Vou começar pelos objetos muito estranhos. Os mais estranhos eram dois vidros de palmito com um pó preto dentro, ao lado de outro vidro com uma aranha armadeira morta. É tão estranho que é preciso contar a história deles.

O ano era 2009. Um ano absolutamente negro, macabro, beirando o surreal ou até o não real. Coisas completamente independentes umas das outras contribuíram para que a vida ficasse quase, quase desgovernada. Foram três eventos: a aproximação de um psicopata – isso, desses de Law and Order – na minha vida; um acidente de agachamento que causou uma ruptura completa de ligamento cruzado anterior, esfacelou a cartilagem, arrebentou os meniscos e trincou a tíbia; e um buraquinho no chão do quintal que se transformou numa catástrofe arquitetônica que arrebentou o chão, fez o muro cair, fez com que meus dois cães se perdessem, me custou 35 mil reais, os quais foram absorvidos por um sujeito charlatão que não completou o serviço.

O psicopata era psicopata mesmo, diagnosticado pelo psiquiatra forense que teve que ser contratado junto com meu advogado depois de dois boletins de ocorrência registrados. O cara era um stalker que seguia meus passos digitais havia três anos. Quando ele se enfureceu por algum item do scrip dele ter sido frustrado (psicopatas são assim), ele resolveu fazer um inferninho básico na minha vida, quase comprometendo contratos, reputação e, como é descrito na literatura médica, recrutando pessoas sem comprometimento patológico, mas que aderem por oportunismo.

Paralelamente a isso, eu sofri o tal acidente, em junho. Insisti em não operar e manter o projeto de participar de um campeonato mundial. Não foi possível: tive que abortar o plano e fui operada em novembro, não sem antes ter que entrar numa guerra contra a Medial envolvendo imprensa e órgãos de defesa do consumidor.

E o psicopata subindo parede, postando coisas do arco da velha a meu respeito na internet, uma festa.

No meio de tudo isso apareceu uma aguinha no quintal, perto da cozinha. Parecia um vazamento. Como continuava ali, assuntei entre os conhecidos quem poderia resolver meu problema. Apareceu esse sujeito chamado Bel que investigou e descobriu que a água vinha de outro lugar. Cavando, descobrimos uma cratera de mais de um metro e meio de diâmetro há uns 3 ou 4 metros da água que brotava. Erros de construção fizeram com que poços fechados e abertos e sei lá mais que fossem erodindo o terreno nessa área. De fato, o chão estava abaulado, o piso da varanda trincado e havia uma grande rachadura no muro. Ao abrir a cratera, começou a chover. Daquelas chuvas que não param nunca. O muro caiu. Quase esmagou um dos trabalhadores.

Dois dos meus cães escaparam para a rua e nunca mais voltaram: a Pagú e o Bartok. Tentamos colocar faixas com a foto deles mas nunca conseguimos recuperá-los.

E o psicopata delirando, e o meu joelho arrebentado e tudo virando do avesso.

A casa sempre teve goteiras e nesse ponto ela chovia dentro quase da mesma maneira que fora. Um exame do forro mostrou que ele estava apodrecendo por conta disso. Se não fosse feito algo, eu corria o risco de perder a própria casa. O mais sensato pareceu colocar uma manta de alumínio sob as telhas, uma coisa caríssima.

E agora vocês vão entender os vidros com o pó preto.

Parou de chover e começou a obra de destelhamento da casa para colocação da manta. Havia uma camada deste pó preto sob as telhas. Eu creio que seja um misto de guano (excreta de aves, mistura de fezes com urina) de pombos e outras aves, fezes de saruê (gambá brasileiro), rato, morcego e outros bichos, aranhas, escorpiões e outros artrópodes mortos e sabe-se lá mais que. Até este ano, eu vivia ciclos de infestação de armadeiras, aranhas enormes, agressivas e extremamente perigosas, pois seu veneno é forte. Pode ser letal.

Quando os trabalhadores, eu, a Rita (minha ajudante) e o meu coelho branco tivemos contato com o tal pó preto, pela primeira vez, o resultado foi inacreditável: todos os trabalhadores adoeceram, a Rita foi parar no hospital e eu tive a infecção mais estranha da minha vida. Começou com uma diarréia de se transformou num líquido verde, febre de até 40 graus com direito a delírio, além de outros sintomas que esqueci. Não adiantava ir a hospital algum: estes sintomas são característicos de infecções virais ou fúngicas que acometem espeleólogos. Meu médico estava preocupadíssimo.

O coelho branco, meu companheiro mais íntimo, que morava comigo solto dentro de casa, morreu de meningite por esta infecção.

Em mim, os sintomas voltaram umas duas vezes e depois nunca mais.

Eu guardei o pó preto para eventualmente levar a algum centro de controle destas doenças raras, mas nunca achei o contato para isso.

Os dois vidros de palmito com o pó dentro ficaram aqui, numa estante. Os cães nunca retornaram. A casa se tornou habitável. O psicopata foi confrontado pela lei e sumiu, deve ter achado outras vítimas.

Quatro anos depois os vidros continuam aqui. Por que? A verdade é que eu não vou conseguir ter paciência e competência para fazê-los chegar às mãos de nenhum pesquisador que deles possa fazer algum uso útil. Tenho certeza que ali tem alguns vírus e fungos horrorosamente raros e perigosos, mas eu não vou tomar essa responsa para mim.

O problema, hoje, era como jogar fora um material tão perigoso. Biohazard na dura. Eu não sou louca de abrir os vidros e tocar fogo, por exemplo. Foi exatamente inalando essa merda que eu fiz uma viagem psicodélica involuntária e me transformei numa taturana do avesso, como diz o Silas.

Resolvi da seguinte maneira: peguei um pote vazio de whey, forrei com jornal, embrulhei os vidros com jornal e coloquei cuidadosamente dentro. Coloquei mais jornal amassado par evitar impacto, derramei álcool dentro do pote (medida sem nenhuma eficácia, sei lá por que eu fiz) e fechei. Foi o melhor que consegui pensar. Está dentro de um saco de lixo lá fora agora.

Parêntesis provocativo: alguém lembra do que eram feitas as poções mágicas das bruxas malignas? Asas de morcego, sapos, aranhas… não parece um pouco esse pó, hein?

Voltando à realidade, agora aos aparelhos estacionados aqui, acumulando pó, nhaca (para quem curte um Feng Shui) e feiúra. Tinha um toca discos com uma tampa mambembe, colada com durex, um amplificador (alguém lembra o que é isso?), um VCR e um monte de fita cassete com coisas até importantes, mas certamente sem nenhum registro. Espero que a transcrição deste material esteja a salvo na USP. Juntei tudo e coloquei no carro ontem. Tentei achar uma loja de conserto de eletrônicos, mas estavam todas fechadas. Deixei no carro para fazer isso amanhã.

Hoje descobri um computador inútil ancestral, um monitor antigo, um DVD player externo de velocidade nada e outras coisas. Botei tudo no carro. Amanhã alguém vai ficar feliz ou não de ganhar isso tudo. Se ninguém topar, vira lixo mesmo.

Comecei a percorrer cestas, caixas e lugares escondidos nas estantes onde objetos quebrados ou sem par estavam sedimentados, provavelmente há anos. Joguei a maioria fora.

Tudo isso que eu fiz não corresponde nem a 10% do universo de objetos com diferentes graus de erosão de significado que constituem o meu ambiente doméstico.