O médico disse: use Tylox apenas se a dor for muito forte, insuportável. Caso contrário, procure usar só o relaxante muscular e anti-inflamatório. O que é uma dor insuportável? Eu acho essa dor MUITO INSUPORTÁVEL. Minha reação a ela é muita raiva, impotência e… tomar oxydocone (que é a parte punk do tylox, o 4,5-α-epoxy-14-hydroxy-
3-methoxy-17-methyl-morphinan-6-one)
. Oxycodone é um opióde, uma coisa da família da morfina e da heroína. Sim, é cheia de efeitos colaterais. Forte. Dá zonzeira e um certo mal-estar. Dá prisão de ventre. Não é agradável a sensação – não consigo imaginar ninguém ficando dependete de oxycodone exceto se tiver uma dor insuportável crônica – não é o meu caso. Essa dor tem prazo para terminar: terça-feira. Foi o que o médico disse: uma semana sem treinar e tomando remédio e passa tudo. Me tratou como uma menininha, então retribuo agindo como uma, com uma fé sem questionamentos na previsão dele.

Não tem oxycodone para comprar na farmácia, aqui no Brasil. Eu trouxe dos Estados Unidos, da última cirurgia que tive que fazer lá. Extraí pedra na vesícula – uma só, gigantesca, do tamanho da vesícula, que foi-se junto com a pedra.

 

Oxycodone é isso aqui:

 


 

Tomei oxycodone durante três e apenas três dias. Sobraram dois frascos cheios da droga. Nos Estados Unidos, a lógica do sistema de saúde é o tratamento o mais barato e pouco intensivo possível do ponto de vista de mão de obra especializada. O negócio é despachar você para casa com frascos de opióides para você administrar sua própria dor e miséria sem encarecer os custos privados deles. Eles ganham bastante dinheiro em cima de você. E eu ganhei muito comprimidos de oxycodona.

Como aqui no Brasil a lógica é outra e existe uma paranóia estranha em relação a analgésicos (encontra-se de tudo nas farmácias, a legislação é frouxa com tráfico de drogas, mas, ao contrário dos Estados Unidos, há um controle inexplicável sobre analgésicos), eu guardo minha oxycodone como se fosse ouro ou diamante. Sei que num momento de dor os médicos não vão se impressionar com nada menos do que urros e surtos e ainda corro o risco de uma interação psiquiátrica. Passei por uma atroscopia bilateral dos joelhos aqui, fui tratada como uma rainha no Hospital do Coração, mas de analgésico, o máximo que me deram foi Tramal.

 

Dor de qualquer tipo intimida. Restringe nossos movimentos. Restringe até nosso pensamento. Irrita. Acredito que, se crônica, deve deprimir, pois não posso imaginar isso aqui por muito mais tempo. Perco o bom-senso em relação a quase tudo, a começar por analgésicos. Sem acesso a eles, a raiva e revolta por ter que sofrer a dor teriam que ir para algum lugar.

 

De uma certa forma, a dor faz abaixar a bola. Me dei conta, um pouco envergonhada, que não posso cometer esse tipo de porra-louquice com treino mais. Sou proprietária de uma academia, tenho uma responsabilidade com meus alunos. Foi um mau exemplo. Puxa… Foi maus…

 

A dor causa mau-humor e nos torna sérios. Acho que alguns períodos de mau-humor podem ser necessários, não sei. Não gosto e quero que passe logo, mas não posso reclamar que seja improdutivo esse período.

 

Talvez seja verdade que mesmo as dores e sofrimentos tragam lições e conhecimento. Não na hora, porque na hora só temos raiva deles. Talvez depois. Vamos ver.

 

Marilia

 

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