de violências, fui insultada por idiotas e aqui estou tocando minha vida. A cada rasteira por parte de patéticas quadrilhas de ladrões de galinha, o que exatamente eu perdi ou sofri? Traumas. Sim, sofri decepções sérias porque bandidinhos têm freqüentemente alta inteligência emocional e sabem machucar onde dói mais: envenenando os afetos verdadeiros. Eles descobrem, vão lá, pegam os afetos como reféns e sacrificam mediante nossa rebeldia.

Mas não teríamos perdido muito no curso natural do crescimento humano? Dores não fazem parte do processo? Teriam eles causado mais do que o que encontraríamos sem eles?

Não… não estou ainda convencida da necessidade dessa conformidade à tradição brasileira do puxa-saquismo. Talvez porque seja um talento que eu não tenha.

Eu ainda acho que fui bem educada lá atrás na minha história, onde “smart” é diferente de “bright”, que por sua vez é diferente de “brilliant”; onde uma carta que não aponta deficiências junto com qualidades não é levada a sério; onde campeão é quem joga e vence dentro de regras rigorosas.

Como boa cientista, deixo o benefício da dúvida: aguardo alguma demonstração empírica sobre as vantagens do puxa-saquismo.