Ele odeia você. Você, essa preta fedida, esse playboy de merda, essa branca nojenta que não admite os próprios privilégios, esse velho caquético, esse moleque retardado, essa gorda. Ela odeia você porque você sabe muito mais, porque você sabe muito menos, porque você não fala a língua dele – você, seu gringo escroto -, porque você fala a língua dele – você, seu gringo escroto. Ele odeia você porque você não dá a menor bola, porque você não o enxerga, porque você não escuta o que ele diz, porque você não se interessa pelo jogo dele. Ela odeia você porque você nem sabe quem ela é. Ele odeia você porque você não tem medo. Ela odeia você porque, do alto da sua indiferença, você a faz sentir-se o nada que ela suspeita que é. Ele, cuja mãe já tinha dado a dica, cujo pai deixava escapar no olhar o desprezo, cuja professora o sabia ser medíocre, cuja professora nem queria entender como ele resolvia rápido a equação. Você é aquela professora sabida, burra, genial, a mãe que reprova, o pai que despreza. Você é muito pior que todos eles: antes ficar trancado em casa com o desprezo conhecido do que com você. Você, essa preta fedida e arrogante com seu mestrado, esse playboy de merda que vomita equações, essa branca pedante com seu discurso paternalista, esse adolescente pentelho, esse velho condescendente. Você, o outro, essa outra que insiste em ser incompreensível, que insiste em não dar nenhuma fresta para ele na sua estranhíssima vida.