O ônibus parou num congestionamento na estrada. Da minha janela vejo as sombras compridas dos caminhões projetadas no asfalto por um sol das oito da manhã. Do outro lado, o Cerrado. Vejo primeiro um Cerrado mais aberto – o estrato de gramíneas continuo e os arbustos de folhas duras e tronco retorcido. Um dia eu soube o nome de boa parte delas. Agora aproxima-se uma formação mais densa em árvores. Baixas, folhas coureaceas, meio amareladas pelo pó do cerrado. Um poste alto e em cima dele, um gavião do cerrado.

Estou em casa.

Conheço essa vegetação como conheço parte de mim mesma. Olho para esses pequenos e densos arbustos retorcidos como quem se olha no espelho. Agora as árvores se erguem sobre o chão preto de fogo recente.

Fogo e Cerrado andam juntos.

De tempos em tempos, o Cerrado pega fogo. O fogo destrói o estrato herbáceo e as folhas das árvores. Quem não conhece diz que o Cerrado morreu. Mas não morreu.

Depois do fogo, tudo renasce e boa parte das plantas entra em floração. Meses e meses sem chuva, fogo e um solo ácido não matam o Cerrado – fazem dele o que ele é: uma formação de plantas fortes, secas, duras e resistentes.

A água, no Cerrado, é abundante há cerca de 20m abaixo do solo. Uma fonte permanente de vida e re-nascimento.

Os arbustos duros têm poucos metros de altura, mas raízes imensas que alcançam o lençol freático lá embaixo.

Olho para elas como quem se olha no espelho.

É meio difícil acabar comigo, pois o fogo só me torna mais viva e fértil, e minhas raízes são profundas. A cada inexorável queimada, tudo se renova.

Eu sou um arbusto do Cerrado. Eu sou a Phoenix.

 

Marilia

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