Hoje é o dia internacional da mulher e eu demorei para conseguir pensar na celebração. A condição feminina, essa nunca esteve tão viva na minha consciência: acordei um lixo, melhorei com um abraço da minha filha Mel, mas ela teve que ir dirigindo até a escola porque eu não parava de chorar. Choro daqueles em que se chora com vontade, alto, soluçando. Do alto da sabedoria dos 16 anos dela, me afagava e dizia: “calma, mãe, é assim mesmo, depois passa”. Por que eu chorava? TPM. Não é todo mês assim. Esse foi particularmente ruim.
Só outras mulheres podem compreender o que eu passei.
Mas só pessoas com uma segunda condição complicada podem saber os riscos dessas oscilações hormonais em cérebros como o meu.
Portadores de desordens neurológicas e psiquiatricas graves são sistemas instáveis. A menor alteração química – hormonal, dietética, farmacológica – pode desencadear um surto de proporções incontroláveis. Portadores de “cérebros especiais”, como sugere um benevolente amigo psiquiatra.
Essa combinação de condição feminina com “cérebro especial” é particularmente complicada de se administrar.
Ontem recebi um telefonema de um parceiro de trabalho. É uma pessoa de quem gosto muito, inteligente e muito racional. Houve um problema com o orçamento do nosso projeto. O problema pode comprometer parte da execução do mesmo e também a contratação do meu assistente de pesquisa, meu colaborador e ex-estudante. O projeto é muito querido para mim – minha “brain child”, algo em que deposito muita esperança. Meu colaborador também é muito especial. Fiquei frustrada e culpada com a notícia.
Pelo lado da instituição de pesquisa, o problema está sendo administrado de maneira sensível e correta.
Pelo meu lado, explodi.
Fui correr, contrair meus músculos, que é o que sei fazer quando o desespero e a confusão começam a se apoderar de mim. Quando a irracionalidade ganha corpo, os problemas se tornam holísticos. Outras culpas potencializaram a primeira.
Eram 19h, mas as luzes eram fortes, ofuscantes. Meu legging era laranja e o top vermelho. Os flamboyants na rua do meu bairro estavam floridos, com suas lindas flores cor de laranja. No caminho, passou por mim um homem de blusa laranja desbotada. Sei o que isso significa. São os sinais de perigo do meu cérebro. Continuei correndo e em 40 min a paisagem se “desavermelhou/desamarelou”. Chorei, chorei e chorei.
Hoje, depois de chorar muito, fui treinar. É meu ciclo de treino de força máxima. É lisérgico. Depois do treino, melhorei.
Cheguei em casa, e conversei longamente com um amigo. Meu melhor amigo do sexo masculino. Chorei, chorei e chorei.
Melhorei.
Qual é a moral dessa história, se é que tem alguma? É que cérebros espciais elevam a TPM a uma condição de “tipo ideal”, é a TPM em sua forma extrema, em sua forma pura. Duas conclusões podem ter validade universal:
1. sem uma forma de controle dessa montanha russa hormonal, para o que eu acredito que a atividade física tem eficácia imbatível, não é possível ter um mínimo de qualidade de vida;
2. a compreensão e sensibilidade masculinas fazem TODA a diferença.
Acho que sobre a primeira eu já falei bastante, mas sobre a segunda, muito pouco. Eu acredito que a condição feminina e a condição masculina, na nossa sociedade, carregam especificidades de todo tipo que atrapalham bastante a interação entre os gêneros. Falhamos todos ao menosprezar essas especificidades no “outro”. Vivi durante alguns anos os horrores por que passam os sobreviventes de câncer de próstata em relação às ameaças que os tratamentos representam à sua masculinidade. Dei assistência a vários deles, homens que se tornaram impotentes por conta dessas intervenções e precisavam recompor sua identidade. Não trato com desprezo e negligência jovens de 18 anos que querem tomar bola para ficar “grandes”, sem nenhuma experiência de treino. Sei que isso é movido por uma ânsia desesperada em conquistar um corpo de “homem” e deixar o universo infantil.
Por isso, o risinho condescendente com que somos tratadas por homens diante das torturas da TPM me deixam muito ressentida e, na verdade, puta da vida. É algo cujo impacto em nossas vidas não há como os homens julgarem e não confiar no peso que damos é no mínimo prepotência.
TPM não é engraçado, não é frescura nem é controlável. É como uma overdose de psicotrópico forçada. A irracionalidade resultante é resultado de um desequilíbrio hormonal, e não de algum tipo idiota de inferioridade intelectual. É cíclica, é um saco, é insuportável e temos o direito ao respeito quando estamos nessa fase. Respeito por algo que é sério e por ser mensal e previsível, não é menos impactante e desabilitante.

Marilia


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