Lembro-me de uma disputa entre duas patinadoras profissionais (“figure skating”, patins no gelo) em 1994 – Tonya Harding e Nancy Kerrigan (resumo dos eventos: http://www.washingtonpost.com/wp-srv/sports/longterm/olympics1998/history/timeline/timeline.htm ). Kerrigan, favorita ao título mundial, foi atacada com um golpe no joelho nas seletivas para as Olimpíadas. Descobriu-se depois que se tratava de um ataque orquestrado pela equipe da adversária, Tonya Harding. Após uma detalhada investigação, Harding foi banida do esporte (e tornou-se boxeur profissional em 2003).

Na época, a notícia entrou no meu “sistema interpretativo” como mais um episódio da milionária indústria do esporte americano. Afinal, quando milhões de dólares em patrocínio e exploração de imagem estão em jogo, tudo é possível (artigo interessante sobre o tamanho deste mercado em figure skating http://www.washingtonpost.com/wp-srv/sports/longterm/olympics1998/history/timeline/timeline.htm ).

Grana é grana, capitalismo é capitalismo e trata-se de uma lógica empresarial. E como disse um grande advogado de patentes com quem tive o privilégio de aprender, “empresas não são gente, não têm ética e não têm responsabilidade social”. Isto concluído, deixei o assunto de lado.

Mas e os esportes amadores de países pobres como o Brasil? Seria de se esperar que neles, onde praticamente não há patrocínio e quando há ele mal cobre os gastos pessoais dos atletas e suas equipes, os atletas vivessem num paraíso de solidariedade e amizade. Nada disso! Vivem às turras, em briguinhas muitas vezes mesquinhas em torno de panelinhas federativas e transformam disputas por performance e mérito em guerras emocionalmente carregadas de ódio, inveja e ressentimento.

Acompanho de perto os esportes de força aqui no Brasil e pratico Levantamento Básico (powerlifting). Minha “introdução” ao esporte foi muito amistosa e “do bem”. Venho de uma equipe onde meu papel principal é ajudar a segurar um projeto social, o Paraisópolis Power (www.paraisopolispower.org ). Assim, por algum tempo nem me dei conta de nada “feio” e anti-esportivo. Meu amigo Eric Oishi, um dos melhores atletas do país e de longe o indisputável campeão da categoria 67,5kg, sempre auxilia seus colegas, freqüentemente adversários da mesma categoria. Em meu primeiro campeonato, conheci Valdecir Lopes, que treina atletas que competem com ele mesmo. Valdecir é de uma solidariedade e disponibilidade que, enquanto aquece para seu próprio round, continua vestindo camisas, apertando cintos e aconselhando atletas – seus ou não. Dora Costa, grande atleta de Praia Grande, teoricamente disputaria comigo pela Wilks, já que somos as duas Master. Dora foi a primeira pessoa a me sentar a seu lado e ensinar aspectos básicos do supino, com toda a generosidade. Digamos que eu entrei pela porta certa e por um tempo vivi numa comunidade de gente realmente capaz de se comportar segundo o “espírito esportivo” ou, mais, o “espírito olímpico”.

Mas não demorou muito para que eu me deparasse com seu oposto. Um dia em que eu me engajei numa discussão difícil com um empresário da área de suplementação em busca de apoio a nosso programa na favela de Paraisópolis, fui interrompida por uma figura que se considera a grande estrela do esporte (ganhou muitos títulos, inclusive internacionais, basicamente por ter as condições financeiras que lhe garantem bancar viagens para lugares como a Índia, cujo custo não sai por menos de US 3.000,00). Era um dia tenso, um campeonato Sul-Americano onde muita coisa precisava ser feita. Nosso pessoal competia, aconteceram conflitos e enquanto todas as demandas explodiam, ela se preocupava em mostrar a todos seu álbum com fotos das conquistas no tal campeonato mundial. Admito que tenho uma profunda intolerância quanto a algumas coisas: uma delas é alienação voluntária – seja política ou pessoal. A outra é imaturidade voluntária – adultos que acham “legal” bancar crianças pela fala em falsete ou por tentar mostrar-se pequenos e fofinhos. A terceira, que realmente gera em mim uma rejeição visceral, é a insensibilidade ao sofrimento humano: a falta de solidariedade. Naquele momento, ela conseguiu o feito olímpico de juntar estes três elementos e tornar-se um ser desprezível para mim.

Quando isso acontece, não tem muita volta. O máximo que consigo ser é minimamente civilizada. Não gosto de contato físico, e portanto não rola beijinho hipócrita. Sempre achei que esse distanciamento era recíproco – ela ia ficar na dela e eu na minha. Nada a ver com o esporte, apenas uma incompatibilidade pessoal, política, ideológica e, sei lá… cósmica.

Mas não é assim… Pouco tempo depois do episódio de Setembro do ano passado, no Sul-americano, algumas amigas presenciaram essa atleta examinando minhas marcas e ingenuamente (pois na frente de minhas amigas e colegas de equipe) fazendo o comentário de que pretendia mudar de categoria para disputá-las comigo.

Antes do dia “x” em que tranformei-a simbolicamente em verme, tivemos algumas poucas trocas verbais. Nas quais ela qualificou todas as atletas que conseguiram marcas superiores às dela de “anabolizadas” (nem a gíria correta “bolada” ela usa, para se diferenciar da “escória” com a qual ela não quer se misturar). Imagino que a essa altura eu já deva estar entre elas. Tomara que sim, será boa companhia, foram excelentes atletas que infelizmente deixaram o esporte.

Infelizmente, agora preciso aprender a administrar uma relação que de espírito olímpico não tem nada. E admito que me incomoda muito. Coisas inexplicáveis começaram a acontecer: o campeonato em que tive minha melhor performance, minha performance “real”, foi um onde ela estava ausente. Nos que ela comparece, “algo” acaba acontecendo. Ontem, num dia de teste de carga em nossa academia, me surpreendi com a presença dela lá. Procurei ignorá-la. Mas praticamente tudo deu errado comigo, culminando numa lesão bizarra: deitei-me no banco de supino para executar um movimento com o qual havia aquecido minutos antes com mais de uma repetição – carga leve e fácil. Quando estendi o braço para trás, senti uma câimbra forte no deltóide. Infelizmente, fui irresponsável e executei o movimento. Saí do banco agachada, gritando de dor.

Tenho que admitir que não lido bem com isso. Minhas intolerâncias e rejeições me afetam. Amigos “sábios” me deram todo tipo de explicação, inclusive de que gente que não “se doa” (ela não ajuda ninguém, não tem filhos, não tem companheiro, nada nem ninguém recebe afeto ou energia dela) necessariamente “suga”. São vampiros. E que, por motivos que não sei explicar, gente como eu é excepcionalmente vulnerável a vampiros.

Pode ser, pode não ser, vai saber?

A verdade é que agora tenho que achar um jeito de lidar com o fato de que, toda vez que eu competir, lá estará o vampiro, com seus dentinhos afiados, pronto para sugar minha força e minha concentração. E eu, que cresci num ambiente inocente de treinamento mental ou espiritual (família de cientistas ateus…), vou ter que me virar para encontrar um jeito de me defender disso.

Colar de alho?

Bala de prata?

Aceito sugestões.

 

Marilia

 

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