Aqui eu tenho que admitir que minha vitória foi extremamente parcial. Quase nada, para falar a verdade. Por que seria?

Remédios vencidos contam um pouco da nossa história com a dor. De todas as camadas de desentulhamento que eu percorri até agora, esta é a mais – perdão pela redundância – dolorosa.

O que eu consegui: jogar fora medicamentos (e só alguns) que o Akela tomou quando estava morrendo. Akela é meu cão que faleceu dia 31 de março de 2011. Nasceu na minha casa e foi meu companheiro por 15 longos anos. No fim da vida ele desenvolveu câncer. Foi operado, parecia que se recuperava, mas em poucos dias a tendência se reverteu.

Cães raramente demonstram dor. Nesse ponto, ele demonstrava, gania, gemia. Tinha que tomar tramadol e antibióticos. Os medicamentos causavam desconforto gastro-intestinal, de modo que tinham que ser acompanhados por famotidina, plasil e o que fosse possível aliviar o mal-estar.

Até chegar na cirurgia, houve bastante tratamento anti-inflamatório e algumas infecções.

Pensar que eu joguei estas drogas fora apenas agora dá uma medida das dificuldades do desentulhamento e, especificamente, daquilo que se refere à dor.

Perder o Akela foi uma das experiências mais dolorosas pelas quais eu passei. Num domingo à noite, vendo que ele sofria muito, fui até a clínica São Francisco, perto da minha casa, e perguntei se fariam a eutanásia. Eu mal conseguia falar, de tanto que chorava. Tenho uma gratidão infinita pelo pessoal daquela clínica, que teve uma habilidade e compaixão para lidar com a minha dor e com a necessidade de alívio do meu amigo que eu jamais esperava de qualquer ser humano.

Ali eu comecei a me despedir do meu amigo.

Acho que estes dias, jogando fora os  remédios, dei um passo a mais nessa despedida.

Quem sabe eu quase consiga abrir mão também dessa dor e me desentulhar um pouquinho mais.

Achei um Otosinalar, um medicamento para dor de ouvido, vencidíssimo. Não joguei fora. Há anos não tenho dor de ouvido. No entanto, a lembrança das otites recorrentes da infância, de não ter o medicamento à mão, não me abandona. Se é assim, talvez esteja na hora de comprar outros frascos e jogar este fora.

Tenho dois frascos de forte neurolépticos do tempo em que minha luta contra a desordem mental e a morte eram dramáticas e desvantajosa para o meu time. O apego a estes frascos em parte reflete o medo daquele mergulho vertiginoso no caos da loucura e também algo prático: duas vezes eles foram necessários. Uma vez foi quando meu sistema nervoso central desligou o sistema de sono. Na classificação de tipos circadianos, eu sou uma vespertida estrita. Ou seja: não tenho a capacidade fisiológica para me adaptar ao período matutino. Nesta ocasião, tive que me levantar três dias seguidos às 5:30h para cumprir uma obrigação profissional. O resultado foram 72h sem dormir. No terceiro dia, os sintomas já estavam preocupantes. Apesar da tontura e confusão mental, não conciliava o sono. Eu sei o que fazer nesta hora: CONTROL – ALT – DEL. Reboot no sistema, neuroléptico forte. É horrível, dá ressaca, mas funciona.

A segunda vez foi quando, após a minha cirurgia de reconstrução do ligamento cruzado anterior, eu perdi o controle durante certas agressões. Não pretendo correr os riscos que já corri antes, não tinha meu treino para segurar a onda e eu sei que fiz o correto usando o neuroléptico.

Agora tenho hidrocodona nova. Por anos guardei a hidrocodona vencida da cirurgia de vesícula de 2001. Sei muito bem o quão burocrático o sistema hospitalar brasileiro é e quão burras podem ser as enfermeiras, mesmo num hospital privado cinco estrelas. Então eu mantenho analgésicos “super-power” para o caso de emergências, que já ocorreram um par de vezes estes anos. Primeiro eu controlo a dor, depois eu discuto com médicos e enfermeiras babacas em emergências hospitalares. Uma única vez que deixei de fazer isso podia ter resultado num processo de agressão física, pois eu tentei atacar o médico. Não é muito bom isso.

Remédios vencidos são realmente um desafio emocional para o qual eu ainda não estou totalmente preparada.