Eu gostaria de comentar o último item da pauta que o Thiago listou: “o mais importante é entender o que o cliente quer”. Gostaria de fazer isso em analogia ao que ocorre na profissão médica.

Existem evidências tanto sistemáticas (pesquisa) como anedóticas de que sempre que possível, as pessoas buscam um atendimento de saúde alternativo à medicina “mainstream”. Refiro-me aqui à medicina chinesa, à acupuntura, a osteopatia, entre outras.

O motivo, segundo os estudos, é o maior entendimento que os profissionais destas modalidades têm do que a pessoa (paciente) quer. Isso pode ser medido em tempo de atendimento e nos protocolos de atendimento.

Infelizmente, o médico não só trabalha em condições precárias, hoje, como os que não trabalham partilham a péssima formação humanística dos coitados. Nenhum tem capacitação ou experiência para lidar com a individualidade biológica, os desejos, ansiedades e expectativas do paciente. Em sua arrogância e negligência, impõe tratamentos.

Eu não acho muito diferente do que o Thiago salientou para o treinador que faz isso.

O paciente, o aluno, o cliente, quer e necessita ser visto em sua individualidade, quer ele saiba tecnicamente o que é isso ou não.

Eu não sou personal trainer mas já treinei gente-não-atleta. Estas pessoas me ensinaram muita coisa. A primeira pessoa que eu treinei era uma amiga. No segundo mesociclo dela, eu achei que “o melhor para ela” eram determinados exercícios multi-articulares que lhe dariam consciência da contração da musculatura dorsal.

Peito para fora, certo? Ombro para trás.

Não consegui ensinar um único exercício no dia e no fim saímos da sala, ela muito perturbada, nos despedimos e ela me ligou o dia seguinte. Tinha chorado a noite toda. Essa moça foi barbaramente abusada pela mãe durante a infância. Ela automatizou uma postura de proteção das vísceras, encolhendo-se. O ombro protruso é crônico.

O que ela queria? Queria ficar forte e bem. Mas certamente não queria sofrer os horrores de reviver violências como as que ela passou.

Não importa o que eu achava que era o melhor para ela. O melhor para ela era o que ela dissesse e concordasse que era. O meu papel seria interpretar isso em termos de um protocolo de tarefas motoras que não conflitasse com a “memória corporal” dela.

Felizmente, nem todo mundo passou pelo que minha amiga passou. No entanto, todo mundo tem sua individualidade. A medicina mainstream aterroriza as pessoas porque não incorpora isso na sua prática.

Quem sabe, nisso, a Educação Física possa inovar… e dar exemplo à medicina.