A academia onde eu treino, a GCA, fica no bairro de Paraisópolis, em São Paulo. A GCA é uma academia de powerlifting e fitness que, por isso e por sua localização, produz uma mistura incrivelmente heterogênea de interesses e perfis. É frequentada por todo tipo de gente, desde atletas de elite de nível internacional até senhoras de nível socio-econômico precário buscando uma melhor qualidade de vida. O proprietário e técnico dos atletas da GCA é Gilson Clemente, um educador físico reconhecido no Brasil como uma das maiores autoridades em powerlifting, além de profundo conhecedor da região.

Paraisópolis, a segunda maior favela da segunda maior capital da America Latina, é sempre surpreendente para um visitante despreparado. Em primeiro lugar, porque fica a poucos quarteirões seja da Giovanni Gronchi, seja da Av. Morumbi, numa das regiões mais nobres da cidade. Em menos de 500 metros, atravessa-se um abismo em estatísticas públicas: IDH, renda percapita, anos de escolaridade e o que mais se quiser medir. Atravessada essa geografia quantitativa, estamos em outro país e outra cultura. Crianças perseguem cachorrinhos pela rua, grupinhos de mulheres conversam nas esquinas e homens se dedicam a seja lá o que for em cadeiras colocadas nas calçadas. As ruas são tão estreitas que nenhum ônibus convencional passaria, de modo que existem pequenos veículos coletivos que invariavelmente entopem o caminho, mas circulam. Rapidamente se assimila a ética de encostar ou subir um pouco nas calçadas para lhes dar passagem e depois retomar seu rumo. A velocidade média não é regulamentada, mas não pode jamais passar dos 40km/h: a via é, decididamente, dos pedestres e qualquer um pode ver.

Paraisópolis ficou conhecida por alguns projetos sociais bem-sucedidos. Várias ONGs atuam na área. Existem mais de 50 associações que oferecem cursos de capacitação e formas variadas de fortalecimento social para os moradores de Paraisópolis. Se tudo isso funciona, ainda não sei.

Pablo Tiarajú D’Andrea escreveu um artigo curto e bom disponível online (http://www.centrodametropole.org.br/divercidade/numero4/paraisopolis3.html ) sobre Paraisópolis. A percepção deste autor de que o bairro vive e viverá um eterno conflito por sua contiguidade com os bairros nobres de seu entorno, que obviamente atraem intervenções poderosas, é interessante.

O quanto intervir em Paraisópolis é um desejo sincero em contribuir para dignificar seus moradores e reduzir as desigualdades, é impossível para mim, que acabo de chegar, diagnosticar com um mínimo de precisão. Vejo programas de grandes empresas, como a Bristol-Meyers Squibb (http://www.bms.com/static/ehs/facili/data/saopau.html ), em cooperação com o Hospital Albert Einstein, em prol das crianças de Paraisópolis.  

Outra intervenção é feita pela ONG “Florescer” (http://www.ongflorescer.com.br/) , dirigida pela empresária Nadia Bacchi que criou um projeto de produção de roupas para exportação. O projeto gera emprego para cerca de 30 mulheres, mas ficou nacionalmente conhecido pela sua estrutura e marketing.

Existem algumas intervenções no mínimo diferentes, como aquele do Centro de Psicossíntese de São Paulo, o projeto Psicossíntese e Florais de Bach no Núcleo II da Creche das Obras Sociais do Mosteiro São Geraldo, que atende gratuitamente a população de Paraisópolis para tais tratamentos alternativos (http://www.psicossintese.org.br/Main/CPSP_Painel.asp#Paraisopolis ).

Pesquisadores universitários se dedicam a aspectos variados da vida social da favela.

Para mim, Paraisópolis é o lugar onde vou praticamente todos os dias mais do que para treinar, mas para fazer parte da grande família do powerlifting da GCA. O que acontece lá dentro é indissociável do que acontece em volta.

O que percebi e senti ali foi um grau de aceitação quase que incondicional. Ninguém me pediu carteirinha, atestado médico ou me exigiu nada. Ganhei colegas de equipe e um técnico, personagens cujo significado deixo para comentar em outro post. Mas adianto que o valor de ambos é inestimável. Em troca, eles têm de mim a dedicação, a disciplina e o companheirismo da ética do esporte, mas muito além disso a aceitação, aceitação total e incondicional com que fui recebida – daquilo, do que estiver em volta e em volta e em volta…

 

Marilia

 

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