Durante alguns anos eu venho expondo a desinformação, simplismo, preconceito e outras formas de viés interpretativo por trás da condenação ao uso dos esteróides androgênicos anabólicos (AAS). Mais que isso, alguns elementos simbólicos mais complexos e sub-liminares parecem estar envolvidos, como a demonização da própria FORÇA (The Demonization of Anabolic Steroids, Part 1 – What Makes These Hormones So Evil?  http://thinksteroids.com/articles/demonization-anabolic-steroids-01/ ).

Também acredito que a prática de caça às bruxas que caracteriza hoje o combate ao doping nos esportes é não apenas ineficiente, autoritária, em boa parte anti-científica, como tem relações com agendas políticas e econômicas ocultas de grande relevância, como as das estruturas de poder no esporte (as federações e órgãos reguladores, que têm um instrumento de controle de grande violência nas mãos) e a indústria farmacêutica (Anti-doping  – Marilia Coutinho http://mariliacoutinho.livejournal.com/47710.html ).

Finalmente, tenho argumentado insistentemente que o problema de saúde relacionado a abuso de substâncias ergogênicas não é o atleta, e sim o usuário recreacional, que só poderá tomar decisões em seu favor com mais informação (http://www.slideshare.net/marilia05/o-uso-indiscriminado-das-drogas-otimizadoras-de-performance ).

No entanto, a consciência de que há “algo errado” em condenar de maneira simplista o uso e os usuários de AAS levou uma parte grande das pessoas, particularmente atletas e entusiastas do treinamento com pesos, a uma atitude especular e especularmente perigosa: a idéia de que não há risco nem perigo algum. Essa falsa noção de segurança no uso de AAS é fortemente estimulada pelos agentes do mercado negro, em especial os sites de venda destas substâncias que disseminam informação equivocada e sem base científica.

O problema do mau uso de AAS, principalmente sua auto-administração ou prescrição por leigos, é que os efeitos negativos não se restringem à toxicidade e aos conhecidos efeitos colaterais fartamente discutidos. O mau uso de AAS cria drogadictos inocentes entre uma população não propensa a uso de substâncias recreativas.

Além disso, os efeitos psiquiátricos de curto e longo prazo são dramáticos. Vão desde a inevitável ansiedade até comportamentos agressivos, paranóicos e depressão. O crescimento do uso indiscriminado de AAS entre adolescentes, cujos motivos estão mais relacionados a questões de auto-estima e auto-afirmação masculina, criou uma epidemia de casos psiquiátricos graves. É possível que a auto-administração de AAS agrave ou manifeste desordens psiquiátricas como a desordem bipolar, transtornos depressivos e de ansiedade, além de outros.

Entre atletas ou “quase-atletas”, a coisa é melancólica: grandes talentos se perdem porque perdem a fé em sua própria força e competência. Vi não um ou dois grandes atletas que ironicamente “compraram” o argumento de que sua performance excepcional era produto dos AAS, exatamente como acusavam seus detratores.

O que fazer diante disso? Bato na mesma tecla de que a caça às bruxas e combate terrorista praticado pelos órgãos de controle ligados à WADA só produz mais drogadictos. Substituir o moralismo por educação seria um grande passo. Outra medida importante seria conscientizar a população de que auto-medicação é sempre arriscado. Não há nada de errado com o medicamento em sim, mas fazer “stacks” indicados por idiotas sem formação nenhuma, empilhando deposteron, hemogenin, dura e o que for a bola da vez, é equivalente a jogar o conteúdo de vidrinhos sem rótulo dentro de um tubo de ensaio e esperar para ver se explode.

A terceira medida, conseqüência lógica da anterior, seria promover atitudes mais realistas e inteligentes entre a comunidade médica. Se o mau uso está gerando uma epidemia de casos psiquiátricos e de desordens endocrinológicas, o USO é buscado por muitos e muitas vezes é inevitável. Trata-se de ajudar o paciente, e não condená-lo ou rejeitá-lo. O médico que ganha a confiança de seu paciente venceu a batalha contra o traficante.

Perdi amigos que viraram outras pessoas com o uso crônico e errado de AAS. Achei por bem escrever este artigo como alerta e reflexão sobre o maniqueísmo em que caímos quando a discussão perde a objetividade e racionalidade, quando vira briga religiosa ou eleitoral.

Trazer a conversa de volta ao terreno dos fatos e da neutralidade moral beneficia a todos, menos aos poderosos e à indústria farmacêutica. Danem-se eles.

 

Impact of anabolic androgenic steroids on adolescent males.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20096713

The Sturm und Drang of anabolic steroid use: angst, anxiety, and aggression.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22516619

Neurochemical consequence of steroid abuse: stanozolol-induced monoaminergic changes

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22197661

Nonprescription steroids on the Internet.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22080724

A diagnostic interview module for anabolic-androgenic steroid dependence: preliminary evidence of reliability and validity

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20545384

  • Custódio

    Marília,
    Conheço o uso médico do AAS. Desconheço estudos randomizados de longo prazo com AAS com indivíduos saudáveis. Somos dependentes na produção de conhecimento de estudos de qualidade inferior ou pequenos experimentos. Se quiséssemos estudar alterações do humor em pessoas saudáveis em uso AAS, teríamos que nos contentar com as pessoas que declaram o uso e estejam em concordância com a participação do estudo. Isso já cria um viés.
    Em relação aos atletas, não há quem não utilize algum medicamento em alguma fase de seu treinamento. Sou mais favorável que se libere o uso desde que declarado, mas continuamos a fazer os exames. Os exames só serviriam para testar a confiabilidade das informações declaradas e eventualmente identificar novas substâncias . Não servem para punir.
    Quando leio os relatos dos moços que se propõe a utilizar anabolizantes, percebo que a questão mais determinante no uso é a falta de educação. Sua proposta atenderia plenamente. Esses meninos não sabem nada de nutrição, treino e não tem condição de alimentar-se adequadamente em razão de desvantagens sociais. Podem acreditar que uma droga vai corrigir distorções históricas.
    OC

    • Marilia Coutinho

      Excelente comentário, O.C. Seu alerta sobre as dificuldades metodológicas para estudos científicos efetivamente conclusivos é muito importante. Não sabemos e vamos continuar sem saber, apenas “suspeitando” que algo publicado corresponde ao que vemos no nosso dia-a-dia.

      Se o hipócrita e investidíssimo de interesses anti-doping fosse eliminado e as substâncias pudessem ser prescritas e utilizadas livremente, a informação fluiria melhor e os médicos poderiam fazer medicina.

      O uso correto de alguns AAS CORRIGE, e não causa, transtornos psiquiátricos – é o que sugerem timidamente algumas evidências publicadas com depressão e até mesmo desordem bipolar.

  • São muitos os problemas sérios à serem discutidos e esclarecidos.Em minha opinião, notadamente o fato da esmagadora maioria leiga(ou não), acreditar que os feitos dos atletas(de força), são possíveis somente pelo uso de drogas.Até mesmo atletas, como bem diz a Marilia, acabam por desacreditar do seu potencial e dar crédito apenas à este ou aquela fármaco da moda.E o pior, com isto multidões, notadamente de jovens, são levadas ao uso por acreditarem nesta falácia.
    Endosso plenamente a proposta da Marilia de voltar a falar do assunto públicamente, com fatos e amparo científico.Todos ganham com ações do tipo, salvo aqueles que lucram com o atual estado de coisas.
    Eugênio Koprowski