Comecei. Ou recomecei. Essas coisas são causas perdidas: a gente começa, mas por algum motivo que jamais foi elucidado, o projeto de desentulhamento jamais é concluído. Quem já não viajou de mudança e na última hora entulhou a casa da mãe, do irmão, da ex, dos amigos com “coisas” que sobraram da tentativa desesperada de desentulhamento?

Pois é. Eu tive um “momento desentulhatório” uns (poucos) anos atrás onde calculo ter jogado fora cerca de 400kg de material xerocopiado que estava guardado desde o meu mestrado. Eu defendi o dito cujo quando estava grávida da Mel, que este ano faz 24 anos. De vez em quando eu me proponho bravamente a seguir uma “rotina desentulhatória” e estabeleço metas diárias: jogar 5 papéis, 5 frascos plásticos e 5 objetos quebrados fora todos os dias. Ou selecionar 3 peças de roupa por dia para dar (ou jogar fora, conforme o estado). Nunca deu certo nem a médio prazo.

Agora, por algum motivo, ataquei coisas muito antigas. Talvez eu tenha manifestado nas coisas alguns outros ataques mais impalpáveis. Comecei por livros xerocopiados e estabeleci um programa. Esse programa me assusta e me excita ao mesmo tempo. A analogia com despir-se é assustadoramente viva. Vou despindo cascas de entulho e mais cascas. E aí? Como fico eu, depois, sem as ditas cascas? Como um inseto em ecdise, recém liberto da casca morta, lindo, branco e vulnerável.

Que medo.

Mas vamos lá, porque assim como para as baratas e besouros, não há outro jeito de crescer se não jogar fora a casca que não nos serve mais.

No próximo capítulo, os livros.